Formação da Aliança dos Povos e Comunidades Tradicionais Guardiões da Mata AtlânticaVinícius Carvalho/OTSS-Fiocruz
Formada por povos indígenas, caiçaras, quilombolas, caboclos, marisqueiras, povos de terreiro e pescadores artesanais de várias partes do país, a aliança foi organizada para representar e defender a Mata Atlântica, um dos biomas mais ameaçados do país. A coalizão também luta pela garantia dos direitos territoriais desses povos e comunidades.
“Somos povos e comunidades tradicionais, guardiãs e guardiões de saberes ancestrais que nos permitem cuidar de nossa mãe natureza, suas florestas, rios, lagoas e mares”, diz o manifesto de lançamento da aliança.
Em entrevista à Agência Brasil, a coordenadora da Comissão Guarani Yvyrupa e habitante da Aldeia Rio Bonito, no Sertão de Itamambuca, em Ubatuba (SP), Ivanildes Kerexu, disse que a aliança é um projeto de união dos povos e que busca também reforçar a luta por esse território.
“Precisamos fazer essa Aliança da Mata Atlântica para que a gente possa ter o direito de políticas públicas e, claro, também para a preservação ambiental”, disse a coordenadora.
“O que manteve até hoje a Mata Atlântica sempre foram as comunidades tradicionais que nela vivem e que estão ali resistindo”, reforçou.
Para os povos indígenas, contou Ivanildes, a Mata Atlântica tem um significado muito especial, por incorporar “uma espiritualidade muito forte”. “Nossa crença do povo Guarani sempre foi que essa é uma região que para gente seria uma terra sem mal. Essa é a visão que o nosso povo sempre teve.”
“Para nós é óbvio: o que para nós é o dia a dia de enfrentamento que a gente faz nem sempre é compreendido pelas estruturas legais. Por isso se fazem necessárias essas vozes todos os dias para que essa mensagem chegue em todos os lugares. E não só chegue, mas que seja compreendida”, disse durante o evento.
Segundo Guajajara, além das consequências da exploração, da mineração e do desmatamento, o Brasil enfrenta agora uma ameaça internacional relacionada à exploração de terras raras e minerais críticos.
“Se as terras raras forem exploradas da mesma forma, sem considerar direitos, sem considerar salvaguardas, sem considerar consulta livre, prévia e informada, as consequências não serão diferentes do que é a exploração do petróleo para nossos povos”, disse ela.
Por isso, destacou a ex-ministra, a criação dessa articulação nasce em momento bastante oportuno. “A gente enfrenta estruturas muito poderosas, como a econômica e a política, que não querem de forma alguma compreender o que a gente faz enquanto contribuição para a vida no planeta. Então, esse fórum de comunidades dos povos tradicionais em defesa da Mata Atlântica se fortalece num momento muito necessário, que é esse momento em que mais da metade da Mata Atlântica já se perdeu.”
Rede de proteção
Primeiro bioma a sofrer os impactos da colonização, atualmente a Mata Atlântica é ameaçada pelos grandes empreendimentos e pela especulação imobiliária. Outros fatores que também têm contribuído para a sua destruição, dizem os integrantes da aliança, é o turismo exploratório – principalmente com a construção de novos resorts, além do uso de agrotóxicos e da exploração do petróleo e de combustíveis fósseis.
Apesar disso, a floresta ainda abriga mais de 20 mil espécies de plantas e mais de 2 mil espécies de animais vertebrados, sendo que muitas delas não existem em nenhum outro lugar do mundo.
Além disso, o bioma é vital para a economia e a vida humana, sendo responsável pelo abastecimento de água de mais de 145 milhões de brasileiros, o que representa cerca de 70% da população do país.
“O tema da Mata Atlântica é recorrente em todo país. Praticamente entre todas as comunidades tradicionais do país passa-se pela necessidade de um cuidado maior com a Mata Atlântica. É por conta da Mata Atlântica que nós temos o nosso de comer e o nosso modo de viver”, disse José Wellington Fontes Nascimento, mais conhecido como Wellington Quilombola. Ele é coordenador do Movimento Quilombola de Sergipe, além de pesquisador e agora coordenador executivo da aliança.
“A Mata Atlântica vem sendo atacada. Em cada estado a gente encontra situações bem parecidas. Por exemplo, na nossa comunidade Quilombo Porto d'Areia já se tornou comum encontrarmos nas ruas animais como cobra, paca, tatu e outros que estão tendo seu habitat destruído. Por conta disso, eles procuram abrigo nas residências”, relatou.
“Então, nossa intenção é que a gente possa, com essa aliança, chamar atenção não só do governo nas três esferas, mas dos movimentos sociais e do próprio povo para necessidade da preservação da nossa mata e do nosso bioma, que é o nosso modo de ser e de viver.”
Segundo o líder quilombola, o movimento pretende não só dar visibilidade para o papel que essas comunidades desempenham no manejo sustentável e na conservação ambiental, mas também propor mudanças políticas para evitar a exploração predatória desse bioma.
“A política que nós precisamos é a política da boa vivência entre as comunidades tradicionais e os povos que também precisam dela. E não será com tanta exploração e com tanta destruição que a gente vai conseguir vencer. Então a gente precisa mudar essa política”, disse ele à Agência Brasil. “A gente quer chamar atenção [para esse problema] e queremos sentar à mesa para conversar [com as autoridades] para tentar mudar essa situação”, reforçou.
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