A campanha para atualizar as vacinas será realizada até 1º de setembroEdu Kapps/SMS

Se você já ouviu falar sobre as mudanças na vacinação infantil anunciadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fique tranquilo: o calendário brasileiro é completamente diferente, e não há motivo para pais e responsáveis alterarem a rotina de vacinação dos filhos. Cada país define seu próprio calendário de acordo com a realidade epidemiológica, a circulação de doenças e as estratégias de saúde pública locais. No Brasil, a orientação continua a mesma: seguir o Calendário Nacional de Vacinação, estabelecido pelo Ministério da Saúde.
O debate nos Estados Unidos reacendeu também uma dúvida antiga, que preocupa muitas famílias: a suposta relação entre vacinas e autismo — hipótese sem qualquer comprovação científica. A queda na cobertura vacinal preocupa especialistas justamente porque aumenta o número de pessoas suscetíveis a doenças, favorecendo a circulação de patologias que já estavam controladas ou haviam se tornado raras.

Para as famílias brasileiras, a recomendação permanece a mesma: seguir o calendário nacional de vacinação e procurar o pediatra ou uma unidade de saúde em caso de doses atrasadas ou dúvidas sobre a imunização das crianças.

Multivacinação no Rio segue até setembro

No sábado (22), a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro realizou o Dia D de mobilização da campanha de multivacinação, que segue até o dia 1º de setembro. A iniciativa tem como objetivo atualizar a caderneta de crianças e adolescentes de até 14 anos, 11 meses e 29 dias que estejam com alguma vacina atrasada.

Durante o período de mobilização, as 243 salas de vacinação da rede municipal oferecem todos os imunizantes previstos no Calendário Nacional de Vacinação, respeitando as indicações específicas de cada vacina e faixa etária. Para participar, basta comparecer a uma das salas com um documento de identificação da criança ou adolescente e, se possível, a caderneta de vacinação ou outros comprovantes.
'Primeiro passo é ouvir'

Para esclarecer as famílias diante das mudanças nos EUA, o jornal O Dia ouviu duas médicas: a pediatra Jessica Pinha e a neuropediatra Juliana Arroxelas.

O Dia: Quando um pai ou responsável chega ao consultório repetindo informações que viu nas notícias sobre os EUA, qual é a melhor forma de conduzir essa conversa sem soar como uma simples negação das preocupações da família?

Jessica Pinha: O primeiro passo é ouvir. Não adianta simplesmente dizer a uma mãe ou a um pai que aquilo que eles viram está errado. A preocupação é legítima, principalmente quando envolve a saúde dos filhos. Por isso, procuro entender de onde veio a informação, explicar o contexto e trazer a conversa para o que sabemos a partir das evidências científicas e da realidade brasileira. Afinal, os calendários de vacinação podem variar bastante de um país para outro. Nosso papel como pediatras é acolher a dúvida, esclarecer e ajudar a família a tomar uma decisão segura, baseada em informação de qualidade.

O Dia: Diante da queda na cobertura vacinal e da circulação de desinformação nas redes sociais, que estratégias vocês recomendam às famílias e aos profissionais de saúde para reverter esse cenário e reconstruir a confiança na vacinação?

Jessica Pinha: A confiança se reconstrói com informação clara e diálogo. Para as famílias, a orientação principal é: ao receber uma informação que gere medo ou dúvida, conversem com o pediatra ou com um profissional de saúde de confiança antes de tomar qualquer decisão. E nós, profissionais, também precisamos estar disponíveis para ouvir, sem julgamento. Muitas vezes, uma dúvida que parece simples para nós representa uma preocupação enorme para a família. Explicar com calma para que serve cada vacina, quais doenças ela previne e quais são os riscos de não vacinar faz toda a diferença. A vacinação continua sendo uma das formas mais importantes de prevenção que temos.

O Dia: Campanhas como a de multivacinação do Rio são eficazes para recuperar crianças com o esquema vacinal atrasado? Existe algum risco em aplicar várias vacinas de uma vez, ou esse receio não tem fundamento médico?

Jessica Pinha: São muito importantes, porque criam a oportunidade de revisar a caderneta e colocar em dia as vacinas atrasadas. Uma dúvida comum entre os pais é se aplicar várias vacinas no mesmo dia pode 'sobrecarregar' o organismo da criança. De forma geral, não: a aplicação simultânea das vacinas recomendadas é segura e não sobrecarrega o sistema imunológico. Claro que existem orientações específicas para alguns imunizantes e faixas etárias, por isso a caderneta deve sempre ser avaliada pela equipe de saúde. Mas deixar de atualizar a vacinação por medo de tomar mais de uma vacina no mesmo dia não é recomendado.

