Se depender do Instituto Pretos Novos, na Gamboa, ninguém ficará mais alheio ao que aconteceu aos escravizados ao longo dos séculos. No sábado (26 de julho), às 9h, começou o novo circuito 'Mercado a Mercado: Uma Jornada Pela História da Escravidão e da Luta Preta no Rio', experiência histórica e sensorial que conecta dois dos principais mercados de escravizados do período colonial: o da Rua Direita e o do Valongo. O evento acontecerá todos os últimos sábados de cada mês e o próximo será no dia 30 de agosto.
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Com três horas e meia de duração e ponto de encontro na Praça da Pira Olímpica, ao lado do Museu Casa França-Brasil e do CCBB, os participantes terão uma aula a céu aberto com o Turismólogo e Guia de Turismo do IPN, Rafael Moraes. Ele acredita que o carioca não conhece a sua cidade e essa é uma forma de levar saber para quem tem interesse. E o melhor, de forma gratuita, com inscrição pelo Sympla.
Mais do que um trajeto urbano, o novo circuito propõe uma imersão crítica e consciente na paisagem do Centro do Rio de Janeiro. Conduzido por Guias de Turismo do IPN, o percurso revela como a capital da colônia operava o comércio de corpos negros e como a resistência negra se inscreve, ainda hoje, nas ruas e construções do território.
Mercado a Mercado surge como uma iniciativa do IPN para fortalecer a valorização da memória afro-brasileira, em um momento em que cresce o interesse pelo turismo histórico-cultural e pela justiça histórica. A proposta é iluminar histórias apagadas, dar nome aos que foram silenciados e reafirmar o papel da população negra na formação do Brasil.
De acordo com Rafael Moraes, o carioca sabe pouco sobre a história do Rio. "Acho que pós pandemia as pessoas passaram a conhecer a própria cidade e hoje a área da Pequena África (forma carinhosa de chamar de África Menor uma região da cidade) – englobando Saúde, Gamboa, Santo Cristo, passando pela Cidade do Samba, e também pela Praça Mauá chegando até a Rodoviária Novo Rio e para alguns autores vai além, passando pelo Centro, Cidade Nova, até ás beiras do Rio Comprido – virou uma grande atração turística da região ", diz o profissional, acrescentando que de um tempo para cá a curiosidade sobre o local vem aumentando muito.
"As pessoas querem saber mais a respeito do local. O Jardim Suspenso do Valongo é uma forma de apagamento histórico porque naquela região funcionava parte do Mercado Escravagista do Valongo e colocaram um jardim para apagar a história. As estátuas que lá estão provam que o apagamento existe. A nossa história é toda escravagista, e de anos e anos de resistência mesmo", conta ele.
Muro do Cais dos Mineiros
Na terça-feira (8), acompanhada de Rafael Moraes e da assessora de imprensa do IPN, Roberta Escansette, fiz o circuito. Eu ia me encantando com tanta história e, ao mesmo tempo, ficando triste com tudo que os nossos antepassados sofreram por conta da escravização. O passeio começa na Pira, na região da atual Praça XV, antigo Largo do Carmo, e se estende até a sede do IPN, passando por vários locais como a ruína de um muro com valor muito grande em outro século.
"Olhando para o que a gente conhece só como Praça 15, hoje nada identifica essa região mais como mercado escravagista. Até porque está antes da região do Valongo ainda. O que sobra dessa história toda é aquele pedaço de muro conhecido como Cais dos Mineiros (mercado que abastecia basicamente a província das Minas Gerais). É a única lembrança que resgata o passado", conta Rafael.
Ele acrescenta que os mineiros desciam a serra, vinham até o local para adquirir esse escravizados. E os mineiros, inclusive, não queriam que o mercado saísse daqui, porque eles já tinham certa influência dentro desse mercado escravagista, mas o Marques de Lavradio atendeu a quem tinha mais dinheiro e influência e fez a mudança".
De acordo com o guia de turismo, o local era conhecido como Cais dos Mineiros, mas tarde ficou conhecido como Muro da Patromoria – uma construção feita para pesca da baleia. "Isso foi nos idos do século XVIII. A Baía de Guanabara era um santuário de baleias e a carne pescada era vendida nos talhos da cidade, os açougues de hoje. E o óleo fino, conhecido como óleo de baleia era usado para iluminação pública e o óleo grosso para construção ", pontua.
