Cláudia Alves fala sobre o benefícios da alfabetização para idososDivulgação / @galeria32

Saber ler e escrever parece algo fácil no cotidiano da maioria das pessoas, mas nem todo mundo teve a oportunidade de aprender no tempo normal e muitas pessoas, inclusive, com mais de 60 anos, voltaram aos bancos escolares para conseguir fazer o que não foi possível na infância e adolescência. Em 8 de setembro comemora-se o Dia Mundial da Alfabetização. Houve muitos avanços, mas ainda falta para que no país não haja mais nenhum analfabeto.Informações do IBGE apontam que em 2024, a taxa de analfabetismo no Brasil foi de 5,3%, o que significa 9,1 milhões de pessoas que não sabem ler nem escrever. Já dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: Educação 2022 revelam que 54,2% dos analfabetos no Brasil têm 60 anos ou mais, mostrando a importância de políticas e programas voltados à alfabetização na terceira idade.
Estudar após uma certa idade também passa a ser um investimento na saúde mental como explica a gerontóloga e pedagoga Cláudia Alves. Segundo a profissional, os benefícios vão muito além do domínio das letras. "A alfabetização na terceira idade estimula áreas do cérebro relacionadas à memória, atenção e raciocínio, contribuindo para manter as funções cognitivas ativas. Esse exercício mental constante ajuda a retardar o processo natural de envelhecimento cerebral, preservando a saúde mental dos idosos", afirma.
Ela  explica que os ganhos cognitivos também são expressivos. "Aprender na maturidade amplia a capacidade de compreensão, comunicação e resolução de problemas. Essas habilidades fortalecem a memória de curto e longo prazo, aumentam a velocidade de processamento mental e melhoram a organização do pensamento, favorecendo o bem-estar global", explica Cláudia.
A especialista ressalta que o estudo pode ser um aliado contra doenças neurodegenerativas. "O processo de alfabetização oferece estímulos intelectuais que mantêm o cérebro ativo. Em casos de risco para doenças como o Alzheimer, essa prática estimula conexões neurais e ajuda a criar uma reserva cognitiva, que funciona como proteção contra sintomas mais precoces", aponta.

Outro aspecto importante é o efeito positivo sobre a autoestima. Ao superar o analfabetismo, o idoso vivencia um sentimento de conquista pessoal e passa a se sentir mais integrado à sociedade. Essa sensação de pertencimento pode reduzir o isolamento social e melhorar o bem-estar emocional.
"Ao se tornarem alfabetizados, os idosos conquistam maior independência na vida cotidiana, pois passam a lidar com documentos, tecnologia e informações de forma mais segura. Essa autonomia fortalece a autoestima, gerando um sentimento de realização pessoal", complementa a gerontóloga.
Cláudia destaca ainda que o caminho até a alfabetização pode ter obstáculos, mas é possível superá-los. "Os principais desafios para alfabetizar idosos incluem dificuldades visuais, auditivas, limitações motoras e insegurança em relação à aprendizagem. Estratégias eficazes envolvem metodologias adaptadas, uso de recursos visuais ampliados, atividades contextualizadas ao cotidiano e incentivo constante, valorizando cada conquista no processo", diz.
A especialista diz que é importante desmitificar a ideia de que idosos não conseguem aprender efetivamente. "Embora o processo seja diferente e mais lento comparado às crianças, os adultos mais velhos possuem vantagens únicas como maior vocabulário, experiência de vida rica, melhor capacidade de fazer conexões conceituais e motivação intrínseca mais desenvolvida. O segredo está em adaptar as metodologias de ensino, respeitando o ritmo individual, utilizando estratégias multissensoriais e criando ambientes de aprendizagem acolhedores que valorizem a experiência acumulada ao longo da vida".

'Sinto orgulho'

Muitas pessoas acreditam que não existe idade para aprender. Esse é o caso de Santilha Pereira Ferreira, de 87 anos, aluna da Escola Municipal Thomas Mann, no Cachambi, na Zona Note do Rio de Janeiro. Ela conta que teve uma vida muito difícil e seu pai não via importância nos estudos.
"Naquela época, na roça, meu pai, por ser muito rígido, não deixou que eu e meus irmãos fôssemos para a escola estudar. Além de precisar que trabalhássemos para ter o que comer, ele acreditava que, se fôssemos alfabetizados, aprenderíamos a escrever cartas para namorados. Esse desejo de estudar foi ficando cada vez mais distante e acabou adormecido por muitos anos", disse ela que passou por tantas adversidades que o estudo ficou de lado.
"As coisas eram muito difíceis. Fui entregue para trabalhar em uma casa de gente rica aos 6 anos de idade, junto com a minha falecida irmã. Tínhamos responsabilidades de gente grande e éramos vigiadas o tempo todo. Foi um período bem complicado das nossas vidas. Não tínhamos tempo para pensar em escola: era trabalhar ou trabalhar. Nem passava pela minha cabeça frequentar uma escola de verdade, muito menos sair daquela situação e daquele lugar".
Mas como tudo na vida muda, Santilha, depois dois 80 anos, teve oportunidade de ingressar na escola.     "Hoje me sinto orgulhosa. Mesmo depois de tantos percalços e dificuldades, nunca desisti. Encarar uma sala de aula, aprender a ler, escrever, assinar meu próprio nome e conhecer pessoas com histórias parecidas com a minha tem sido gratificante. Todos os dias tenho algo novo para contar e aprender. É estimulante e desafiador".
Para ela ser alfabetizada era uma questão de honra. "Era o meu sonho! Saí de São Luís do Maranhão sem saber nada e, hoje, saber ler e escrever representa uma realidade completamente diferente. Sinto orgulho a cada dia e acredito que posso, que sou capaz e ainda quero ser assistente social. Sei que preciso me esforçar bastante’’, diz ela, afirmando que nunca é tarde para aprender e que conhecimento é um tesouro que ninguém pode tirar de você.

