Livro 'Um Projeto Nacionalista 1950-1960', baseado em memórias e entrevistas, analisa ideias de soberania, desenvolvimento e o impacto histórico do nacionalismo no períodoReprodução
Jacob Pinheiro Goldberg - A criação do Serviço Social no Exército não foi uma ideia que eu tive. Foi uma inquietação que me tomou. Havia, naquele ambiente de Quitaúna, algo que não se dizia, mas que se sentia. A estrutura funcionava, a disciplina se impunha, o comando era respeitado. Mas, por trás disso, havia um vazio. O homem, reduzido à função, começava a desaparecer dentro da própria instituição.
JPG - Lott era um homem de eixo. Em um tempo em que tudo tendia à polarização, ele se sustentava numa fidelidade rara, não a um partido, não a uma ideologia fechada, mas à ideia de legalidade como fundamento da vida coletiva. Seu anticomunismo não o tornava cego. E sua posição institucional não o tornava servil. Ele compreendia que a soberania de um país não se constrói pela adesão automática a blocos de poder, mas pela capacidade de manter um centro próprio. Quando intervém em 1955, não há ali teatralidade. Há um gesto contido, quase silencioso, mas decisivo. Ele impede o colapso de uma ordem que ainda tentava se organizar.
PR - Na sua avaliação havia algum traço ufanista nessa postura? Ou antinorte-americana? Ou era apenas de fato um movimento que buscava um caminho de autodeterminação e desenvolvimento nacional?
JPG - Hoje se fala de nacionalismo como se fosse uma emoção. Naquele tempo, ele era um esforço intelectual. Havia, no interior das Forças Armadas e fora delas, uma tentativa de compreender o Brasil como problema e como possibilidade. Nomes como Horta Barbosa, Estillac Leal, Nelson Werneck Sodré, dialogando com o ISEB, com Álvaro Vieira Pinto e Hélio Jaguaribe, buscavam algo que hoje parece distante: uma ideia de país que não fosse derivada. Não se tratava de rejeitar o mundo, mas de não se dissolver nele. O que estava em jogo não era orgulho, mas autonomia.
PR - Qual paralelo você traçaria entre a Novembrada, quando Lott tomou a frente para impedir um golpe militar e os acontecimentos políticos de 1964?
JPG - 1955 e 1964. Há momentos em que a história se condensa. Em 1955, a força atua para preservar a ordem constitucional. Em 1964, atua para suspendê-la. A mesma instituição, o mesmo instrumento, sentidos opostos. Isso revela algo inquietante. A estrutura não garante o sentido. O sentido depende de quem a ocupa, de como a interpreta, de que tipo de relação mantém com a ideia de limite. A história, nesse ponto, não julga. Ela expõe.
PR - Se por um lado Lott parecia ter aversão ao totalitarismo dos Países da cortina de ferro, ao mesmo tempo, tudo indica que ele se aproximou de uma esquerda democrática, neste caso quais seriam suas filiações políticas e influências Ideológicas? Não podemos identificar uma contradição em termos entre buscar um exército forte com um nacionalismo conservador e a sua aproximação com a esquerda?
JPG - A esquerda e a farda. A farda nunca foi homogênea. Sempre houve, em seu interior, tensões que espelhavam as tensões da própria sociedade. O livro percorre essa trajetória, desde os movimentos tenentistas até as formulações mais maduras de um nacionalismo que buscava conciliar desenvolvimento e justiça social. Não era uma esquerda de ruptura total, mas uma esquerda que acreditava na possibilidade de transformação por dentro das instituições. Minha posição sempre esteve nesse campo. Um socialismo democrático, humanista, que mais tarde se reconheceria no PSB, mas que, naquele momento, era antes uma disposição ética do que uma filiação formal.
PR - Quais mensagens diretas e subliminares você destacaria no papel que o General Lott teve, naquele período, na tentativa de evitar a radicalização? Você enxerga algum paralelo com o atual momento preocupante e instável da política atual no Brasil?
PR - Em uma entrevista de 2024 você menciona sua detenção. Consegue evocar o que você pensava e sentia quando você esteve preso pelo DOPS?
JPG - A prisão. A experiência da prisão desloca o sujeito para fora de si. Não é apenas a liberdade que se perde. É a estrutura de sentido que se rompe. O mundo deixa de ser previsível, e o Estado, que deveria garantir a ordem, passa a produzir desordem. Nesse ponto, o sujeito se vê diante de uma tarefa que não escolheu. Reconstruir-se, internamente, para não desaparecer.
PR – Na sua opinião, qual é a influência que o seu judaísmo teve em relação as suas preocupações com a justiça loto sensu, justiça social, e como você relacionaria essa preocupação – durante um período -- com a sua filiação à esquerda democrática?
