Ao DIA, uma lojista, que preferiu não se identificar, contou ter recebido ordens do tráfico para o fechamento do estabelecimento. "Foi desesperador ver aqueles homens mascarados saindo e tirando os motoristas do ônibus, e aquela correria aqui dentro da galeria. Foi muito desesperador, tanto para nós, lojistas, quanto para os clientes, que ontem perdemos. No caso, perdemos muitos clientes por conta desse movimento que teve em Madureira, e foi um negócio que durou o dia todo. Então, para nós, moradores e comerciantes, foi uma coisa muito desesperadora", disse.
De acordo com a empreendedora, um dia fechado é muito significativo. "Isso é muito importante para nós. Eu tive que ir para minha casa correndo — graças a Deus, moro perto — mas eu poderia estar morando longe e ter que ficar no local de trabalho, sendo que aqui é perigoso, até porque foi bem em frente, aqui. Eu vi toda a cena, todo mundo correndo, todo mundo gritando... foi desesperador mesmo", frisou.
A aposentada Maria José, de 91 anos, moradora do bairro desde que nasceu, contou que estava chegando em casa quando a confusão começou.
"Eu tinha acabado de chegar de Jacarepaguá, entrei ali na farmácia. De repente, começou o pessoal a descer ali do morro: 'Fecha, fecha, que vão botar fogo no ônibus!' Aí, aquela correria, e eu presa lá dentro da farmácia. Aí liguei pra minha neta, que estava aqui em casa, e foi correndo me apanhar lá. E aqui já tinha um ônibus atravessado, sem a chave, né? Aí começou aquele alvoroço, e aquilo foi o dia inteiro.”
Mesmo com a situação normalizada na manhã desta quarta (16), a moradora revelou receio de novos conflitos.
"Eu estou amedrontada, estou apavorada. E hoje eu tinha que fazer compras, porque ontem eu precisava, mas não tive coragem de sair, porque a situação estava terrível. Eles começaram a invadir as lojas, mandaram fechar todo o Mercadão. Eu não gosto que falem mal de Madureira, mas Madureira não é mais a mesma coisa. Aqui era uma tranquilidade. Eu tenho neta, tenho filha que trabalha… a gente fica preocupada, né?", relatou.
Outras duas funcionárias que trabalham em lojas da região, mas preferiram não se identificar, também contaram terem visto homens mascarados durante o sequestro dos ônibus. "Quando homens com rostos cobertos atravessaram o BRT na pista, saímos correndo para dentro da galeria", contou uma delas.
Samba da Serrinha cancelado
Dentre os impactos provocados pela violência está o cancelamento da edição de julho do tradicional Samba da Serrinha, que acontece mensalmente na Casa do Jongo da Serrinha, na Rua Compositor Silas de Oliveira, em Madureira, na Zona Norte;
Através de uma nota publicada nas redes sociais, os organizadores do evento publicaram que a prioridade é zelar pela integridade e segurança de todos.
"Em respeito a todos que fazem do Samba na Serrinha um encontro de alegria, memória e afeto, nosso público, músicos, equipe e comunidade, informamos que a edição do mês de julho está cancelada. Seguimos juntos, com esperança de dias mais tranquilos para que possamos nos reencontrar em breve, com a mesma energia que sempre nos uniu", disse.
Operação
Segundo a PM, a operação que teve início na segunda-feira (14) foi encerrada na manhã desta quarta (16). Durante os três dias, os agentes prenderam cinco suspeitos e outros dois criminosos, integrantes do tráfico da Serrinha, foram mortos em confronto. Além disso, as equipes apreenderam dois fuzis, carregadores, munições, uma pistola, 10 granadas artesanais e drogas. Um total de oito veículos, que constavam como roubados, também foram recuperados.
Agentes do NAOE retiraram nove toneladas de material utilizado como barricadas, que obstruíam 23 pontos de bloqueios em sete vias. Estruturas de concreto conhecidas como "seteiras", utilizadas por criminosos para posicionar fuzis e atirar contra as forças de segurança, também foram destruídas. No alto da Serrinha, locais utilizados como esconderijo e ponto de apoio para a movimentação da Organização Criminosa na disputa territorial, também foram desmobilizados.
Em meio à movimentação na região, moradores da Serrinha fizeram um protesto na Edgard Romero, em frente ao Mercadão, com pedidos por paz na comunidade. Participaram desta ação agentes do Batalhão de Polícia de Choque (BPChq), do Batalhão de Ações com Cães (BAC), do Batalhão Tático de Motociclistas (BTM), do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) e de Rondas Especiais e Controle de Multidões (RECOM). O policiamento segue reforçado na região e no entorno.
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