Uma forma diferente

De ensinar para jovens e adultos a professora Kátia Valéria Pedrosa, da Escola Municipal Orlando Villas Boas, no Centro, entende bem. "Então, a alfabetização na EJA acontece de forma diferente da alfabetização de crianças, porque os adultos já têm uma história de vida, experiências culturais, conhecimentos prévios e necessidades específicas. Eles já sabem muita coisa de mundo, mesmo que não dominem a leitura e escrita. Por isso, procuramos trabalhar com formação de palavras, frases e produção de texto com base na vivência deles. Fazemos muita roda de conversa, trabalhamos a autoestima dos alunos e damos ênfase ao interesse deles", explica ela, acrescentando que o no EJA o não existe a obrigatoriedade de aprovação como no Ensino Fundamental.
"Tenho alguns alunos que estão comigo há anos ou porque não se sentem preparados ou porque, para eles, o importante é o papel social da escola. Gostam de estar na escola. E esse também é o nosso papel – fazer o aluno se sentir acolhido’’.
Kátia afirma que quando o aluno é adolescente é primordial mostrar a importância de seguir com os estudos e valorizá-lo. "Porém, os mais idosos não estão preocupados com esse caminhar, só querem o "direito" que foi tirado deles no passado’’, finaliza.
Turmas específicas com ritmo adequado
Para a pedagoga Cláudia Alves, haver turmas específicas para pessoas mais velhas é fundamental porque assim são reconhecidas e respeitadas as particularidades do processo de aprendizagem nessa faixa etária. "Esses ambientes proporcionam um ritmo mais adequado, metodologias adaptadas e um contexto social onde os estudantes compartilham experiências similares, reduzindo a ansiedade e o constrangimento que poderiam sentir em turmas mistas. A homogeneidade etária facilita a criação de vínculos, aumenta a autoconfiança e permite que os educadores utilizem estratégias pedagógicas específicas para essa população", pontua.
De acordo com a profissional, além dos benefícios educacionais, essas turmas promovem inclusão social, combate ao isolamento e estimulação cognitiva, fatores essenciais para o envelhecimento saudável. "O EJA para idosos não se limita apenas à alfabetização ou conclusão dos estudos, mas representa uma oportunidade de resgate da cidadania, desenvolvimento da autoestima e manutenção da atividade mental. Essas iniciativas reconhecem que a educação é um direito universal e que nunca é tarde para aprender, contribuindo significativamente para a qualidade de vida e dignidade dos idosos", assegura.
'Direito essencial do cidadão'
Presidente da Faetec, Alexandre Valle, fala sobre o assunto. "A alfabetização é um direito essencial do cidadão e, ao mesmo tempo, um grande desafio nacional. O Brasil já alcançou progressos importantes em diferentes etapas da educação, mas ainda precisa avançar muito para garantir que ninguém chegue à vida adulta sem dominar leitura e escrita. Esse é o compromisso da Faetec: oferecer ensino público, gratuito e de excelência para todas as idades. Formamos profissionais preparados para ingressar imediatamente no mercado de trabalho, mas vamos além. Buscamos ampliar horizontes, conectando cada estudante às demandas contemporâneas, como inovação tecnológica, sustentabilidade, biodiversidade e inteligência emocional. É esse conjunto de ferramentas que abre portas não apenas para a alfabetização, mas também para maior empregabilidade, autonomia, cidadania e qualidade de vida para toda a população". 
Representatividade e identidade
Diretora de museu e biblioteca do Instituto Pretos Novos,  Priscila Fevrier, fala a respeito do Clubinho de Leitura: Alfabetização, Identidade e Representatividade. "O projeto "Clubinho de Leitura" do Instituto Pretos Novos contribui diretamente para a alfabetização por meio da representatividade e da identidade, inserindo a temática das relações étnico-raciais desde as primeiras fases do aprendizado. A iniciativa é realizada para escolas públicas e atende turmas da educação infantil ao ensino fundamental, além de alunos do EJA".
Segundo Priscila, a contação de histórias com obras de literatura afro-brasileira é a principal ferramenta do projeto. "Ao se verem representados nos livros, os participantes se conectam com a leitura de forma mais profunda, o que é essencial para o desenvolvimento da alfabetização. Para as crianças, o projeto fortalece o interesse por livros, estimulando o aprendizado de letras e palavras de maneira mais natural. Para os alunos adultos e idosos, que muitas vezes enfrentam desafios na alfabetização, a identificação com as histórias e personagens ajuda a construir uma relação positiva com o aprendizado, tornando-o mais significativo e menos intimidador".
De acordo com a diretora do IPN, a abordagem não apenas ensina a ler e a escrever, mas também ajuda a construir uma relação positiva e empoderadora com a educação, ao integrar o tema da negritude na base do processo educativo.
Saiba mais

O Dia Mundial da Alfabetização foi criado em 8 de setembro de 1967 pela Organização das Nações Unidas (ONU), por meio da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). A data tem como objetivo ressaltar a importância da alfabetização para o desenvolvimento social e econômico mundial.