Orquestra Maré do AmanhãMarco Brendon/ Divulgação

A Orquestra Maré do Amanhã preparou dois presentes de Natal antecipados para o público carioca. Na última sexta-feira, a jornalista Hérica Marmo lançou, no, Shopping Leblon, o livro 'Concerto para um sonho'. E ontem pela manhã foi realizado um grande Concerto de Natal no Teatro EcoVilla RiHappy, no Jardim Botânico. A apresentação, com entrada franca, reuniu orquestra e coro em celebração aos 15 anos de atuação da OMA. O lançamento do livro marca um novo capítulo na história da Orquestra Maré do Amanhã ao registrar a trajetória de transformação social por meio da música.

"Este livro é uma memória viva do que construímos juntos ao longo de 15 anos. Não é apenas a história de uma orquestra, é a história de crianças e jovens que descobriram, por meio da música, que podiam sonhar com outros caminhos. ‘Concerto para um sonho’ eterniza essas trajetórias e mostra que a arte, quando encontra oportunidade, pode mudar destinos", afirma Carlos Eduardo Prazeres, idealizador do projeto.

"Concerto para um sonho é um livro muito especial para mim. Procurei fazer um registro sensível de vidas que foram atravessadas pela música e pela oportunidade", afirma a autora, Hérica Marmo.

O concerto de ontem reuniu alunos, professores e músicos convidados em uma apresentação que percorre clássicos natalinos e trilhas conhecidas do cinema, em um espetáculo pensado para toda a família. O programa foi dividido em quatro partes, com participações do grupo de contrabaixo, violinos, coro e da orquestra completa, sob a regência do maestro Filipe Kochem, vencedor do prêmio Guerra-Peixe, em um repertório que inclui composições como “O Holy Night”, “Hallelujah”, “White Christmas”, “Adeste Fideles” e “Noite Feliz”.

"Este Concerto de Natal representa muito mais do que uma apresentação musical. Ele simboliza a resistência, a dedicação e o crescimento de cada aluno que passou pela Orquestra Maré do Amanhã ao longo desses 15 anos. Ver a orquestra completa e o coro reunidos, num cenário tão especial como o Jardim Botânico, é a prova viva de que a música transforma histórias e constrói futuros. Além disso, vamos ter o primeiro violino construído por nosso intercambista, que está estudando luteria na Itália, o que garante uma dose especial de emoção", afirma Carlos Eduardo Prazeres.

Trajetória de transformação social

Em 2025, a Orquestra Maré do Amanhã celebra 15 anos de uma trajetória marcada pela arte, educação e transformação social. Criada no Complexo da Maré, um dos maiores e mais violentos conjuntos de favelas do Rio de Janeiro, a iniciativa democratiza o acesso ao ensino de música, oferecendo uma oportunidade concreta de futuro para milhares de crianças e jovens em situação de vulnerabilidade. Até hoje, mais de 17 mil pessoas foram impactadas diretamente pela OMA.

O projeto nasceu de uma tragédia pessoal. O jornalista Carlos Eduardo Prazeres criou a orquestra após o seu pai, o maestro Armando Prazeres, ter sido sequestrado e brutalmente assassinado no Rio de Janeiro, em 1999. As investigações policiais apontaram que o crime foi cometido por um morador da Maré. Em vez de reagir com revolta, Carlos Eduardo escolheu a música como resposta.

"Quando meu pai foi assassinado, eu decidi que a violência não teria a palavra final. A música que ele tanto amava seria o caminho para transformar a realidade daquele território. Assim nasceu a Orquestra Maré do Amanhã, para mostrar que o talento pode florescer em qualquer lugar. Basta oportunidade, cuidado e afeto", afirma Carlos Eduardo Prazeres.

Com atuação em 30 escolas públicas da Maré e uma sede própria desde 2018, a Orquestra mantém hoje oito núcleos artísticos, incluindo a premiada Camerata Jovem (eleita Melhor Orquestra do Brasil em 2019 e 2021 pelo Prêmio Profissionais da Música), além de duas orquestras mirins, grupos intermediários e avançados, corais infantis e juvenis, e um núcleo de musicalização infantil. O projeto se expandiu ainda para o Norte do país, com dois núcleos ativos em Porto Trombetas, distrito de Oriximiná (PA), onde ensina música em comunidades ribeirinhas e quilombolas.

A OMA com o Papa Francisco, no Vaticano
A Orquestra Maré do Amanhã foi declarada Património Cultural Imaterial do Rio de Janeiro, em 2023. Mais um grande feito que se junta a tantos outros como as turnês na América do Sul e na Europa; as apresentações para o Papa Francisco, no Vaticano, em 2017 e 2024; o concerto no Réveillon de Copacabana, com Anitta, para 2,5 milhões de pessoas; o desfile no Sambódromo com a bateria da Escola de Samba Beija-Flor em 2016; e a participação no Palco Favela do Rock in Rio 2019, tocando clássicos do rock nacional e internacional. Em 2018, a história da orquestra foi retratada no documentário “Contramaré”, dirigido por Daniel Marenco.

Impacto social e cultural
Em 2024, a Orquestra beneficiou diretamente 4.407 crianças e jovens, sendo 85% pretos e pardos. A faixa etária predominante é de 4 a 7 anos, refletindo a aposta na educação musical desde a infância. Ao considerar os efeitos sobre os agregados familiares, o impacto indireto alcançou no ano passado mais de 12 mil pessoas, em uma comunidade com 140 mil moradores.

As atividades são intensas, com mais de 3.100 horas/aula por ano, em disciplinas como violino, viola, violoncelo, contrabaixo, flauta doce e flauta transversal, além de canto coral, teoria e prática de orquestra. Os jovens músicos participam ainda de 80 concertos didáticos anuais em escolas públicas e apresentações em importantes teatros da cidade do Rio de Janeiro.

Na sede da Orquestra, todos os alunos têm acesso a atendimento psicológico e a um tratamento fisioterapêutico especializado na saúde do músico, pioneiro no Brasil e reconhecido internacionalmente como referência na área.

Núcleo formativo

Em 2025, a Orquestra Maré do Amanhã criou um núcleo formativo voltado para o desenvolvimento profissional de alunos vocacionados com mais de 25 anos. O grupo está sendo preparado por professores de universidades brasileiras e internacionais para seguir dois caminhos possíveis: o ingresso em cursos superiores de música ou a atuação em orquestras profissionais.

Como parte dessa formação, os músicos também têm aulas de inglês, com o objetivo de ampliar o acesso a oportunidades internacionais. Em fevereiro deste ano, cinco alunos participaram de um intercâmbio na University of Missouri, nos Estados Unidos. Já o violinista David Vicente está atualmente em Cremona, na Itália, reconhecida como a capital mundial da luteria, onde se dedica ao estudo da construção artesanal de instrumentos de corda.