Rio - Impacto na restrição de celulares nas escolas, alimentação necessária e crescimento na área de tecnologia. Em entrevista exclusiva ao DIA, o secretário municipal de Educação Renan Ferreirinha citou avanços nos primeiros anos à frente da pasta e melhorias para o futuro com o Novo Plano Nacional de Educação (PNE), em que pretende, prioritariamente, aumentar vagas em creches e o número de unidades em tempo integral.
Como deputado federal, Ferreirinha também comentou sobre a adultização nas redes, reforçando que a internet precisa de regras para preservar o bem-estar de crianças e adolescentes, evitando exposição a adultos mal intencionados.
O DIA: O Rio de Janeiro foi a primeira cidade do país a proibir celulares nas escolas, como surgiu essa ideia? E qual a importância de levar a restrição para além das salas de aula?
Renan Ferreirinha: "Eu faço parte de um grupo com secretários de Educação de grandes cidades do mundo todo, e a gente já vinha discutindo essa situação. Mas só em 2023 saiu um relatório da Unesco clamando que governos tomassem decisões sobre o que acreditam ser essa epidemia de distrações e o uso exacerbado de celulares, que acaba gerando desconcentração e falta de interação. Com isso em mente, levei a proposta ao prefeito Eduardo Paes, que prontamente topou.
A gente acredita que, além de aprender português e matemática, que é fundamental, a escola também é um local de interação social, onde a criança tem que aprender a cair, levantar, correr, ser criança, perder e ganhar. Essa convivência é um aspecto essencial. Começamos em 2024 e tivemos resultados incríveis, tanto na percepção dos diretores quanto na melhoria acadêmica.
A partir do caso do Rio de Janeiro, conseguimos criar uma lei nacional. E isso é muito interessante, porque representa a maior mudança comportamental na educação dos últimos 10 anos. Nada alterou tanto a dinâmica das escolas, dos alunos e da postura deles como essa medida."
Uma pesquisa da SME em parceria com a Universidade de Stanford comprovou que alunos da rede municipal aprenderam, em média, 25,7% a mais em Matemática e 13,5% em Português no ano letivo de 2024. Como chegaram a esses números? Por que o aumento maior em matemática?
"A gente já vinha percebendo ganhos significativos em nossas avaliações internas, mas achamos importante também ter uma validação externa. Foi quando a Universidade de Stanford, através da sua escola de pós-graduação em Educação, com o pesquisador Guilherme Lichand, nos procurou. Fizemos a parceria e Stanford conduziu a pesquisa, que mostrou resultados impressionantes. Eles conseguiram medir o impacto da proibição do uso de celulares e comprovaram os efeitos, é como se o aluno tivesse aprendido um bimestre a mais do que teria sem essa medida.
E isso é muito significativo, sobretudo em matemática. Em português, o aprendizado acontece em diferentes ocasiões, conversando, em casa, com a família, onde você pode ser eventualmente corrigido, mas a matemática depende majoritariamente da sala de aula e da professora explicando. É ali que o conhecimento se constrói. Por isso, os resultados chamaram tanta atenção.
E o que considero mais bacana é que esse tema mostra que o Brasil não pode ter complexo de vira-lata. Conseguimos aprovar uma lei nacional antes da Finlândia e da maioria dos países. Nos Estados Unidos, alguns estados estão avançando agora. A Coreia do Sul aprovou a proibição nas salas de aula literalmente na semana passada e ainda discute se vai estender ao recreio. A França e a Austrália também já estão nessa pauta.
Ou seja, o Rio de Janeiro conseguiu colocar essa discussão em nível internacional, começando pela escola pública, que depois foi acompanhada, de forma muito sábia, pela rede privada. Isso, para nós, é motivo de grande orgulho."
A cidade do Rio chegou a 150 milhões de refeições servidas nas escolas somente neste ano. Qual a importância dessa marca?
"Nós temos 1.557 escolas, a maior rede municipal de ensino da América Latina, e servimos mais de um milhão de refeições todos os dias. É impressionante! Não existe política pública no país com maior capacidade de alimentar pessoas do que a merenda escolar. No nosso caso, é uma refeição digna, tem alunos que chegam a repetir o prato. Esse número mostra a magnitude da nossa rede e do nosso papel social, garantindo que as crianças tenham o necessário para aprender. Como diz a pessoa mais sábia que eu conheço, que é a minha avó: 'Saco vazio não para em pé'.
A gente precisa que nossas crianças estejam bem alimentadas, até porque, com a restrição dos celulares, elas estão gastando muito mais energia, correndo e brincando muito mais.
Na pesquisa conduzida em parceria com Stanford, ouvimos 919 diretores, praticamente todos do ensino fundamental da rede e os relatos foram impressionantes, a escola voltou a ter barulho de escola, a convivência retornou. Temos alguns vizinhos reclamando de som de escola, pais que dizem que os alunos chegam em casa mais suados, mais sujos, ou seja, vivendo plenamente a infância. A gente está aqui defendendo a infância."
