Tudo que aprendeu ao longo da vida, Wal quer ensinar a seus alunos Jorge Paulino / Divulgação

Sabe aquele sonho que parecia impossível e se tornou realidade? Mais de 10 mil pessoas testemunharam e viveram da arte que norteia o projeto ‘No Palco da Vida’, há 18 anos fazendo história no bairro de Olaria, Zona Norte do Rio. Todo esse sonho nasceu com Wal Schneider, cearense de Tabuleiro do Norte, e ator com pós-graduação em direção teatral pela CAL (Casa das Artes de Laranjeiras)."O teatro é a minha essência", diz ele, que não para um só instante. Vai lançar, ainda em data a ser definida, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, sua biografia, escrita por ele mesmo há cerca de um ano: 'Wal Schneider, a potência de um sonho'.
Em 19 de setembro é comemorado o Dia Nacional do Teatro e Wal fala a respeito dessa arte que o impulsionou a ser quem ele é. "O teatro é a minha forma de ser, é como eu sei me comunicar. Eu falo que talvez eu não fosse a pessoa que eu sou, ter essa visão mais humanista tendo o propósito de agregar. Com o teatro eu me tornei uma pessoa melhor, um artista melhor literalmente . Acho que deveria ter teatro em todas as escolas e em todos os lugares porque ele te causa uma sensação de empatia com o mundo", afirma Wal.
O caminho percorrido pelo artista não foi nada fácil. Filho de uma faxineira e um carpinteiro, descobriu a arte com o circo aos sete anos de idade em sua cidade natal. Em 1994, quando tinha apenas 17 anos, com R$ 25 reais dados por sua 'mainha' e um livro dentro da bolsa, veio para o Rio de Janeiro de carona em um caminhão de melão, com o sonho de se tornar ator.
Para pagar o curso de teatro, lavou pratos, foi balconista em padarias e fez faxinas. Já atuou em diversas novelas como Páginas da Vida, Amor Eterno Amor, Espelho da Vida, no filme da Netflix Ricos de Amor e mais recentemente Guerreiros do Sol, da Globoplay, entre outras produções. Apesar de ter a veia mais cômica também  faz papeis dramáticos. "Acho que o humor já está no sangue do cearense".
Para Schneider, foi o teatro que possibilitou aquele menino pobre do interior do Ceará a ter a visão de um mundo possível pelo meio das artes. "Porque na arte a gente não tem aquela diferença de quem é pobre, quem é rico ali. Você pode viver aquela possibilidade de mundo que você quer, e tem a permissão de viver muitas vidas numa só", pontua.
Wal sempre quis que outras pessoas realizassem o sonho delas e graças ao talento e perseverança conseguiu. Em 2007 foi convidado para ministrar oficina de teatro no SESC de Ramos para um grupo de crianças do Complexo do Alemão. A atividade se encerrou, mas Wal decidiu seguir em seu propósito e, em 2011, teve a ousadia de alugar um casarão em Olaria, Zona Norte do Rio, para ser a sede do 'No Palco da Vida', a primeira escola de artes da região da Leopoldina. Hoje o projeto oferece oficinas de teatro, dança, musicalidade para crianças, jovens e adultos de 5 a 90 anos.
'O teatro me tornou visível'
"O projeto impacta toda a formação e um dos objetivos é aumentar a autoestima do aluno. Muitos moram em comunidade, sofrem preconceitos e, por vezes, resistência da família. Mas eu digo: não é possível que só exista um Wal. Eu fui possível. Então, se estou aqui, vocês podem ser o que quiserem. O pai de um dos meninos abandonou a família e ele tem um irmão esquizofrênico, mas seguiu firme e se tornou um dos monitores do projeto. Hoje atua, canta, dança, escreve, compõe, toca… O teatro me tornou visível. Quero que a voz desses meninos também ecoe pelo mundo", diz Wal Schnaider, acrescentando que do seu curso, com duração de seis meses, montagem de uma peça no final, e totalmente gratuito, já saíram vários talentos, hoje brilhando na televisão, no cinema, e no teatro, é claro.
"A montagem é para o público e depois a peça circula em asilos, bibliotecas, em praças e nos colégios da Zona Norte. Para onde o espetáculo for chamado, essa turma formada vai apresentar’’. Wal conta que nos dias 24, 25, 26, 27, e 28 desse mês haverá No Palco da Vida o Leia e Compartilha, evento sobre a importância da leitura. Todos os dias haverá espetáculos também. No Palco, tem uma biblioteca que as pessoas podem pegar livros emprestados e depois devolvê-los.

Alcançando a maioridade, o projeto acaba de ganhar uma nova sede, Wal prepara o lançamento do livro que conta sua trajetória e as atividades não param, com palestras com grandes personalidades das Artes Cênicas e da TV e oficina de leitura, entre outras ações que estão agitando o Palco da Vida neste mês de setembro. E Wal quer deixar um legado para quando não estiver mais por aqui.
"Sou um provocador. Eu recebi a oportunidade no Rio de Janeiro de me desenvolver como artista e de fazer o meu trabalho. E eu posso dizer que eu fui abraçado, que eu sigo a minha carreira, eu realizei meu sonho no Rio de Janeiro, do menino simples, pobre e com o Palco da Vida eu dou o retorno da premissa que recebi. É tipo uma flor. Se você rega ela direito, vai dar a melhor flor vai. A gente rega com amor vai ter amor. Se rega com possibilidade e oportunidade, essas pessoas vão oportunizar outras Eu acredito que seja isso porque voce quer dar para o mundo aquilo que recebeu do mundo.

