Profissionais de saúde vêm enfrentando uma rotina das mais desgastantes e dolorosas
Profissionais de saúde vêm enfrentando uma rotina das mais desgastantes e dolorosasMiguel SCHINCARIOL / AFP
Por Fernando Faria
Na angustiante e cotidiana contagem dos mortos pela covid-19, chegamos a 300.685 óbitos. O Ministério da Saúde impôs novas regras para o registro de mortes, o que dificultou muito a contabilização dos dados, mas recuou horas depois. Em São Paulo, por exemplo, foram 281 óbitos nesta quarta-feira, contra 1.021 no dia anterior. No Brasil, nas últimas 24 horas, as mortes somaram 2.009.
Nos últimos 76 dias no país, mais 100 mil vidas foram perdidas. Em um ano de pandemia, nos vemos no momento mais cruel: hospitais públicos e particulares superlotados, profissionais de saúde exaustos e abalados, familiares desesperados por uma vaga para o avô, o pai, a mãe, o filho... E a perspectiva é que em abril a situação se agrave. Ao menos três estados não têm mais UTI para pacientes infectados pelo coronavírus: Acre, Rondônia e Mato Grosso do Sul. Mais 13, além do Distrito Federal, estão com o índice acima de 90%: Amapá, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Paraná, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo. 
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O negacionismo e a irresponsabilidade racharam o país. Caímos no enorme buraco do medo e da incerteza, não fazemos ideia do quanto ainda despencaremos, nem se sairemos. A doença não dá trégua, o vírus se reinventa, a vacina chega a conta-gotas e milhões de brasileiros parecem anestesiados, preferem ignorar a realidade, viver (ou morrer) num mundo paralelo. Não usam máscaras, não evitam aglomerações, não deixam de frequentar festas clandestinas. Fazem como ninguém o papel de voluntárias 'bombas humanas', prestes a explodir em contaminações.
Em meio à crise sanitária, estamos no quarto ministro da Saúde, transformamos a pandemia em pandemônio diário, com falta de leitos e de insumos. Há um ano, o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta alertava que, "se fizéssemos tudo errado", chegaríamos a 180 mil mortos em 2020. E como erramos! Temos 10% dos óbitos de todo o mundo. Jamais foi uma 'gripezinha'. Até para os negacionistas é bem difícil fugir do mundo real. Afinal, quem de nós não perdeu um parente, não tem um amigo que chorou a morte de alguém próximo? 
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Mas o que são 300 mil vidas? Muito difícil dar a exata medida desse trágico número em palavras. É como se desaparecessem de uma só vez todos os moradores dos bairros de Copacabana, Ipanema, Leblon, Leme e Flamengo. Somente nove municípios do Estado do Rio têm mais de 300 mil habitantes. Os outros 83 sumiriam. É como se numa guerra nossas Forças Armadas fossem dizimadas, com 90% dos homens tombando no campo de batalha. Você se emocionou com os garotos que morreram no incêndio no Ninho do Urubu e tiveram interrompido o sonho no Flamengo? Pois é: 300 mil são a repetição daquela tragédia por 30 mil dias, ou 82 anos. Mas, e daí? Hoje, o Brasil vai continuar contando os seus mortos, numa rotina fúnebre e cruel demais. Você quer mesmo ser cúmplice dessa catástrofe?
LUIZ HENRIQUE MANDETTA, ex-ministro da Saúde
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"Trezentas mil vezes a não decisão pela vida, o boicote ao SUS e a negação da Ciência deram nesse número. E, infelizmente, ainda não chegamos ao fim. Mas, se a gente economizar uma vida, já terá valido a pena".