Muito apagamento histórico
Logo no início do circuito é feita uma contextualização falando sobre a história da região, que foi o antigo mercado, vai caminhando até a Visconde de Inhaúma, entra nessa rua, e sai no antigo cemitério de Santa Rita, fala do cemitério de Santa Rita, vai pela rua Acre, sai na Praça Mauá, contextualiza a área, vai até a Prainha, passa pela Pedra do Sal, vai até o Cais do Valongo, do Cais passa pelo Jardim Suspenso e finaliza o encontro no IPN.
"Começamos no antigo mercado de escravizados, o que foi um dia a região do Largo do Carmo, que hoje é a Praça 15, passamos pelo Cais do Valongo e terminamos no cemitério dos Pretos Novos do Valongo. A gente vem contando essa história, meio que preparando as pessoas para chegar e ver a materialidade disso. Porque se você olhar na Pequena África, é muito apagamento histórico. Quando você chega no Instituto se depara com um grande apagamento, que são os corpos de pessoas escravizadas . Aqui conhecemos Bakhita, um esqueleto que foi encontrado inteiro, e que ganhou o nome de uma santa negra da Igreja Católica, Josefina Bakhita. E temos um laboratório de arqueologia que faz a análise do próprio achado. A gente se questiona muito com as crianças (estudantes que visitam o IPN), o que foi o 13 de maio, né? Será que realmente mudou alguma coisa?".
A indagação é difícil de ser respondida, mas como o próprio Rafael diz é importante contar a história para que ela não aconteça mais. E nada melhor do que visitas com alunos de escolas públicas e particulares para que essa parte da nossa história não seja repetida.
Esquecimento e vida
No Instituto Preto Novos, onde são realizadas exposições, visitas, palestras e debates sobre o letramento racial, é um lugar onde se respira cultura, histórias e lendas. Numa da salas de exposição tem uma representação de um baobá. Rafael explica que para o continente africano é uma árvore sagrada, porque é a árvore da vida e também do esquecimento.
"Diz a lenda que os escravizados, quando eram capturados, como cativos, davam de três a oito voltas ao redor de um baobá para guardar a sua memória. Poucos são os relatos, mas existem de escravizados que voltaram ao continente africano ainda no período escravagista. Então eles procuravam esses baobás e davam as voltas ao contrário para resgatar as boas memórias. O Baobá em seu bioma originário chega a guardar mais de 120 mil litros de água".
Outros circuitos
Herança Africana - VIII Temporada
O Instituto Pretos Novos/IPN abre vagas para o Circuito de Herança Africana de forma gratuita (não podendo ser comercializado), basta só se inscrever e garantir seu ingresso. O Circuito Histórico de Herança Africana promove maior acesso ao conhecimento sobre a história da Zona Portuária do Rio de Janeiro na perspectiva social e cultural de africanos, indígenas e seus descendentes no Brasil..
Cemitério a Cemitério
Este novo Circuito oferecido pelo IPN conecta dois importantes marcos da memória afro-brasileira: o Cemitério dos Pretos Novos de Santa Rita e o Cemitério dos Pretos Novos do Valongo. Durante o passeio, os participantes terão a oportunidade de revisitar uma parte fundamental da história do tráfico negreiro e da diáspora africana no Brasil, descobrindo as marcas deixadas na região pelo sofrimento e resistência dos africanos escravizados.
O roteiro começa pelo Cemitério dos Pretos Novos de Santa Rita, localizado no Centro do Rio, em frente à Igreja de Santa Rita, um ponto que foi utilizado no século XVIII para sepultar africanos. A caminhada segue até o Cemitério dos Pretos Novos do Valongo/IPN, localizado na região portuária do Rio, onde eram sepultados os africanos que chegavam ao país e não sobreviviam à travessia. Este local foi redescoberto na década de 1990 e hoje abriga o Instituto Pretos Novos/IPN, dedicado à preservação e divulgação dessa memória.
Sobre o IPN
Fundado em 2005, o Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos atua na preservação, valorização e difusão da memória da população negra no Brasil, especialmente a partir do Cais do Valongo — sítio arqueológico reconhecido como Patrimônio Mundial pela UNESCO. Inscrições para o evento - Quem estiver interessado em fazer a inscrição para o circuito que está com muita procura deve entrar no Sympla. Podem ser retirados dois ingressos por CPF.
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