Deputado Rodrigo Gambale é o líder do Podemos na CâmaraVinicius Loures/Agência Câmara
Flávio Bolsonaro precisa explicar áudio para ter sobrevida eleitoral, diz líder do Podemos
Parlamentar está no primeiro mandato na Câmara
Brasília - O líder do Podemos na Câmara dos Deputados, Rodrigo Gambale (SP), já viu a balança inclinar para a esquerda e para a direita ao analisar as tendências das eleições deste ano. Em entrevista ao Broadcast Político, o parlamentar diz que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) precisa explicar a relação com o dono do Master, o banqueiro preso Daniel Vorcaro, exposta em uma gravação de áudio revelada pelo site The Intercept Brasil, para ter "sobrevida eleitoral".
Gambale é líder da bancada que mais ganhou deputados na janela partidária. O Podemos é uma legenda simpática, diz ele.
Aos 42 anos, natural de Mogi das Cruzes (SP), está no primeiro mandato na Câmara. Em 2018, foi eleito deputado estadual pelo PSL. Antes, teve uma agência de publicidade e coordenou campanhas eleitorais.
Na entrevista, o parlamentar analisa a conjuntura política de olho na disputa de 2026. Veja os principais pontos:
Como o senhor explica a migração de deputados para o Podemos?
Foi o maior crescimento em todo o Brasil. Acredito que depois da eleição, nosso quadro de expectativa é ficar na casa dos 30, 31 a 34, 35 deputados para a legislatura seguinte. É uma legenda simpática, que não tem atribuições negativas. Nesse conceito de centro, a gente não fez nenhuma definição por lados e dá uma independência para o parlamentar. Temos gente declaradamente de esquerda e de direita. Acho que foi o maior atrativo, porque a gente não tem os maiores fundos eleitorais.
O que a rejeição, pelo Senado, do advogado-geral da União, Jorge Messias, a uma vaga do Supremo Tribunal Federal significou para a política?
Apesar de ser de confiança do presidente Lula e da ex-presidente Dilma Rousseff, ele não era uma pessoa que desagradava pessoalmente os parlamentares. Com menos de um mês, também tivemos na Câmara a eleição de um ministro, mas do TCU. O Odair Cunha é do PT e teve uma votação recordista. Por que não aconteceu na Câmara? Eu fiquei espantado quando vi a notícia [sobre Messias] e ainda não consigo afirmar quais foram as forças ou a tendência que fez com que isso acontecesse. A gente já ouviu diversas teses.
A visita de Lula ao presidente Donald Trump estancou a imagem negativa do governo?
Até março do ano passado, o governo estava em queda livre. Depois do tarifaço, a desenvoltura que o governo teve fez com que o Lula tivesse um crescimento muito forte. Então, mudou o cenário. A direita ficou desanimada. Foi uma tendência de que virou o jogo e não tinha mais volta. O que o governo federal quis aprovar, ele conseguiu aprovar. Podem dizer que não souberam comunicar bem, o efeito não foi o que pretendia, mas isso é uma consequência dos atos do próprio governo. Porque o que eles quiseram passar, eles conseguiram passar. Então, a gente viu uma tendência voltando à direita. Acredito que eles não imaginassem que o Flávio tracionaria tanto.
Mas a visita ao Trump ajudou o governo?
Tenho certeza de que ajuda, porque o Trump era colocado como inimigo do Brasil. E o que tem acontecido é que estão se construindo relações amistosas.
Por que o governo não tem conseguido converter dados econômicos em bons números nas pesquisas eleitorais?
Os dois presidentes que sofreram impeachment do Brasil, desde a Constituição de 88, sofreram pelo mesmo motivo, economia ruim. O brasileiro entende que um bom presidente é o que coloca a economia em ordem. Para um assalariado, errar na conta representa a família dele ficar um, dois, três dias passando fome. Então, você pode fazer qualquer tipo de marketing, mas para quem vive de um salário mínimo, ele quer saber o que ele está conseguindo levar para dentro de casa para matar a fome e o sustento do filho. Aquele da classe média já está preocupado com o poder de compra dele. Do que adianta você dar um desconto de perto de 400 reais mensais no Imposto de Renda, sendo que a inflação acumulada está duas, três vezes maior do que isso? O brasileiro vai sentir quando ele conseguir adquirir mais.