Cursos profissionalizantes em Quintino

Além do Palco da Vida e outras ongs que existem pela cidade, a Escola de Teatro Faetec Quintino, vinculada à secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti), também oportuniza cursos gratuitos para quem quer ter formação artística. A escola funciona a todo vapor no bairro de Quintino, Zona Norte do Rio, com mais de 10 cursos profissionalizantes e oficinas em diversas áreas das artes cênicas desde a atuação cênica até os cursos de visualidades da cena e para técnicos de palco. Iniciação teatral, interpretação teatral, preparação corporal, contrarregragem, assistente de cenografia, prática de montagem teatral, contador de histórias, assistente de camarim, iluminação cênica, assistente de figurino, maquiagem de espetáculo, entre outros. Hoje a instituição tem 14 turmas em andamento. Anualmente cerca de 250 alunos passam pela Escola.
"Quais os caminhos para o desenvolvimento da criatividade, senão através da arte? Ela desenvolve a humanidade em nós e nos permite o exercício da liberdade de sermos quem somos e, a partir daí, transcendermos. Arte é confronto e também território de exploração. Para algumas pessoas, que nascem com acesso e em famílias onde a arte faz parte da rotina, ela tem a mesma importância. Só que de forma natural. Dar acesso às comunidades periféricas e colocar em suas vidas perspectivas novas é ampliar o potencial social e humano. A humanidade inteira avança”, afirma o coordenador da Escola de Teatro Marco Aurélio do Nascimento.
A formação qualificada é o diferencial para a evolução dos alunos e para sua inserção no mercado. "Medimos nossos resultados pelo sucesso dos alunos, não só no campo profissional, mas humano. Hoje temos ex-aluno que trabalha no Minc, ex-aluna que desfila pelas passarelas de Milão, ex-aluno premiado por suas webseries, ex-aluna que recebeu bolsa para estudar na Escócia… E muitos outros casos de sucesso, que não tornaram esses profissionais 'celebridades', mas que os coloca em posições de destaque social e humana. O teatro e a nossa escola plantaram sementes e eles estão por aí frutificando e semeando outras boas histórias. Existe melhor resultado do que esse?", finaliza Marco Aurélio.
'É o meu alicerce'
Se ongs e instituições ensinam o ofício, há quem faça isso de forma solo. E o caso da atriz e produtora Ayala Rossana que dá aulas no Caps do Engenho de Dentro, e não consegue viver sem a arte. "O teatro entrou na minha vida quando eu tinha 13 anos. Foi na adolescência que eu decidi que jamais largaria o palco mesmo que fosse necessário trabalhar em outra coisa", diz ela que, ao longo do tempo, foi se profissionalizando como atriz e produtora, além de gostar muito da construção da parte técnica.
"O teatro, para mim, é de uma importância gigantesca. Não consigo me ver fora desse universo. Como produtora, também gosto de pensar em figurino, cenário, em cores. Nesse lugar me permito estar no teatro produzindo outros atores dando possibilidade a outras pessoas de estarem nesse movimento da cena. Gosto de pensar qual texto a gente vai levar para uma nova montagem ou mesmo produzir espetáculos que não sejam meus, mas de outros produtores, de outros artistas".
Ayala afirma que o teatro é muito o movimento de estar vivo, de estar vivendo. "É como se ele fosse o meu alicerce de vida. Eu preciso estar no teatro, seja atuando, seja produzindo, seja assistindo. Isso me dá mais empolgação para viver", diz ela, acrescentando que ter uma data para comemorar o teatro é muito bom. "A data faz com que esse lugar, o teatro, seja exaltado. É uma memória, é um dia de ter memórias a respeito desse lugar tão especial. O teatro como sala de recebimento de pessoas,  como espaço de reflexão,  de transformação do indivíduo em pessoas melhores, além do teatro como lugar de cura também para as pessoas que têm os seus problemas e quando vão assistir uma peça esquecem de tudo", finaliza.
Saiba um pouquinho mais

Comemorado em 19 de setembro, o Dia Nacional do Teatro visa homenagear uma das manifestações artísticas mais antigas da humanidade, em especial os artistas brasileiros. A primeira forma de teatro surgiu no Oriente relacionado com rituais religiosos. O teatro como forma de arte surgiu na Grécia Antiga. Já no Brasil nasceu no século XVI, e tinha como objetivo espalhar a crença religiosa.
O teatro como forma de entretenimento só começou a ser comum no Brasil após a chegada da Família Real Portuguesa, em 1808. Naquela época, o rei costumava convidar companhias de teatro estrangeiras para fazer as suas apresentações para a nobreza.