Não é novidade que as plataformas de apostas on-line usam a imagem de influenciadores digitais para incentivar o público a apostar. Basta abrir as redes sociais para encontrar vídeos e publicações divulgando bets. A vida que eles propagam, no entanto, não é resultado do dinheiro que ganham apostando. Em alguns modelos de parceria relatados por influenciadores ao iG, a remuneração está vinculada ao volume de apostas ou às perdas dos próprios seguidores.
Infográfico mostra como funciona a divulgação de bets por influenciadoresIA
Nas propostas recebidas por alguns criadores de conteúdo, as casas de apostas oferecem uma porcentagem sobre o dinheiro perdido pelos usuários. Dessa forma, quanto mais seguidores apostarem e perderem, maior pode ser a remuneração do influenciador.
“Eu já recebi várias propostas de valores diferentes. A última me ofereceu R$ 5 mil pra fazer a divulgação e ganhava mais 30% em cima do valor que as pessoas perdessem”, disse a empresária e influenciadora de lifestyle Rosa Santana, que tem 72 mil seguidores no Instagram.
De acordo com o professor de Marketing do Centro Universitário Arnaldo Janssen, de Belo Horizonte, Rogério Tobias, essa prática é chamada de revenue share (compartilhamento de receita), modelo em que o influenciador pode receber uma porcentagem do volume gerado ou das perdas dos usuários que captou.
Esse sistema se tornou uma estratégia para as casas de apostas por ser mais mensurável do que os meios de comunicação tradicionais, como televisão e rádio. Por meio de um link individualizado, por exemplo, a plataforma consegue identificar quantos usuários chegaram ao site a partir da divulgação feita pelo influenciador.
“Quanto mais o ganho do influenciador depende do comportamento financeiro de quem aposta, maior é a tensão entre o seu interesse comercial e o bem-estar do seu público”, explica.
Link armado?
O influenciador Jonathan Cericola, conhecido como palhaço Pão de Ló, relata ter recebido proposta para divulgar uma aposta por meio de um "link armado"Instagram/@eupaodelo
O circense e influenciador Jonathan Cericola, conhecido como palhaço Pão de Ló, que acumula 442 mil seguidores no Instagram, também recusou propostas. Em uma das ofertas recebidas, segundo ele, a plataforma teria informado que ele deveria divulgar um vídeo em que apareceria apostando por meio de um “link armado”, preparado para que ele ganhasse.
“Eles me mandam o link do jogo e eu tenho que gravar a tela, fazer a imagem capturando a tela e nesse link, é um link que eu já ganharia. É um link que é feito para eu ganhar. Aí eu postaria nos meus stories eu ganhando e a pessoa depois ia jogar”, afirmou.
Para Jonathan, a decisão de recusar as propostas também está relacionada à história de sua família e à relação que construiu com o público por meio do humor.
“Quando se nasce no circo, a gente aprende a ser palhaço. Não é só ser artista, é quase uma missão pra gente. Meu trisavô era palhaço. Meu bisavô foi palhaço, minha mãe foi palhaça. São sete gerações na minha família. Eu não ficaria bem sabendo que eu to fazendo uma pessoa rir de noite e no dia seguinte, essa mesma pessoa que me segue e dá risada, está perdendo o dinheiro dela, que poderia servir para comida, roupa. Eu não ficaria bem comigo mesmo”, disse.
Para Tobias, a utilização de influenciadores também permite que a publicidade seja incorporada ao próprio conteúdo produzido para as redes sociais. Em vez de aparecer apenas como um anúncio tradicional, a aposta pode ser apresentada durante comentários sobre futebol, previsões de resultados ou relatos da experiência do próprio criador.
“O influenciador atua transformando a aposta em uma experiência social: ele comenta o jogo, faz previsões, acompanha os resultados e compartilha a sua vivência com a audiência. Dessa forma, a aposta deixa de ser percebida como uma oferta comercial fria e passa a integrar a própria conversa com os seguidores.”