Essa medida de restrição dos celulares também foi tomada devido à adultização das redes?
"Esse vídeo do Felca sobre adultização tem muita relação com a nossa medida de restringir celulares nas escolas, porque não faz sentido uma criança estar no TikTok enquanto a professora dá aula. Também não faz sentido ela se preocupar com maquiagem no 3º ano do fundamental, com 8 ou 9 anos, quando deveria estar focada em estudar, formar amizades e respeitar os professores.
Hoje, passo 80% do meu tempo como secretário de Educação e 20% como deputado federal, acompanhando pautas como essa. Desde 2021, quando começaram as discussões no parlamento, e em apenas um mês, conseguimos avançar o que sonhávamos há três anos. O vídeo do Felca foi fundamental para popularizar o tema, mostrar que crianças estão sendo expostas a questões que não cabem na infância. Existe uma indústria lucrando com isso, sem nenhuma linha ética nos algoritmos, permitindo que pedófilos e pessoas mal-intencionadas explorem e vulnerabilizem crianças.”
Quais os principais malefícios do uso excessivo das redes sociais para crianças e adolescentes?
"A internet precisa de regras, não pode ser terra sem lei. Não deixamos um filho sozinho na Avenida Presidente Vargas às 23h30, então por que deixá-lo trancado no quarto, conversando com estranhos online? Defendo discutir a restrição do uso de redes sociais para maiores de 16 anos, alguns até defendem 14, outros 16. Essa geração está extremamente suscetível à depressão e ansiedade, pressionada a estar conectada o tempo todo, passando 8, 9 horas por dia online.
Existe até a síndrome do FOMO, o Fear of Missing Out, que é o medo de ficar de fora, que intensifica essa cobrança. É natural que todos enfrentem escolhas difíceis, mas nas redes a comparação é imediata e constante, o que gera crises de ansiedade e diagnósticos de depressão. Não é normal uma criança ter um pico de ansiedade porque não consegue desgrudar do celular. E não é normal vermos as taxas de saúde mental piorarem nesse ritmo, em grande parte pelo uso excessivo de celulares e redes sociais."
Em relação ao Novo Plano Nacional de Educação (PNE), que define os resultados que o país pretende alcançar em 10 anos, quais objetivos você considera mais importantes?
"Eu sou um grande defensor de algumas pautas e tenho trabalhado muito nisso no Congresso Nacional. A primeira delas é a expansão do ensino integral. O Brasil ainda tem números muito tímidos nessa área. O que chamamos de escola em tempo integral, no resto do mundo que aposta na educação se chama simplesmente escola, porque parte do conceito é acompanhar a dinâmica familiar.
Defendo que o Brasil amplie sua meta de ensino integral. Hoje, a meta nacional gira em torno de 20%, mas precisamos chegar a pelo menos 50%. No Rio de Janeiro, sob a liderança do prefeito Eduardo Paes, alcançamos 50% no ano passado e temos a promessa de chegar a 70% até 2028 — muito acima da meta nacional.
O Brasil precisa garantir que todos os seus brasileirinhos e brasileirinhas sejam alfabetizados na idade certa e isso tem que ser uma cobrança firme para municípios, estados e União. Nós nos dedicamos muito a isso, saímos de 56% para 64% de desempenho na alfabetização na avaliação nacional, e hoje estamos entre as seis capitais que superaram a meta de 60%. Esse resultado mostra que é possível avançar, mas o objetivo deve ser nacional, que o Brasil alcance pelo menos 80% e que nenhuma criança fique para trás. A alfabetização mal feita gera um efeito cascata, trazendo dificuldades que se arrastam pelo ensino fundamental, médio e até pela vida adulta. Tudo começa ali, na base, na alfabetização.
Hoje, o Brasil é o país no mundo que mais avançou em conseguir colocar a criança na escola, as pessoas não têm essa dimensão. Em 1985, somente 15% dos alunos de ensino médio de 15 a 17 anos estavam na escola, agora estamos beirando 90% desse público. Então o Brasil avançou muito em trazer a criança e o adolescente para a escola. Para a nossa década, para o nosso plano da nossa educação, a ideia é melhorar a qualidade do ensino."
Em um cenário onde a tecnologia está cada vez mais presente na realidade, como fazer com que ela seja usada de forma favorável à educação? Para além disso, qual o principal foco da educação hoje?
"Em primeiro lugar, a qualidade do ensino precisa ser o nosso principal foco. Outro ponto que faço questão de destacar é o bom uso da tecnologia na educação. Por um lado, somos críticos e proibimos o uso de celulares em sala de aula para enfrentar a falta de concentração e de foco causada pelo uso excessivo e individualizado. Mas não somos contra a tecnologia.
Um exemplo disso são os GETs (Ginásios Educacionais Tecnológicos), o modelo de escola mais inovador do Brasil, criado no Rio a partir de uma provocação do prefeito Eduardo Paes, que queria escolas mais conectadas com os jovens do século XXI. Eles seguem uma metodologia que integra diferentes áreas do conhecimento, como ciências, engenharia, artes e matemática. Basicamente, os GETs são os Cieps do século XXI: escolas em tempo integral que preparam os alunos para os principais desafios do nosso tempo.
