A atleta paralímpica de rugby Hawanna Cruz Ribeiro recuperou 70% do controle do tronco após uso do medicamentoDivulgação / Laboratório Cristália

Um novo medicamento para restaurar lesões na medula espinhal foi apresentado nesta terça-feira (9) por uma empresa farmacêutica em São Paulo. Ainda em fase experimental, o tratamento utiliza uma proteína extraída da placenta para reverter o quadro de paralisia. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ainda precisa autorizar novos testes clínicos antes da continuidade do projeto, desenvolvido a partir de um estudo da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

A pesquisadora Tatiana Coelho de Sampaio, professora da UFRJ, trabalhou nos últimos 25 anos, juntamente com uma equipe de biólogos, em um estudo sobre o poder de reparação da proteína laminina, que atua no sistema nervoso, quando multiplicada.
"Quando conseguimos reproduzir a polilaminina em laboratório, percebemos que ela poderia orientar os neurônios a se reconectarem e restabelecer a comunicação entre células nervosas, permitindo que os movimentos fossem recuperados", explicou Tatiana.

Na apresentação da farmacêutica Cristália, que tem atuado desde 2018 em parceria com os pesquisadores para a produção da Polilaminina, dois dos oito voluntários que passaram pelo procedimento estiveram presentes. Uma delas foi a atleta paralímpica de rugby Hawanna Cruz Ribeiro, de 27 anos, que ficou tetraplégica em 2017 após uma queda de dez metros de altura, no terceiro andar do apartamento onde residia.

"Três anos depois do acidente, eu recuperei entre 60% e 70% do controle do meu tronco. Sinto que a sensibilidade na minha bexiga voltou, mas ainda não sou independente nessa questão. Não tenho nenhuma dúvida da minha melhora", afirmou Hawanna. 

Além dela, o bancário Bruno Drummont de Freitas, de 31 anos, sofreu um acidente de trânsito em abril de 2018 e fraturou a coluna vertebral na altura do pescoço, perdendo completamente a sensibilidade e o controle motor dos braços e das pernas. O tratamento com Polilaminina foi realizado 24 horas depois do acidente e, com o passar do tempo, ele apresentou melhoras.
Bruno sofreu um acidente de trânsito e fraturou a coluna vertebral após o medicamento recuperou os movimentos - Reprodução / TV Globo
Bruno sofreu um acidente de trânsito e fraturou a coluna vertebral após o medicamento recuperou os movimentosReprodução / TV Globo
"No início, os médicos disseram que eu ficaria em uma cadeira de rodas pelo resto da vida. Depois, falaram que talvez conseguisse andar com muletas. Mas eu nunca perdi a esperança. Um dia, ainda no hospital, mexi o dedão do pé e aquilo foi um choque para todo mundo. A cada semana eu evoluía mais", relembrou Bruno.
Com a autorização da família, ele passou a integrar o estudo da UFRJ. Duas semanas após a aplicação do medicamento, apresentou os primeiros sinais de recuperação motora.
"Em cinco meses, mais ou menos, eu já estava completamente recuperado. Tenho uma rotina normal, faço esportes e não passo mais por nenhum tipo de tratamento. Tenho consciência do quanto é importante para milhares de pessoas o que estou relatando, mas não tenho dúvidas. Eu me recuperei totalmente e poderia estar tetraplégico", contou.

O medicamento também foi aplicado em cachorros que tiveram lesões no local e conseguiram a retomada de boa parte da marcha naqueles que tiveram o órgão neural rompido.
O laboratório aguarda autorização da Anvisa para iniciar a fase 1 dos estudos, que envolverá mais cinco pacientes. Essa etapa é necessária para que o tratamento possa, futuramente, ser disponibilizado em hospitais de todo o país.
O estudo da UFRJ conta com fomento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), órgão do Governo do Estado.

O que é a Polilaminina?

A Polilaminina é uma substância criada em laboratório a partir de uma proteína natural do corpo chamada laminina. Quando aplicada diretamente na medula espinhal lesionada, ajuda os nervos a se reorganizarem e voltarem a se comunicar, o que pode permitir que pessoas com lesão medular recuperem parte ou totalmente os movimentos.

O medicamento é aplicado uma única vez, diretamente na área lesionada da medula, durante uma cirurgia que o paciente já faria para aliviar a pressão na coluna. Idealmente, o tratamento deve ser feito até 24 horas após o acidente, mas já há casos em que funcionou mesmo dias depois. Após a aplicação, o paciente continua o tratamento com fisioterapia. A substância ajuda os “braços” dos neurônios a crescerem e se reconectarem, permitindo que o corpo volte a funcionar normalmente.
 
* Reportagem do estagiário João Santos, sob supervisão de Raphael Perucci