Segundo o professor, essa proximidade aumenta o poder de influência sobre as decisões do público, já que o criador de conteúdo não apenas apresenta um produto, mas associa a mensagem à relação de confiança construída com seus seguidores.
“Quanto maior a confiança construída entre o criador e seu público, maior é a sua capacidade de influenciar decisões de consumo. Por isso, no mercado de apostas, a fronteira entre entretenimento, recomendação pessoal e publicidade paga precisa estar rigorosamente clara para o consumidor.”
O lucro por trás da divulgação
O modelo de remuneração relatado pelos influenciadores levanta uma questão sobre o incentivo financeiro por trás da divulgação. Enquanto o influenciador pode ser remunerado pela publicidade e, em alguns casos, pelo volume de perdas dos usuários, as famílias que apostam podem enfrentar prejuízos financeiros.
Em 2025, as apostas online provocaram uma saída líquida de R$ 62,5 bilhões do orçamento das famílias brasileiras, segundo a terceira edição do Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros.
O estudo foi produzido pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz) em parceria com o Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento (Cicef), com base em dados do Banco Central, das Estatísticas de Pagamentos por Atividade Econômica (Epae) e em análises próprias.
Proposta milionária
A chef e criadora de conteúdo Carmem Virgínia afirma ter recusado uma proposta de R$ 5 milhões para divulgar apostas on-line. Instagram/@carmemvirginia
Na contramão da maioria, há influenciadores que afirmam recusar propostas para divulgar bets independentemente do valor oferecido.
Em janeiro deste ano, a chefe de cozinha e criadora de conteúdo Carmem Virgínia, que acumula 305 mil seguidores no Instagram, relatou ter recebido uma proposta de R$ 5 milhões para divulgar apostas on-line.
De acordo com ela, a proposta incluía a publicação semanal de stories com links que direcionariam os seguidores para as apostas. O pagamento de R$ 3 milhões seria feito ao longo de seis meses, além de uma bonificação de R$ 2 milhões. Caso os seguidores perdessem dinheiro, ela ainda teria direito a uma comissão.
“A minha vida, ela é voltada toda para as causas sociais, a minha vida é voltada para dentro dos meus negócios, é voltada para minha religiosidade, porque eu acredito que uma forma de eu ser uma mulher para além de ter religião é ser religiosa. E se eu sou uma mulher religiosa eu não posso ser feliz se eu fui feliz em cima da infelicidade alheia. Então esse é o principal motivo de eu não ter aceitado”, disse.
A comunicadora e influenciadora Veronica Oliveira recebeu uma proposta de R$ 500 mil para publicar stories semanais para uma casa de apostas. Instagram/@guifrodu
A comunicadora, palestrante e influenciadora Veronica Oliveira, dona do perfil @faxinaboa, com 287 mil seguidores, também recebeu uma proposta que, segundo ela, poderia mudar sua vida financeira.
“Já veio para mim uma proposta de uma bet legalizada com proposta estruturada, com escopo, com cachê, com tudo. E aí era meio ano fazendo stories, era só stories, nada vai no feed, porque no stories ele já tem o link para poder a pessoa clicar e já ir para o jogo. Então, era meio ano fazendo stories, se não me engano, semanais. E aí o cachê era R$ 500 mil”, afirmou.
Com o dinheiro, Veronica poderia quitar o financiamento de 30 anos da casa, consertar o telhado, que apresenta problemas estruturais e faz com que a água entre no imóvel durante as chuvas, e melhorar a qualidade de vida da família.
Por vezes, os próprios seguidores, sabendo das dificuldades financeiras enfrentadas por ela, incentivam a comunicadora a divulgar bets.
