Tragédia com voo da Voepass provocou a morte de 62 pessoasAFP
Foram indiciados 16 funcionários e ex-funcionários da empresa, sendo 15 pelo crime de atentado contra a segurança do transporte aéreo, e 1 por falsidade ideológica.
Em depoimento à PF, um mecânico de pista chegou a afirmar que desconfiava de "propina" entre a empresa e inspetores da Anac. Segundo relato, ele estranhou após ter sua carteira suspensa mesmo após ser aprovado em um curso de reciclagem exigido. Para o mecânico, a motivação era retirá-lo da pista por "criar muito caso", já que se recusava a liberar aviões que estavam com problemas.
Em nota, a ANAC afirmou que não foi oficialmente notificada sobre quaisquer questões relacionadas a supostos atos de improbidade administrativa por parte de seus servidores. A Voepass afirmou que a ‘segurança operacional sempre foi sua prioridade’ e ressaltou que tripulações eram orientadas a cumprir procedimentos.
A PF quer que a íntegra da investigação seja compartilhada com a Procuradoria da República no Distrito Federal para apurar a eventual prática de atos de improbidade administrativa por integrantes da agência. Também determinou o envio dos autos à Corregedoria Regional da própria PF em São Paulo para análise de possível ocorrência dos crimes de prevaricação ou corrupção passiva privilegiada por funcionários da Anac.
Segundo o relatório, a investigação identificou que a agência havia encontrado, antes do acidente, "diversas não conformidades técnicas e não procedimentais relacionadas à manutenção das aeronaves" da companhia.
"A própria nota técnica da ANAC produzida após o acidente durante a Operação assistida demonstra que as não conformidades já eram conhecidas do órgão regulador. Em que pese tais constatações, a ANAC manteve a companhia aérea em funcionamento", afirma a PF no relatório final.
Para os investigadores, as deficiências na atuação da agência também foram apontadas pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), o que, segundo o relatório, "sugere a possibilidade de atuação deficiente da ANAC".
As representações ao MPF e à Corregedoria Regional da própria PF não significam que integrantes da agência tenham sido responsabilizados pelos fatos. O pedido da PF é para que seja apurada a eventual ocorrência de atos de improbidade prevaricação ou corrupção passiva privilegiada.
Durante a entrevista coletiva da Polícia Federal realizada nesta quinta-feira, o superintendente regional da Polícia Federal em São Paulo, Rodrigo Sanfurgo, explicou que a investigação focou nos fatos envolvendo o acidente e eventuais questões, como da ANAC, tiveram outros encaminhamentos.
PF analisou histórico de fiscalizações da Anac
A Polícia Federal analisou 67 processos administrativos da Anac que, segundo a PF, revelaram falhas sistêmicas na organização, principalmente no sistema de proteção contra o gelo e uma cultura organizacional de omissão de registros.
"O sistema de proteção contra gelo da frota possuía um histórico severo de irregularidades e ineficiências conhecidas tanto pela operadora quanto pelo órgão regulador", destacou a PF.
Segundo a investigação, a falha responsável por contribuir para a queda do voo 2283 não foi um evento isolado, mas sim o resultado da conduta de omissão "potencializado por uma cultura de gestão da companhia aérea que priorizava a disponibilidade da frota em detrimento da segurança operacional".
A PF destacou ainda um voo anterior feito em setembro de 2023, em que a aeronave foi despachada para uma área com previsão de formação de gelo no sul do país em condições meteorológicas semelhantes às do dia do do acidente em 9 de agosto de 2024. Após uma denúncia, a ANAC designou uma série de inspeções de vigilância de acompanhamento de voo.
O inspetor da ANAC constatou que a aeronave não poderia voar em formação de gelo, mas que o despacho operacional de voo não observou a condição meteorológica. "evento presenciado demonstra que era frequente a exposição da aeronave a perigo sem qualquer intervenção do CCO", afirmou a PF.
Um dos comandantes da empresa relatou à Polícia Federal que, 11 meses antes do acidente, já existiam registros da ANAC apontando problemas com os "boots" do sistema de proteção contra gelo da aeronave.
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