Feridos durante megaoperação foram levados para o Hospital Estadual Getúlio VargasÉrica Martin / Agência O Dia
Dias antes de eventos da COP30 no Rio, imprensa internacional destaca cenário de guerra com megaoperação
'Não é Gaza, é Rio': Clarín, da Argentina, compara cidade com território famoso por conflitos no Oriente Médio
Rio - A megaoperação nos Complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte, que resultou em, ao menos 119 mortes, se tornando a mais letal da história do país, aconteceu quatro dias antes do começo de uma série de eventos internacionais na cidade do Rio. Esses encontros, que contarão com a presença de líderes mundiais - como o príncipe William e Sadiq Khan, prefeito de Londres -, antecedem a COP30, realizada em Belém, no Pará. A imprensa internacional definiu a operação como "cenário de guerra".
A agência de notícias britânica Reuters lembrou que a ação policial ocorreu dias antes do município sediar eventos globais relacionados à cúpula climática das Nações Unidas. A reportagem destacou que a polícia frequentemente realiza operações em larga escala antes de grandes cerimônias.
"As favelas do Rio são assentamentos pobres e densamente povoados, espalhados por colinas da cidade, à beira-mar. Fumaça subiu no início da terça-feira (28) sobre a icônica paisagem urbana, enquanto gangues incendiavam carros para retardar o avanço de veículos blindados e rajadas de tiros ecoavam. Na próxima semana, o Rio sediará a cúpula global C40 de prefeitos que abordam as mudanças climáticas e o Prêmio Earthshot do príncipe William, que contará com a presença de celebridades", disse a Reuters.
O El País, da Espanha, foi outro jornal que destacou que a ação desta terça, definida como "caos colossal", ocorreu antes da realização da COP30 no país.
"O Rio de Janeiro, turístico e casa de seis milhões, é uma cidade muito desigual e acostumada à violência, mas as doses implantadas nesta terça resultam extraordinárias até mesmo para os locais. A descomunal exibição policial foi respondida com intensos tiros pelos homens do Comando Vermelho, que até lançaram granadas de drones sobre os agentes. Horas depois, o grupo criminoso deslocou seus membros, que cortou avenidas e ruas com barricadas por toda a cidade. O banho de sangue no Rio foi produzido nas portas do encontro mundial da mudança climática, a COP30, que se celebrará em Belém, a mais de 3.000 km de distância", contou.
O jornal Clarín, da Argentina, informou que o Rio viveu um "cenário de guerra" com automóveis queimados, casas incendiadas e contra-ataques de criminosos a policiais com drones. O portal comparou a cidade com a Faixa de Gaza, território no Oriente Médio palco de diversos confrontos entre Palestina e Israel.
"A Zona Norte do Rio se converteu em zona de guerra. Nas redes sociais, gravações se difundiram. Alguns usuários até fizeram uma declaração: 'Não é Gaza, é o Rio'. O objetivo da operação é o Comando Vermelho, uma das organizações criminosas mais antigas e conhecidas do Brasil, que nasceu na década de 70 no calor das cidades do Rio", diz o texto.
O The Guardian, da Inglaterra, ressaltou que o Rio viveu o dia mais violento em meio a operações policiais em comunidades da história. O jornal também creditou ao governador Cláudio Castro (PL) uma fala que a cidade estava em guerra.
"A operação realizada antes do amanhecer – a mais letal da história do Rio de Janeiro – desencadeou intensos tiroteios dentro e nos arredores do Alemão e da Penha, que abrigam cerca de 300 mil pessoas. Traficantes da facção Comando Vermelho começaram a atirar e incendiaram barricadas e carros. Pela primeira vez, a gangue teria usado drones armados para lançar explosivos contra as equipes das forças especiais", informou o jornal.
O New York Times, tradicional jornal dos Estados Unidos, contou sobre os efeitos da operação no cotidiano da cidade.
