Entre os pré-candidatos, há lideranças tradicionais, governadores bem avaliados e nomes do bolsonarismoMontagem com fotos de Agência Brasil e divulgação

Em 2026, os brasileiros voltarão a viver um ano de disputas eleitorais. Além do presidente da República, os eleitores votarão também para governadores, senadores e deputados federais e estaduais. Analistas ouvidos pelo jornal O DIA indicam previsões para o cenário político deste ano.
O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), confirmou em outubro que será candidato em à reeleição. Pela oposição, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aparece como o principal nome, com a pré-candidatura lançada no início de dezembro. Outras lideranças também são cotadas, como os governadores de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e do Paraná, Ratinho Junior (PSD).
A votação está prevista para o dia 4 de outubro, com eventual segundo turno marcado para 25 do mesmo mês. Uma das novidades do pleito é a data de posse do presidente da República, que ocorrerá, pela primeira vez, em 5 de janeiro de 2027. Já os governadores eleitos tomarão posse no dia seguinte.
O professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF) Carlos Sávio Teixeira afirma que o cenário pode mudar até a realização da votação. "Eu observo que falta bastante tempo até a eleição presidencial e a minha avaliação é com base nos elementos atuais, que podem ser alterados até outubro. Faltam dez meses. Politicamente, isso é uma eternidade", diz.
Carlos Sávio Teixeira, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF)  - Arquivo pessoal
Carlos Sávio Teixeira, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF) Arquivo pessoal
No entanto, diante do cenário atual, o especialista prevê que o pleito será semelhante ao de quatro anos atrás. "Acredito que a eleição será muito parecida com a de 2022, inclusive no resultado. Quem vencer será por uma margem muito estreita de votos", avalia.
Já o professor do Centro Universitário Arnaldo Janssen (UniArnaldo) Luciano dos Santos aponta que há mudanças relevantes previstas para a eleição presidencial deste ano.
Dr. Luciano dos Santos, professor do Centro Universitário Arnaldo Janssen (UniArnaldo)  - Arquivo pessoal
Dr. Luciano dos Santos, professor do Centro Universitário Arnaldo Janssen (UniArnaldo) Arquivo pessoal
"Além da ausência direta de Jair Bolsonaro como candidato, o País atravessa um ciclo de desgaste econômico e institucional que torna os eleitores mais sensíveis a temas de estabilidade e resultados concretos", pontua.
Outra alteração importante está nos próprios eleitores, segundo o docente. "Há o aprendizado acumulado sobre desinformação e uso das redes sociais, tanto por parte das plataformas quanto por parte da sociedade, o que modifica o ambiente digital em relação ao que se viu em 2018 e 2022", expõe Luciano. "Assim, 2026 é uma eleição que preserva elementos do passado recente, mas introduz novos condicionantes que mudam o tabuleiro."
Candidatos
Além de Lula e Flávio Bolsonaro, o cientista político da Universidade Presbiteriana Mackenzie Rodrigo Prando indica outros possíveis nomes para o pleito.
Rodrigo Prando, cientista político da Universidade Presbiteriana Mackenzie  - Arquivo pessoal
Rodrigo Prando, cientista político da Universidade Presbiteriana Mackenzie Arquivo pessoal
"Na família Bolsonaro, além de Flávio, temos também Michelle Bolsonaro, que sempre foi testada nas pesquisas qualitativas e quantitativas para a Presidência, seja como cabeça de chapa, seja como vice", afirma. "E temos os governadores que há muito se colocam como presidenciáveis, como pré-candidatos: Ronaldo Caiado (União Brasil), Eduardo Leite (PSD) e Romeu Zema (Novo). Ratinho Junior (PSD) e Tarcísio de Freitas (Republicanos) são os dois que despontam em melhores condições."
O especialista ressalta que, embora esses nomes sejam os mais prováveis, isso não impede a aparição de um novo candidato para o próximo ano. Romeu Zema, Eduardo Leite, Ronaldo Caiado e Cabo Daciolo já declararam pré-candidatura à Presidência da República.
O lançamento do nome de Flávio Bolsonaro surge como uma forma de reforçar o bolsonarismo, mas também pode "fragmentar a direita se não houver coordenação interna", aponta o advogado constitucional e penal Ilmar Muniz. "A unificação depende de alianças e da capacidade de atrair apoios que tradicionalmente orbitam o antigo líder."
