32 anos da chacina são lembrados com ato simbólico no RioÉrica Martin
Em suas redes sociais, o Padre Júlio Lancelloti, que estava na celebração, afirmou que a violência vivida pelas vítimas da candelária continua até os dias de hoje.
"Eles não foram assassinados porque eram crianças, mas porque eram crianças e jovens pobres que estavam na rua. A chacina da candelária marcou a história do Brasil e do mundo como um momento grave de violência contra os pobres, só que essa violência continua", disse o religioso.
Ao jornal O DIA, Ana Paula Oliveira, mãe de Johnatha de Oliveira Lima, morto em 2014 por um policial militar e cofundadora do movimento Mães de Manguinhos, afirmou que eventos como esse são importantes para continuar resistindo.
"Tem que acontecer todo ano porque é uma forma de lembrar, de não deixar esquecer, de continuar contando e lutando. Aconteceu há 32 anos mas não parou, é uma máquina de moer corpos pretos e ela continua a todo vapor.", reforça.
Para Mônica Cunha, ex-vereadora do Rio e que também teve o filho morto por policiais em 2006, o que move essa violência é o racismo.
"Nós nos movimentamos desde sempre há 32 anos lutando para que não houvesse mais chacinas como essa, mas com o tempo percebemos que não é só a nossa manifestação que vai fazer o Estado parar de fazer outras vítimas, porque o que move toda essa violência é o racismo existente nesse país e nesse estado.", disse a ex-parlamentar.
O movimento 'Candelária Nunca Mais' surgiu em 1993, após a chacina, como uma forma de resistência e luta em defesa das crianças e dos jovens, especialmente daqueles em situação de vulnerabilidade.
Relembre o caso
A Chacina da Candelária foi um dos episódios mais chocantes da história recente do Brasil e marcou profundamente a luta pelos direitos humanos no país. Na madrugada de 23 de julho de 1993, oito jovens — seis menores de idade — foram assassinados a tiros enquanto dormiam nas proximidades da Igreja da Candelária, no Centro do Rio de Janeiro. As vítimas faziam parte de um grupo de dezenas de crianças e adolescentes em situação de rua que costumavam pernoitar naquela área. Os disparos foram efetuados por homens encapuzados que passaram em dois carros, abrindo fogo indiscriminadamente. A motivação do crime seria porque, no dia anterior, os meninos jogaram pedras em um carro da PM. As vítimas tinham entre 11 e 19 anos.
Investigações apontaram a participação de policiais militares no crime, o que provocou comoção nacional e internacional, sendo denunciado como uma grave violação dos direitos humanos. todos os policiais investigados pelo crime estão soltos. Ao todo, dois PMs e um ex-policial foram condenados pelo massacre, todos com penas que superam os 200 anos de prisão. O agente Nelson Oliveira dos Santos cumpriu pena até a extinção, em 2008. Já o PM Marco Aurélio Dias de Alcântara e o ex-PM Marcus Vinícius Emmanuel Borges cumpriram a pena até receber indultos, em 2011 e 2012, respectivamente.
A repercussão da Chacina da Candelária foi imediata e ampla, com protestos, pressão de organizações de direitos humanos e intensa cobertura da mídia. O massacre tornou-se símbolo do extermínio de jovens pobres nas grandes cidades brasileiras e foi um divisor de águas no debate sobre segurança pública, violência policial e direitos da infância. Até hoje, familiares das vítimas e ativistas cobram justiça e políticas que evitem a repetição de tragédias semelhantes. A data de 23 de julho passou a ser lembrada como um marco de luto e resistência na defesa dos direitos humanos no Brasil.


















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