O Dia: A senhora mencionou que a associação entre vacinas e autismo já foi "amplamente investigada". Pode explicar, de forma acessível, que tipo de estudos e em que escala populacional essa hipótese foi testada e descartada?
Estudos comprovam que vacina não causa autismo
Juliana Arroxelas: A hipótese de que as vacinas — principalmente a tríplice viral — causam autismo foi testada em milhões de crianças, em estudos de diversos países, de forma consistente. A ideia surgiu de um único estudo, publicado em 1998, com apenas 12 crianças e sem grupo controle. Esse estudo foi posteriormente retratado pela revista que o publicou, e o autor foi considerado culpado de má conduta ética e científica, já que se descobriu que os dados haviam sido fraudados.

Diferentemente do estudo original, os trabalhos que trataram a questão com rigor científico foram inúmeros. Em diversos países, mais de 2 milhões e meio de crianças já foram analisadas, incluindo um estudo no Japão focado na regressão do espectro autista após a vacinação, que não encontrou evidência de associação entre os dois fatores. Outro estudo, com quase 700 mil crianças nascidas entre 1999 e 2010, considerou até subgrupos de risco, como irmãos de crianças com autismo, e também não encontrou nenhuma associação. Não se trata, portanto, de poucos estudos pequenos: milhões de crianças foram acompanhadas no mundo todo, com resultados consistentemente negativos para essa suposta relação entre autismo e vacinas.

O Dia: Muitas vezes os primeiros sinais de autismo aparecem justamente na faixa etária em que a criança toma várias vacinas do calendário básico. Como a senhora explica essa coincidência temporal para os pais, sem parecer que está minimizando a preocupação deles?

Juliana Arroxelas: A genética é o que explica a maior parte do risco relacionado ao autismo. O calendário vacinal básico, entre os 12 e os 18 meses, simplesmente coincide com a janela em que a linguagem, o contato social e o comportamento se tornam observáveis. As habilidades que definem o transtorno do espectro autista , como a fala, o brincar simbólico e a reciprocidade social, surgem e podem ser avaliadas exatamente nessa idade.

Entendo que a preocupação dos pais seja legítima, mas os estudos mostram que não há diferença no risco de autismo entre crianças vacinadas e não vacinadas — nem relação entre autismo e componentes das vacinas, como o alumínio. Adiar ou evitar vacinas não reduz o risco de transtorno do espectro autista, mas expõe a criança a doenças graves e evitáveis.