Mas o governo está errando?
Vivemos num período complexo. A guerra dos Estados Unidos com o Irã fez o preço do petróleo disparar. A culpa é do governo? O governo está fazendo de tudo. Acho que esse governo deve ter entregue mais propostas populares do que todos os outros governos Lula, só que o resultado não está acontecendo. Então, tem horas que você faz tudo certo, entre aspas, mas o resultado não chega, e você não consegue um efeito positivo para você estar liderando com folga as pesquisas.
Quem o senhor vai apoiar para presidente?
Eu sou muito partidário. Preciso aguardar o processo eleitoral do nosso partido.
Como o senhor avalia os últimos acontecimentos do caso Banco Master?
Essa gravação do áudio precisa ser explicada, para ele [Flávio] tentar ter uma sobrevida eleitoral. O senador Flávio garantiu por diversas vezes que ele não tinha relação com o banco. Inclusive, ele se mostrava muito descolado. Os áudios mostram uma relação próxima e íntima, de marcar jantar em casa, fazer conversas de alinhamento sobre a proposta do filme. Vejo maior sensibilidade em saber se esse recurso que foi pago chegou às produtoras, para um investimento realmente no filme, ou não.
Como o senhor avalia o impacto dos últimos acontecimentos na pré-candidatura do Flávio?
Eu acho que é um ponto que vai ser muito explorado. Não precisou de um marketing de esquerda para que isso bombasse e funcionasse bem nas redes. Teve uma procura voluntária. O assunto engajou muito. Só se fala nisso. Acredito que isso já mudou o cenário do jogo, e acredito que venham mais coisas à luz do dia. Se o Flávio não conseguir ter um argumento muito forte e começar a sair mais coisas, atrapalha muito a vitória dele. O áudio acontece um dia antes da prisão. Ele poderia já dizer que teve o contato, mas ele seguiu o caminho errado e acreditou que isso não fosse vir à tona.
O senhor conheceu o Vorcaro.
Foi uma ocasionalidade, eu tinha um voo comprado para o horário. Fui para tratar sobre um projeto de lei sobre câmeras de segurança de reconhecimento facial. Cancelei meu voo e fui numa carona com um deputado amigo. No dia que eu voei, eu não sabia que estava voando com ele [Vorcaro]. O único contato que eu tive com ele foi naquele voo. Foi bem antes do final do ano. Ao terminar o voo, o Daniel [Vorcaro] conversou comigo por dez minutos no final, antes de pousar. Eu perguntei ao sair: quem é ele? É o Daniel, do Banco Master. Eu falei, poxa, vi sobre a transação do BRB, mas ouvi dizer que tem um problema com o FGC. Ele [o amigo] falou: não estou a par sobre isso. E não toquei mais no assunto. Quando aconteceu toda a operação e, meses depois, um jornal entrou em contato comigo, eu nem me lembrava de quem estava. Fui procurar, olhei e falei, realmente ele estava no voo. Então, eu não sabia do que se tratava. Não tive nenhuma conversa de relação. Eu não tenho contato dele no meu celular, e ele não tem o meu contato no celular, porque nem tivemos contato a ponto disso. Segundo a reportagem de 1º de abril deste ano, Vorcaro viajou com três parlamentares e dois ex-ministros em um jatinho de Brasília para São Paulo, em 28 de agosto de 2025. Além de Gambale, estavam com o banqueiro o deputado Isnaldo Bulhões (MDB-AL), o senador Ciro Nogueira (PP-PI), e os ex-ministros Fábio Faria e Bruno Bianco.
Como o senhor está vendo o presidente da Câmara, Hugo Motta?
É uma pessoa com quem tenho proximidade e gosto muito. Para mim, ele tem sido mal interpretado. "Ah, o presidente não está defendendo a direita, não está defendendo a esquerda, ele não está ficando de lado nenhum". Esse é o papel do presidente, trazer isonomia entre as forças na Casa. Como ele não defende lado nenhum, acaba não conquistando nenhum dos lados. E todo mundo fica insatisfeito. Então, tenho visto uma grande força dele. O número da eleição em que ele declaradamente apoiou Odair Cunha mostra que ele teve uma grande força dentro da Câmara.
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