Rouney praticava atividades físicas regularmente, afirma famíliaAcervo pessoal
Família acusa Marinha de descaso por morte de cabo durante teste físico
Rouney Gonçalves Motta, 35 anos, sofreu um mal súbito nas instalações do Centro de Educação Física Almirante Adalberto Nunes (Cefan), na Penha
Rio – O dia 24 de setembro deste ano, uma quarta-feira, deveria ser apenas mais um na rotina profissional do cabo da Marinha do Brasil Rouney Gonçalves Motta, de 35 anos. Porém, um mal súbito durante uma atividade física em um quartel deu um ponto final à sua vida. Desde então, a família afirma que enfrenta uma série de descasos por parte dos militares.
“Ficamos sem uma explicação, sem o prontuário. Saímos do hospital somente com a dor da perda e mais nada. Nem o laudo do que aconteceu”, diz ao DIA Tatiana Gonçalves Motta, de 46 anos, irmã de Rouney.
Tatiana diz que o irmão trabalhava como técnico em enfermagem - por cerca de seis anos - no Hospital Naval Marcílio Dias (HNMD), no Lins, na Zona Norte, de onde havia acabado de sair de um plantão rumo ao Centro de Educação Física Almirante Adalberto Nunes (Cefan), na Penha, também na Zona Norte, para participar de um Teste de Aptidão Física (TAF). Posteriormente, ela soube que o militar chegou a pedir para ser dispensado da avaliação, mas foi ignorado.
Acusação de demora no atendimento
A revolta da irmã não se resume ao que ela aponta como pouco-caso. Ela ressalta que os equívocos da Marinha começaram antes, quando o cabo teria pedido dispensa do RAF por ter acabado de sair de um plantão na Emergência do Marcílio Dias.
"Como pode ele já cansado e estressado pedir dispensa por não estar se sentindo bem e ter isso negado?”, indaga Tatiana, revelando que a falta de sensibilidade seguiu mesmo após Rouney desmaiar: “A primeira pessoa que socorreu meu irmão falou que a mandaram voltar para o TAF, porque o teste continuou normalmente, mesmo com ele no chão”.
Tatiana garante ainda que testemunhas lhe relataram que um atendimento mais ágil poderia ter evitado o óbito: “A ambulância demorou em torno de quarenta minutos. Segundo pessoas que estavam lá, a demora no atendimento ocasionou a morte do meu irmão”.
Sentimento de revolta
Começava, então, o que a família descreve como uma série de demonstrações de indiferença por parte da Marinha. Um dos pontos que mais revolta a família foi a demora na entrega de um relatório com informações sobre o atendimento a Rouney, levado do Cefan de volta ao HNMD, e a causa do óbito.
Ainda segundo a família da vítima, a Marinha, após inúmeras solicitações dos parentes serem ignoradas, comunicou a disponibilidade do documento apenas em 12 de novembro, praticamente um mês e meio depois da morte. Após algumas horas de espera, um irmão de Rouney conseguiu retirá-lo, mas de maneira parcial: “Estão alegando que não ficou pronto porque não pagamos pelo prontuário. Ainda tem isso: você tem que pagar por folha, cada uma. Para a família saber o que aconteceu de fato, tem que pagar”, esbraveja Tatiana.
"A Marinha não fez nada pela família. Até a certidão de óbito a gente teve que resolver. O sepultamento foi pago pela família e o ressarcimento foi feito quinze dias depois. Imagina se tivéssemos que esperar quinze dias para fazer o sepultamento?", indaga. "Enviar o laudo à família não é um favor, mas um dever", completou.
O DIA tentou contato com a Marinha por diversas oportunidades a fim de buscar um posicionamento diante das alegações da família, mas não obteve retorno. O espaço segue em aberto.
A reportagem, no entanto, teve acesso ao relatório com informações sobre o atendimento ao cabo.
O documento descreve que o militar deu entrada no Hospital Marcílio Dias "com quadro de parada cardiorrespiratória, em assistolia", quando há ausência completa de atividades do coração.
O relatório ainda informa que "em relação ao pedido de relatório de biópsia/necrópsia", o procedimento não foi realizado por se tratar de "morte assistida por equipe multidisciplinar qualificada, testemunhada, de causa não violenta e não suspeita, de paciente portador de doenças prévias" e que a "família não manifestou o desejo para realização de necrópsia no ato da entrega da Declaração de Óbito".
Sobre o histórico de doenças prévias, o relatório menciona "hipertensão arterial sistêmica, dislipidemia (níveis anormais de gorduras, como colesterol e triglicerídeos, no sangue) e obesidade”. Tatiana disse que desconhecia essas condições, mas questionou uma delas, reforçando que Rouney participava de atividades físicas regularmente: “Ele podia estar acima do peso. Mas, obeso? Meu irmão era praticante de jiu-jitsu, jogava bola. Inclusive fundou um time de futebol no Marcílio com o nome dele. Ou seja, era uma pessoa saudável”.
Impactos da perda
Ainda de acordo com Tatiana, a Marinha também não ofereceu qualquer apoio após a morte de Rouney. Ela própria relatou estar sofrendo fisicamente as consequências da perda repentina.
"Fiquei hipertensa, estou sendo acompanhada por psiquiatra e fazendo terapia com psicóloga. Mas eles não deram nenhuma assistência psicológica à família", disse.
“Não consigo mais ir à faculdade, comecei a ter crises de ansiedade, síndrome do pânico e depressão pós-trauma. Minha vida parou depois da morte do meu irmão. Os oficiais vão passar as festas de fim de ano com suas famílias. E nós?”, finaliza.





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