Especialistas afirmam que vacinação não causa autismo
Se você já ouviu algo sobre a mudança da vacinação infantil nos Estados Unidos anunciada pelo presidente Donald Trump fique atento. O calendário brasileiro é completamente diferente e não tem motivos para que pais e responsáveis mudem a rotina da vacinação, que é definida pelas autoridades de saúde de cada país de acordo com sua realidade epidemiológica, circulação de doenças e estratégias de saúde pública. No Brasil, a orientação continua sendo seguir o Calendário Nacional de Vacinação estabelecido pelo Ministério da Saúde.A discussão nos Estados Unidos também voltou a dar espaço para uma dúvida antiga que preocupa muitas famílias: a suposta relação entre vacinação e autismo, o que não tem comrpovação científica. A queda da cobertura vacinal preocupa especialistas porque aumenta o número de pessoas suscetíveis e pode favorecer a circulação de doenças que estavam controladas ou haviam se tornado pouco frequentes. Para as famílias brasileiras, portanto, a recomendação permanece a mesma: seguir o calendário de vacinação adotado no Brasil e procurar o pediatra ou uma unidade de saúde caso existam doses atrasadas ou dúvidas sobre a imunização da criança.No sábado (22), a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro realizou o o dia D de mobilização da campanha de multivacinação. A campanha para atualizar a caderneta de crianças e adolescentes de até 14 anos, 11 meses e 29 dias que estejam com alguma vacina atrasada se estende até o dia 1º de Setembro.Durante a mobilização, as 243 salas de vacinação da rede municipal oferecem todas as vacinas previstas no Calendário Nacional de Vacinação, respeitando as indicações de cada imunizante e faixa etária.Para participar, basta procurar uma das salas de vacinação levando um documento de identidade da criança ou adolescente e, de preferência, a caderneta ou outros comprovantes de vacinação.Para que pais e mães não fiquem alarmados com a mudança nos EUA, o jornal O DIA entrevistou duas médicas a respeito da vacinação. São elas a pediatra Jessica Pinha e a neuropediatra Juliana Arroxelas. O Dia: Quando um pai ou responsável chega ao consultório repetindo informações que viu nas notícias sobre os EUA, qual é a melhor forma de conduzir essa conversa sem soar como uma simples negação das preocupações da família?Jessica Pinha: Eu acho que o primeiro passo é ouvir. Não adianta simplesmente dizer para uma mãe ou para um pai que aquilo que eles viram está errado. A preocupação é legítima, principalmente quando envolve a saúde dos filhos. Então eu procuro entender de onde veio aquela informação, explicar o contexto e trazer a conversa para o que sabemos a partir das evidências científicas e para a realidade brasileira. Os calendários de vacinação, inclusive, podem ser diferentes de um país para outro. O nosso papel como pediatra é acolher a dúvida, esclarecer e ajudar aquela família a tomar uma decisão segura, baseada em informação de qualidade.O Dia: Diante da queda na cobertura vacinal e da circulação de desinformação nas redes sociais, que estratégias vocês recomendam às famílias e aos próprios profissionais de saúde para reverter esse cenário e reconstruir a confiança na vacinação?Jessica Pinha: A confiança se reconstrói com informação clara e diálogo. Para as famílias, a principal orientação é: recebeu uma informação que gerou medo ou dúvida, converse com o pediatra ou com um profissional de saúde de confiança antes de tomar qualquer decisão. E nós, profissionais, também precisamos estar disponíveis para ouvir, sem julgamento. Muitas vezes, uma dúvida que parece simples para nós é uma preocupação enorme para aquela família. Explicar de forma tranquila para que serve cada vacina, quais doenças ela previne e quai são os riscos de não vacinar faz muita diferença. A vacinação é uma das formas mais importantes de prevenção que temos.O Dia: Campanhas como a de multivacinação do Rio são eficazes para recuperar crianças com esquema atrasado? Existe algum risco em aplicar várias vacinas de uma vez, ou esse receio não tem fundamento médico?Jessica Pinha: São muito importantes porque criam uma oportunidade para revisar a caderneta e colocar em dia as vacinas que ficaram atrasadas. E uma dúvida muito comum dos pais é se várias vacinas no mesmo dia podem “sobrecarregar” o organismo da criança. De forma geral, não. A aplicação simultânea das vacinas recomendadas é segura e não sobrecarrega o sistema imunológico. É claro que existem orientações específicas para alguns imunizantes e faixas etárias, e por isso a caderneta sempre deve ser avaliada pela equipe de saúde. Mas deixar de atualizar a vacinação por medo de receber mais de uma vacina no mesmo dia não é recomendado.
O Dia: A senhora mencionou que a associação entre vacinas e autismo já foi "amplamente investigada". Pode explicar, de forma acessível, que tipo de estudos e em que escala populacional essa hipótese foi testada e descartada?Juliana Arroxelas: A hipótese de que vacinas, principalmente a tríplice viral, causam autismo foi testada em milhões de crianças em estudos de vários países, de uma forma consistente. E a ideia de que as vacinas poderiam causar autismo surgiu de um único estudo, publicado em 1998, com apenas 12 crianças, sem um grupo controle. E esse estudo foi posteriormente retratado pela revista que o publicou e o autor foi considerado culpado de uma conduta ética ruim, uma conduta científica ruim, porque descobriu-se que os dados foram fraudados. Diferentemente do estudo original, os estudos que trataram a questão de forma rigorosa foram inúmeros e em diversos países foram analisadas mais de 2 milhões e meia de crianças, inclusive um estudo no Japão focado na regressão do espectro autista após vacinas, que mostrou que não há evidência de associação entre a regressão no autismo e a vacinação. Um estudo com quase 700 mil crianças nascidas entre 1999 e 2010 que considerou subgrupos de risco como irmãos com autismo e não houve associação nenhuma entre vacinas e o autismo. Então, não se trata de poucos estudos pequenos. Mais de 2 milhões de crianças foram testadas no mundo, com milhões de pessoas por ano sendo acompanhadas, com resultados consistentemente negativos para essa relação de autismo e vacinas.O Dia: Se as vacinas não causam autismo, o que hoje se sabe cientificamente sobre as causas do transtorno do espectro autista, e por que essa lacuna de certeza ainda abre espaço para teorias como essa? Muitas vezes os primeiros sinais de autismo começam a aparecer justamente na faixa etária em que a criança toma várias vacinas do calendário básico. Como a senhora explica essa coincidência temporal para os pais de forma didática, sem parecer que está minimizando a preocupação deles?Juliana Arroxelas:  A genética é o que explica a maior parte do risco relacionado ao autismo, . O calendário vacinal básico, inicial, dos 12 aos 18 meses, ele simplesmente coincide com a janela em que a linguagem, o contato social, o comportamento se tornam observáveis. E as habilidades que definem o transtorno do espectro autista, como falar, o brincar simbólico, a reciprocidade social, surgem e podem ser avaliadas exatamente nessa idade. Então, eu entendo que a preocupação dos pais exista relacionada a esse assunto, mas os estudos mostram que não há diferença no risco de autismo entre crianças vacinadas e crianças não vacinadas. e nem a relação de autismo com alumínio e outros componentes de vacinas. Adiar ou evitar vacinas não reduz risco de transtorno de espectro autista, mas expõe a criança a doenças que são preveníveis e que são graves.