Lulinha é suspeito de estar envolvido no esquema de desvios de aposentadorias do INSSReprodução/ redes sociais
PF troca delegado responsável por pedir investigação sobre Lulinha
Relator do caso, André Mendonça, não foi informado da ação
A Polícia Federal promoveu uma alteração que substitui o delegado que chefiava o inquérito sobre desvios no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e foi responsável por pedir a realização de investigação contra Fábio Luís Lula da Silva, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A decisão incomodou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, relator do caso na Corte. Ele não tinha sido informado sobre a troca.
Procurada, a PF afirmou que decidiu transferir o inquérito do INSS do setor no qual ele tramitava, a divisão de repressão a crimes previdenciários, para a estrutura da Coordenação-Geral de Repressão à Corrupção, Crimes Financeiros e Lavagem de Dinheiro. Com isso, o delegado que chefiava o caso acabou sendo substituído. A PF afirma que fez a mudança para dar maior estrutura e "potencializar recursos" para a investigação.
"A transferência foi concebida para assegurar maior eficiência e continuidade às investigações, uma vez que a CINQ (a nova área) possui estrutura permanente voltada justamente à condução de operações sensíveis e complexas com tramitação perante o Supremo Tribunal Federal. Ressalta-se que não houve alteração na equipe que conduz as investigações", diz a PF, em nota à imprensa.
Até então, o caso estava sendo coordenado pelo delegado-chefe da Divisão de Repressão a Crimes Previdenciários da PF. Foi esse delegado quem pediu, por exemplo, a prisão do empresário Antônio Camilo Antunes, o Careca do INSS, suspeito de liderar o esquema de desvios de aposentadorias, e de outros alvos, como parlamentares.
Pedido de explicações
Essa mudança no caso motivou uma reunião de André Mendonça com a equipe da PF ontem. O ministro pediu explicações sobre o motivo da troca e demonstrou incômodo por não ter sido informado antes da troca.
Pessoas que estavam presentes à reunião afirmaram que o ministro alegou que o comando anterior coordenava as negociações sobre delações premiadas.
Na mesma reunião, Mendonça teria cobrado independência no trabalho dos investigadores. Teria avisado que não quer perseguições políticas nem atraso nas apurações para poupar suspeitos.
Em nota, o gabinete do ministro se limitou a informar que a reunião foi realizada para a "atualização do andamento das investigações e apresentação da nova coordenação que cuida da operação sem desconto (caso do INSS)".
A condução do caso do INSS vinha gerando críticas da defesa de Lulinha, que afirmava em declarações públicas que não havia fundamentos para que a investigação tomasse medidas contra o filho do presidente.
A PF solicitou, por exemplo, a quebra do sigilo bancário de Lulinha, que foi autorizada por André Mendonça, e produziu relatórios apontando suspeitas em movimentações financeiras de uma amiga dele, a empresária Roberta Luchsinger. As defesas deles negam o envolvimento com irregularidades.
O filho do presidente entrou na mira da investigação a partir do depoimento de um ex-funcionário do Careca do INSS, que afirmou ter ouvido falar sobre o pagamento de uma mesada do empresário a Lulinha.
A PF levantou informações e descobriu que o Careca do INSS fechou um contrato com a empresária Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha, e pagou R$ 1,5 milhão a ela.
Como revelou o Estadão, a Polícia Federal, então, enviou uma petição ao ministro André Mendonça dizendo que começou a apurar se Lulinha seria sócio oculto do Careca do INSS e relatando ter encontrado diversas menções ao filho do presidente
Posteriormente, a defesa de Lulinha admitiu ao STF que ele viajou a Portugal com despesas pagas pelo Careca do INSS, com o objetivo de prospectar um negócio de cannabis medicinal. A defesa afirmou que o negócio não foi adiante e não houve nenhum contrato ou recebimento de recursos por parte do filho do presidente.
Ofício
Antes da reunião de ontem, o senador Carlos Viana (PSD-MG) pediu esclarecimentos ao diretor-geral da PF, Andrei Passos Rodrigues. sobre a substituição do delegado responsável pelas investigações relacionadas às fraudes no INSS. No ofício, Viana, que presidiu a CPI do INSS, enviou seis perguntas para a PF responder. Ele quero saber a motivação oficial para a substituição do delegado; em qual data seria formalizada a substituição; o estágio das investigações envolvendo o caso; se houve de fato a preservação das linhas investigativas, diligências, provas já produzidas e equipes envolvidas.
O senador perguntou ainda se houve comunicação prévia a- Supremo sobre a decisão e se a alteração tem apenas caráter administrativo ordinário ou "superveniente relacionado ao andamento da investigação".
"O Brasil espera que todas as apurações avancem com independência, autonomia e absoluta imparcialidade, especialmente em casos de elevada repercussão nacional", disse Viana.
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