A criança aprende lá, desde a cultura até as habilidades manuais, como o cultivo de hortas, como costura, até habilidades extremamente modernas, como o uso de uma impressora 3D, o uso de óculos de realidade virtual, ou ainda o uso do celular com intencionalidade pedagógica — para aprender a editar um vídeo, para aprender a fazer design gráfico e outras questões fundamentais para o desenvolvimento.
E o mais bacana sobre o GET, é que já chegamos a 250 escolas da nossa rede com esse modelo pedagógico. E, até 2028, nós teremos 500 GETs espalhados pela nossa cidade — o que mostra também a confiança da nossa gestão nessa grande entrega."
Sobre a implementação do curso de medicina na PUC, como está o processo? E por que a escolha desta universidade?
"Esse é um processo em que estou extremamente envolvido, eu e o prefeito Eduardo Paes somos grandes defensores na visão do Rio de Janeiro como um polo de conhecimento. Então, da mesma maneira que a gente conseguiu criar o Impa Tech, que é o curso de graduação do Instituto de Matemática Pura Aplicada, no Porto Maravilha, tendo o maior curso de graduação de matemática no Brasil, a gente está agora nessa grande missão de ter o curso de medicina da PUC, que é uma instituição com extrema credibilidade e qualidade, respeitadíssima.
A gente tem trabalhado, batalhado tanto com o Ministério da Educação, quanto o Ministério da Saúde, para que a gente consiga ter esse curso de medicina o quanto antes, através de uma parceria com a Prefeitura do Rio, que tem a disposição de entrar na parceria com Hospital Municipal Miguel Couto, sendo o hospital escola."
A atual gestão realizou a maior expansão de vagas em creches da história da Prefeitura, com a criação de 25 mil novas oportunidades. Há planos para ampliar ainda mais esse número no próximo ano?
"Essa foi uma das nossas grandes conquistas. O Rio de Janeiro foi a cidade do Brasil que mais abriu vagas de creches. A gente tem um compromisso de seguir abrindo novas vagas e esse ano nós estamos avançando nisso também.
Essa questão tem um efeito triplo positivo, pois a creche é importante para a criança, que está no seu momento mais importante de desenvolvimento cognitivo que o ser humano tem. É importante para as famílias, que podem ter a capacidade, especialmente as mães e avós, de entrar no mercado de trabalho, de fazer suas atividades domésticas, ou seja, sabendo que seus filhos vão ser bem cuidados. E a creche também, tem a capacidade de poder, através da contratação de pedagogos, de pessoas que trabalham nas creches, ajudar diversas outras famílias, onde os profissionais de educação também podem estar ajudando suas respectivas famílias."
Em relação à entrega dos kits no início do ano letivo, como é feito esse preparativo? Como está a organização para o próximo ano?
"A gente tem um dia que é o dia do acolhimento que acontece na sexta-feira anterior ao início das aulas. Então, as famílias vão até as unidades pegar os seus kits, uniforme e conhecer os professores. E é incrível, a gente tem kits super elogiados, as prefeituras do Brasil inteiro entram em contato com a gente pedindo ajuda.
Inclusive, já começamos a preparação e o planejamento logístico para a aquisição dos kits para 2027, porque para 2026 está tudo pronto, já estamos com toda a operação em andamento para que sejam entregues para todo mundo até o primeiro dia de aula.
E a gente tem que começar com essa antecedência para 2027 para conseguir cumprir todas as etapas logísticas e burocráticas, e garantir que os nossos carioquinhas tenham tudo que eles precisam para conseguir mandar muito bem nos estudos, que é o que a gente tanto deseja.
Qual a principal marca que você deixa na educação da cidade do Rio hoje?
"Eu acredito que a cidade do Rio de Janeiro, hoje, é a grande referência no Brasil quando se trata do bom uso da tecnologia na educação. Isso se dá tanto pelo estabelecimento de limites necessários, como a proibição do uso de celulares em sala de aula, quanto pela forma como integramos a tecnologia ao aprendizado. Fomos pioneiros nessa regulação, o que resultou em avanços significativos como: o maior Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) da história da nossa rede, o maior crescimento entre as capitais e um ótimo índice de alfabetização.
Por outro lado, a gente também acredita que a tecnologia pode ser uma grande aliada da educação, como acontece nos nossos GETs, onde os alunos aprendem fazendo, através da exploração, por meio de práticas pedagógicas que os animam a estarem na escola.
Crianças e jovens precisam querer estar na escola. Esse é um ponto central para que possamos transmitir uma mensagem clara de que na cidade do Rio de Janeiro estudar vale a pena. E mais do que isso, se o aluno se dedicar e correr atrás, e se nós, como gestão pública, garantirmos as oportunidades certas, o futuro dele pode ser muito promissor."
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