“É um momento que o meu público fala: ‘Faz uma publicidade de bet porque você precisa reformar a sua casa’. Eles falam ‘Olha aqui, a fulana’. E a fulana morava numa casinha, aí começou a fazer ‘joguinho’ e aí mostra nos stories. E aí a pessoa tá lá com uma casa grande, com móveis planejados, com o carro na garagem. É óbvio que vai ferrar minha cabeça porque aí eu vou dormir e pensar ‘Por que eu estou colocando um balde no quarto do meu filho? Tendo que acordar de madrugada para ver se o balde está cheio ou se ele tem que esvaziar’”, contou.
Mesmo sabendo que o dinheiro poderia fazer diferença em sua vida, Veronica afirma que também considera o impacto que a divulgação de apostas poderia ter sobre seus seguidores.
“O meu alcance é médio, mas são mulheres que trabalham, que ganham pouco, que têm muita, muita conta para pagar, não dá para ficar falando desse tipo de coisa para elas. Porque elas vão tentar e achar que é uma oportunidade, que é uma saída”, afirmou.
Outro ponto levantado pela influenciadora é o impacto que a publicidade de bets pode ter na carreira de criadores de conteúdo menores. Segundo ela, profissionais com menor alcance podem enfrentar dificuldades para fechar contratos com outras marcas depois de divulgar jogos, enquanto artistas e personalidades de grande projeção continuariam tendo acesso às campanhas de grandes empresas.
“O que eu acho interessante é isso, porque ele mexe com o criador pequeno, mas no final das contas, quem faz e não é afetado, são os grandes. Então, acaba sendo injusto de todas as formas possíveis. Porque um criador pequeno, quando trabalha com divulgação de jogos ilegais ou legais, ele fica queimado com as boas marcas e aí ele não vai trabalhar com mais ninguém. E aí quando é um artista de TV, uma pessoa do esporte, isso não acontece com ela. Ela continua trabalhando com grandes marcas e com credibilidade perante o público. Então, fica uma coisa muito cruel para quem é pequeno, para quem depende disso para sobreviver”, afirmou.
Apostas ilegais
Print enviado ao iG por Luiz Felipe, dono do perfil @rio_destaque, mostra uma abordagem feita por uma plataforma de apostas por meio do InstagramReprodução/Arquivo pessoal
Além das propostas de casas de apostas legalizadas, influenciadores também relatam abordagens de plataformas que, segundo eles, atuam de forma ilegal.
É o caso de Luiz Felipe, que produz conteúdo sobre turismo no Rio de Janeiro e reúne 615 mil seguidores no Instagram. Segundo ele, a maior parte das propostas que recebe parte diretamente das próprias plataformas.
O contato, de acordo com o influenciador, começa pelo Instagram. Os responsáveis perguntam se ele tem interesse em uma parceria e, em seguida, pedem seu número de WhatsApp para continuar a conversa e apresentar as condições da proposta.
Segundo Luiz Felipe, o acordo previa a divulgação dos jogos aos seguidores por meio de um link. A remuneração seria feita por meio de uma comissão pelas pessoas que acessassem a plataforma a partir da divulgação.
O influenciador afirma que decidiu não aceitar as propostas por entender que a publicidade poderia estimular pessoas em situação de vulnerabilidade financeira a apostar.
“Eu sempre falo para as pessoas que a gente não pode usar do sofrimento, do momento de desespero das pessoas para chegar a esse ponto de oferecer jogos. […] E muitas pessoas acabam jogando, apostando e acabam se endividando, perdendo vidas, perdendo casas e assim sucessivamente”, afirmou.
A dinâmica das redes sociais também pode favorecer a exposição dos resultados positivos das apostas, segundo Tobias. Para o professor, histórias de ganhos tendem a ser mais compartilhadas e atrativas do que relatos de perdas, o que pode interferir na percepção do público sobre os riscos envolvidos.
“Quando uma atividade de risco é apresentada como caminho para melhorar de vida, a propaganda contribui para uma percepção distorcida sobre o que está sendo oferecido. Por isso, acredito que a comunicação das bets precisa ser responsável, principalmente naquilo que promete.”
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