PR - Elie Wiesel, sobrevivente da Shoah (Holocausto) e ganhador do prêmio Nobel, já avisava que os judeus não podem combater sozinhos o racismo antissionista. Uma vez que você contabilizou o número de vezes que a palavra “Sion” é mencionada na Bíblia, como entende o papel da população evangélica e de outras religiões na defesa dos valores judaicos e cristãos? Poderia definir melhor como enxerga o sionismo? Seria uma perspectiva para bem além do estabelecimento dos judeus na Terra de Israel, se compreendi bem, para você, a aspiração de retorno a Sion representaria uma perspectiva próxima à utopia, onde as célebres profecias de Isaias se consolidariam com a celebração de uma Shalom que faça sentido para todos os povos.
JPG - Sion é menos um lugar do que uma direção. Uma direção que atravessa séculos, que reaparece na linguagem, na liturgia, na memória coletiva. Contar suas ocorrências na Bíblia pode ser um gesto erudito, mas o que importa é outra coisa. Sion é a recusa do desaparecimento. É a persistência de um sentido mesmo quando todas as circunstâncias apontam para o contrário.
JPG - O retorno do ódio. O ódio não se extingue. Ele se transforma. O que vemos hoje não é novidade, mas reconfiguração. O antissemitismo sempre encontrou formas de se atualizar porque ele não é apenas ideológico. Ele é afetivo, inconsciente, profundamente enraizado. Ele responde à necessidade de projetar no outro aquilo que não se suporta reconhecer em si.
PR - E quanto ao envolvimento de amplos setores da esquerda autocrática com o a militância contra judeus e o estado de Israel? Como avalia o que parece ser uma contradição absoluta: o alinhamento histórico por parte da esquerda com políticas racistas, versus o ideário original de intransigente defesa dos direitos civis e da evocação de autodeterminação dos judeus?
JPG - As contradições da esquerda. A esquerda, quando perde a relação com o concreto, corre o risco de se tornar abstrata. E, nesse ponto, pode reproduzir aquilo que critica. A defesa do humano não pode ser condicionada. Quando se torna seletiva, deixa de ser ética e passa a ser discurso. O problema não está na ideia. Está no descolamento entre ideia e realidade.
PR - Como psicanalista qual é a sua análise de como tem sido conduzida a luta contra a intolerância no Brasil e no mundo? Não apenas o racismo contra judeus, mas contra todas as minorias? Parece ter se infiltrado na direita woke tanto como na esquerda woke. Você concorda que as campanhas não estejam produzindo uma mudança muito favorável e, portanto, novos caminhos merecem ser experimentados? O que acha que falta nas campanhas contra o ódio? O que deve ser evitado? Como arregimentar mais forças para buscar uma arrumação? É possível recuperamos um centro político e contornarmos a confrontação e a radicalização?
JPG - A intolerância e seus limites. A intolerância contemporânea revela algo que vai além da política. Ela aponta para uma dificuldade mais profunda, uma incapacidade de lidar com o outro como diferença real. As campanhas são importantes, mas operam num nível que nem sempre alcança o núcleo do problema. Porque o preconceito não nasce da norma. Ele nasce do desejo, da fantasia, do medo. Sem compreender isso, qualquer tentativa de enfrentamento será parcial.
PR – Você teve uma ampla e longeva convivência com presidentes, ex-presidentes, políticos, religiosos e pensadores de várias tendências filosóficas e políticas. A partir de sua vivência existencial quais seriam os seus conselhos para as classes governantes neste momento? No campo político ainda, e voltando um pouco à provocação acima: a partir do livro publicado, você considera que há uma possibilidade - para bem além do reducionismo direita/esquerda - de reabilitar o centro político? Um centro que foi sendo dizimado pelo antagonismo fácil e antidialético do populismo, e do maniqueísmo de uma classe que insiste em não compreender os valores republicanos?
JPG - O centro político. O centro não é ausência de posição. É capacidade de sustentar tensão. Ele exige algo raro, a disposição de não ceder à simplificação. O livro mostra que houve um momento em que essa tentativa existiu, uma tentativa de pensar o Brasil fora dos extremos. Mas o centro é sempre mais difícil. Ele não mobiliza paixões fáceis. Ele exige maturidade, e maturidade é um bem escasso na história.
PR - Qual seria o caminho para que o Estado brasileiro, uma entidade muito maior do que os governos que são necessariamente efêmeros, voltasse a compreender a importância de Israel como aliado não apenas do ponto de vista tecnológico e militar, mas democrático e civilizacional, e buscar, enfim, superar o antiamericanismo infantil que parece ter tomado conta de algumas instituições?
JPG - Brasil, Israel e maturidade. O Brasil ainda oscila entre posições que revelam certa imaturidade política. Israel, com todas as suas contradições, representa uma experiência singular. Um povo que transforma memória em estrutura, sofrimento em organização, dispersão em Estado. Isso não o torna perfeito. Mas o torna compreensível dentro de uma lógica histórica que exige mais do que julgamentos rápidos. Talvez o desafio brasileiro seja esse. Sair da reação e entrar na compreensão.

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