Rio - Mais de mil celulares recuperados na Operação Rastreio são devolvidos aos donos, nesta terça-feira (18), na Cidade da Polícia Civil, no Jacaré, Zona Norte, em Niterói e São Gonçalo, na Região Metropolitana, e em municípios da Baixada Fluminense e do interior do estado. A ação, que mira o combate a uma cadeia criminosa envolvida em roubos, furtos e receptação de telefones, já resgatou cerca de 12,5 mil aparelhos de vítimas.
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A iniciativa é a maior entrega de celulares recuperados da história do Rio, com 1,6 mil aparelhos devolvidos ao proprietários, que foram roubados ou furtados. O contato com as vítimas ocorreu por meio de ligação ou mensagem de WhatsApp pelos telefones funcionais das delegacias e elas devem comparecer aos pontos previamente informados.
Moradora de uma comunidade na Zona Norte, uma auxiliar de serviços gerais que preferiu não se identificar, contou ao DIA que teve o celular, bem como os do marido e filho roubados na própria casa por traficantes envolvidos em disputas territoriais com uma facção rival. A vítima relata que há cerca de seis meses dois criminosos bateram na janela da residência e ordenaram que a família entregasse os aparelhos, dizendo que iriam devolver depois. No entanto, somente o telefone da mulher foi recuperado na ação da Polícia Civil.
"Liguei para o meu telefone para ver se eles devolviam, mas falaram para eu procurar com a outra facção. A gente viu que não teria mais retorno e bloqueamos. O meu telefone só tinha seis meses de uso, meu marido tinha acabado de comprar e eu precisei comprar outro, que ainda estou pagando", desabafou. "Hoje entregaram meu telefone 'novinho', intacto. Eu acho que é um trabalho muito bom (da Polícia Civil), a gente não acha que vai recuperar, mas aconteceu. É muito gratificante", celebrou.
Em maio, a psicóloga Jéssica Soares, 34, havia acabado de tirar o celular do bolso ao desembarcar da garupa de uma motocicleta, quando um motociclista em outro veículo em movimento puxou o aparelho que estava preso por uma corda no pulso dela e fugiu, na Rua Silveira Martins, no Catete, Zona Sul. O aparelho, que era usado para trabalhar, tinha sido um presente de aniversário do namorado e ela voltou a usar um telefone antigo, mas acabou precisando comprar outro.
"Eu recebi a notícia por WhatsApp, com um texto da delegacia falando para fazer a retirada. Eu fiquei muito feliz, quando a gente é roubado acha que não vai ver nunca mais. Já quis vir logo cedo, enfrentei a fila e foi tudo muito organizado. A primeira coisa que eu pensei quando soube que foi recuperado foi no estado que eu ia encontrar o celular, achei que fosse pegar uma carcaça, mas ele está intacto e vou poder voltar a usar", declarou a psicóloga.
A técnica de enfermagem, Thainá de Nolasco, de 30 anos, chorou quando recebeu o celular de volta. Ela foi assaltada dentro do trem, no Engenho Novo, Zona Norte, há dois meses. "Ceguei a acreditar que nunca mais veria meu celular. Fiz o boletim de ocorrência online, fui chamada depois para prestar declaração na delegacia, mas, sinceramente, pela quantidade de roubos no Rio, eu achava que seria como procurar agulha no palheiro", conta.
Quando recebeu a mensagem da Polícia Civil avisando que aparelho havia sido encontrado, Thainá suspeitou de um possível golpe. "Na hora achei que fosse golpe. Só depois, vendo as notícias na televisão, percebi que era real. Fiquei muito emocionada, chorei, porque comprei esse celular novo, juntando dinheiro com muito esforço, e recuperar algo tão importante para mim foi inesperado", diz.
Assim como Thainá, o enfermeiro Felipe Brito, de 33 anos, também achou que se tratava de um golpe quando recebeu a notificação da polícia. "Eu nunca imaginei que receberia o celular de volta, porque nunca vi isso acontecer. Comecei a receber mensagens sobre a devolução em abril. Na última mensagem, eu só acreditei porque vi as notícias, mas, até então, cheguei a pensar que era trote". Felipe foi furtado pela janela do carro em dezembro do ano passado, na altura do viaduto de Deodoro, também na Zona Norte.
A Operação Rastreio teve início em maio. Em julho, a Polícia Civil já havia entregue 1,4 mil telefones aos verdadeiros donos e, ao todo, já são aproximadamente 5 mil restituições. Além de recuperar os aparelhos, a ação tem como objetivo ampliar a responsabilização de receptadores e intermediários e, até o momento, foram realizadas cerca de 750 prisões.
"O grande foco da Operação Rastreio é desarticular esse elo da cadeia criminosa, que é principalmente o receptador. São eles que fomentam toda essa prática do roubo, furto, então, a gente está combatendo com muita força, com muita firmeza o receptador", explicou o secretário de Estado de Polícia Civil, Felipe Curi, durante a entrega dos celulares na Cidade da Polícia, que alertou os consumidores a comprarem aparelhos somente em locais de confiança, exigirem nota fiscal e desconfiarem de preços muito abaixo do mercado.
"Baixem o aplicativo da Polícia Civil, Celular Seguro RJ. Esse aplicativo é muito importante, porque é conectado com a base de dados dos nossos registros de ocorrência. Qualquer vítima do estado que for numa delegacia fazer um registro de ocorrência e colocar o IMEI, esse dado é migrado para o nosso aplicativo e uma pessoa que for comprar um celular, principalmente usado, ela pode consultar se esse aparelho tem ou não alguma restrição e não vai estar contribuindo, ainda que involuntariamente, para essa cadeia criminosa de receptação".
Nos últimos meses, a Polícia Civil realizou um mutirão com mais de quatro mil intimações para pessoas que habilitaram celulares roubados os devolvessem nas delegacias voluntariamente. Os identificados que não entragaram serão indiciados por receptação e passarão ter anotação criminal. Ao longo da operação, os agentes irão cumprir mandados de busca e apreensão em endereços ligados aos investigados. Segundo o secretário, os aparelhos recuperados foram encontrados em diferentes condições, parte deles em lojas de revenda ilegal.
"O roubo mediante grave ameaça, com uso de uma arma, de uma faca, pode evoluir para um latrocínio. Quem compra esse tipo de aparelho produto de crime pode ter contribuído para a morte de alguém, ela pode estar com um celular sujo de sangue. Por isso, é muito importante essa conscientização da população em não adquirir esses produtos de origem ilícita", destacou Curi, que reforçou a importância das vítimas registrarem os casos nas delegacias e fornecerem o IMEI para o rastreio e recuperação. O número fica disponível na caixa do telefone e pode ser consultado pelo código universal *#06#.
As investigações já identificaram comunidades para onde celulares são levados após os roubos, de onde são enviadas para outros locais. Uma delas é o Complexo da Maré, na Zona Norte. Na segunda-feira (17), uma etapa no Rio e outros dez estados deixou 32 presos e apreendeu 2,5 mil aparelhos. A ação mirou clientes ativos e recorrentes de um criminoso especializado no desbloqueio dos aparelhos. Ele realizava os serviços de forma online e ministrava cursos à distância, ensinando os procedimentos. Telefones roubados também eram enviados ao homem para serem desbloqueados. O bandido já havia sido detido na primeira fase da Operação Rastreio.
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