Advogado constitucional e penal Ilmar Muniz - Arquivo pessoal
Advogado constitucional e penal Ilmar MunizArquivo pessoal
O professor Luciano dos Santos avalia que a divisão pode acontecer devido à preferência por um candidato com maior apelo institucional. "Muitos atores mais moderados preferem um nome com maior apelo institucional, como um governador bem avaliado, ou alguém capaz de dialogar melhor com setores econômicos e políticos. A candidatura de Flávio fortalece a identidade bolsonarista, mas enfraquece a construção de uma frente mais ampla e pragmática", diz.
O cientista político Rodrigo Prando frisa que a pré-candidatura de Flávio pode fazer parte de uma estratégia para beneficiar o ex-presidente.
"Muita gente diz que a candidatura de Flávio Bolsonaro é um placebo, um balão de ensaio, e que, no fundo, a grande questão seria a aprovação da anistia, que foi afastada por ser inconstitucional. Mas o PL da Dosimetria está aí e reduziria muito a permanência de Bolsonaro preso", destaca.
"Talvez a figura de Flávio tenha sido um elemento para desorganizar e mexer com a direita, a ponto de ele se retirar quando tivesse a dosimetria, ou uma pena melhor para seu pai, para então entrar uma figura mais palatável e moderada, que é o Tarcísio de Freitas, mais aceito por uma parcela do mercado, a "Faria Lima", o que seria uma saída melhor."
Por outro lado, a pré-candidatura de Lula também enfrenta rejeição. Luciano dos Santos afirma que "o antipetismo ainda mobiliza uma parte expressiva do eleitorado de direita e continua sendo um elemento emocionalmente relevante, mas perdeu parte de sua força como mobilizador exclusivo".
"Em 2018, o antipetismo foi a força dominante que unificou grande parte da direita; em 2022 ainda teve papel importante, mas já conviveu com fatores novos. Em 2026, o antipetismo continua sendo útil para diferenciar candidaturas e consolidar bases ideológicas, porém já não é suficiente para ampliar votos sem a presença de propostas concretas que respondam às preocupações econômicas e de segurança", destaca.
Principais temas 
De modo geral, os especialistas ouvidos pela reportagem apontaram que os principais temas da campanha presidencial serão economia, segurança pública, relações entre os Poderes e pautas sociais.
"A campanha deve ser dominada por temas econômicos, especialmente desemprego, inflação, renda e estabilidade fiscal", destaca o professor Luciano dos Santos. "A segurança pública também deve aparecer de maneira muito forte, principalmente para o eleitorado conservador."
O cientista político Rodrigo Prando também cita que a pauta ambiental pode aparecer durante as campanhas. "Podem vir à tona a questão da mudança climática e dos eventos climáticos extremos, bem como a falta de planejamento e de estrutura do Brasil para lidar com isso."
"As crises institucionais entre os Poderes também devem aparecer, mas não têm um apelo tão forte, em termos eleitorais, junto à população. Apenas uma parcela muito pequena da sociedade tem preocupações institucionais, como, por exemplo, a harmonia entre os três Poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário", explica o especialista. "Na grande maioria das vezes, são outros temas que mobilizam e se transformam em força para a narrativa dos políticos que disputarão o Planalto", completa Rodrigo Prando.
Congresso Nacional
A disputa no Legislativo também será central, segundo os especialistas. Luciano dos Santos detalha a importância das eleições para o Congresso.
"O Senado é entendido, inclusive, pelos bolsonaristas, como o espaço principal de disputa. Para muitos deles, a questão não é a Presidência da República, admitindo-se até mesmo uma derrota para Lula. O desejo público e cristalino do bolsonarismo é formar uma maioria no Senado, conquistar a presidência da Casa e, com isso, ter condições de modificar a Constituição, especialmente no que diz respeito à possibilidade de trazer à tona o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal", avalia.
Luciano também reforça que, embora seja um desejo do bloco, a concretização do impeachment de um ministro do STF não é simples.
"Com uma maioria oposicionista, é possível que pedidos de impeachment de ministros do STF passem a circular com mais frequência e maior força retórica. No entanto, transformar esses discursos em ações concretas é bem mais difícil", afirma.
"Processos desse tipo exigem fundamentação jurídica robusta e passam por diversas etapas que impedem que sejam usados como simples instrumentos políticos. Na prática, esse tipo de pauta costuma ter mais valor simbólico e serve para mobilizar bases ou pressionar instituições do que para produzir resultados efetivos", completa.
Já na Câmara dos Deputados, o professor da UFF Carlos Sávio avalia que o cenário atual será preservado: "Tendo em vista as regras eleitorais e as regras de financiamento eleitoral, a tendência é que nós tenhamos a manutenção do quadro atual, que é o fortalecimento do centrão e, portanto, um alinhamento, entre aspas, ideológico, mais de centro-direita e de direita, predominando. Minha leitura é que não teremos uma alteração nessa composição."