"O caos se espalhou para outras áreas da periferia operária do Rio. Membros de gangues retaliaram usando ônibus para bloquear estradas. Universidades cancelaram aulas, empresas de ônibus retiraram suas frotas de circulação e importantes vias, incluindo uma que leva ao aeroporto internacional da cidade, foram fechadas", noticiou.
O Le Monde, da França, noticiou que as imagens circularam rapidamente nas redes sociais mostrando o horror da operação.
"Os números são incontestáveis: trata-se da operação mais mortal da história do Estado do Rio de Janeiro. As imagens mostram corpos ensanguentados jogados na mata que cerca as favelas, onde frequentemente se refugiam membros da facção e ainda uma mulher que enxuga desesperadamente o sangue do rosto de um jovem negro, sem camisa", diz o texto.
Eventos internacionais
Os eventos começam no próximo sábado (1º), com o Seminário Rio Ação Climática, às 9h, no Teatro Carlos Gomes, no Centro. Contudo, os maiores encontros se concentram entre os dias 3 e 5 de novembro, como o Fórum de Líderes Locais da COP30, realizado no Complexo Museu de Artes Modernas (MAM) e no Vivo Rio, no Parque do Flamengo, Zona Sul. Para a reunião, são esperados cerca de dois mil participantes por dia.
Como parte do Fórum de Líderes, paralelamente e no mesmo local, também ocorre a Cúpula Mundial de Prefeitos do C40, entre os dias 3 e 4. O evento reúne prefeitos de mais de 200 municípios, empresários, filantropos e representantes da sociedade civil. A edição terá como anfitriões Sadiq Khan e Eduardo Paes.
O Rio ainda receberá o prêmio Earthshot, o "Oscar da Sustentabilidade", criado pelo príncipe William, que celebra iniciativas ambientais. Realizado pela primeira vez na América Latina, o evento acontecerá entre os dias 3 e 5 de novembro no Armazém 3, no Pier Mauá, na Região Portuária, com apresentação de Luciano Huck e shows de Anitta, Gilberto Gil, Kylie Minogue, Seu Jorge e Shawn Mendes.
A Prefeitura do Rio divulgou nesta terça-feira (28) o planejamento operacional especial para realização dos eventos que antecedem COP30 no Rio. Sobre o setor de segurança, o Centro de Operações e Resiliência (COR) integrará as ações de monitoramento. Um espaço será reservado para agentes municipais e para forças de segurança estaduais e federais, além da Agência Brasileira de Inteligência (Abin).
Segundo o órgão, todos terão acesso ao telão, que reproduz imagens de 5 mil câmeras e radares em pontos de interesse e acompanhando as delegações. Serão utilizadas 56 câmeras na Praça Mauá e no Boulevard Olímpico, e 27 câmeras no Museu de Arte Moderna (MAM), além de um drone.
A Secretaria Municipal de Ordem Pública (Seop) terá equipes concentradas nas áreas de interesse do evento. Mais de 600 agentes, 35 viaturas, 10 reboques e 10 motocicletas serão empregados, por dia, na operação com os objetivos de obstrução de área pública, e ordenamento urbano.
Questionado, o Governo do Rio ainda não respondeu sobre o planejamento de segurança.
Megaoperação
Em coletiva na Cidade da Polícia nesta quarta-feira (29), o Governo do Rio anunciou que, até o momento, 119 pessoas morreram na megaoperação, sendo 58 confirmados nesta terça-feira (28) e 61 retirados de área de mata nesta quarta. Do número, quatro são policiais e o restante suspeitos. O número ainda pode aumentar.
Além dos óbitos, 113 pessoas foram presas, sendo 33 de outros estados, e 10 adolescentes apreendidos. As equipes apreenderam 118 armas apreendidas (91 fuzis, 26 pistolas, 1 revólver, 14 artefatos explosivos, além de centenas de cartuchos e toneladas de drogas).








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