ELENA LANDAU, economista
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"É difícil encontrar palavras para tamanha tragédia. E o pior de tudo uma tragédia previsível. Não foi por falta de aviso. Os cientistas, a população, a sociedade pedindo políticas de governo de combate à pandemia. Vacinação em massa, distribuição de máscaras, uma coordenação do governo na área da Saúde, da Educação... o que está acontecendo é duplamente trágico porque era previsível, era evitável em boa parte, e o governo, não só não criou condições para evitar, como vem sabotando toda e qualquer medida para evitar mais tragédias como essa. Vai ao Supremo contra medidas de governadores e prefeitos, retarda o auxílio emergencial. É trágico, é uma banalização da palavra tragédia porque é muito mais do que isso"
RODRIGO MAIA, ex-presidente da Câmara dos Deputados
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“Chegamos ao inaceitável número de 300 mil mortos pela covid-19 no Brasil. Infelizmente, o negacionismo e o desprezo pela Ciência do governo Bolsonaro vêm gerando graves consequências aos brasileiros e às suas famílias. Essas mortes e os impactos da pandemia na economia poderiam ser minimizados com a compra de vacinas ainda no ano passado e com o (bom) exemplo dado pelo presidente. O peso das mortes dessas milhares de pessoas que se foram por causa de uma doença, que nunca foi só uma gripezinha, acompanhará Bolsonaro, mesmo após sair do cargo”.
ANDRÉ CECILIANO, presidente da Assembleia Legislativa do Rio
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“É muito triste e lamentável o país ter atingido esse número de mortos. Na Alerj, temos trabalhado, incansavelmente, e tomado todas as medidas para ajudar o Estado no enfrentamento à covid-19. No ano passado, por exemplo, dos mais de 1.600 projetos de lei apresentados, a maioria foi relacionada ao combate à pandemia; e desse total 435 projetos se tornaram leis de proteção à vida e ao direito do cidadão. Acabamos de aprovar, na Casa, a lei já sancionada que cria um auxílio emergencial de até R$ 300 voltado à população em vulnerabilidade social e que prevê também linha de crédito de até R$ 50 mil para microempreendedores individuais, autônomos, entre outras categorias. Todo esse esforço é importante, mas sabemos que a pandemia só será controlada com a vacinação em massa dos brasileiros. Portanto, a principal luta é ampliar o número de pessoas vacinadas o quanto antes possível".
RAUL VELLOSO, economista
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"A chegada do Brasil a número tão alto de mortes por covid, especialmente em comparação com os demais países, reflete a combinação da alta vulnerabilidade da população carente com o desacerto das políticas e ações seguidas por aqui. Ou seja, o negacionismo das autoridades, a falta de ação na compra de vacinas no ano passado e, principalmente, a falta de coordenação das políticas de isolamento social. Em adição, o governo falhou muito ao hesitar na definição e na implementação de medidas como auxílio emergencial às pessoas carentes".
PATRICIA PILLAR, atriz
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“Pela completa falta de responsabilidade e humanidade deste governo, a parte mais pobre da população está com fome. Precisamos urgentemente de um auxílio emergencial digno para que pessoas não morram também de fome nesse país. Aproveito este espaço para reforçar a importância de ajudar quem possa estar com dificuldade de alimentar sua família nesse momento".
CARLO CAIADO, presidente da Câmara de Vereadores do Rio
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"Chegar a esse número era algo inimaginável no início da pandemia. São muitas famílias desfeitas por causa desse vírus. A vacina, alinhada com cuidados essenciais, é a nossa esperança. Desde o início da pandemia, a Câmara de Vereadores vem auxiliando a Prefeitura do Rio, através de legislações, no combate à Covid-19. Recentemente, essa Casa Legislativa aprovou uma lei, já em vigor, que autorizou o Executivo a comprar vacinas imunizantes para complementar o Plano Nacional de Imunização. Só venceremos essa batalha com esforços mútuos de todos os segmentos da sociedade.  A mesa diretora da Câmara de Vereadores aprovou o repasse de R$ 30 milhões para a Prefeitura do Rio para o combate à Covid-19. Os recursos são oriundos de economia orçamentária da Casa".