Fernando Mansur - colunistaSABRINA NICOLAZZI
Passeando com meu cachorro, da calçada vejo uma gaiola pendurada numa casa de molduras. Dentro da gaiola, um passarinho que lembrou minha infância.
Eu e meus amigos costumávamos “caçar” passarinhos em um campinho próximo de nossa casa. No alto do campinho, jogávamos futebol diariamente. Havia pés de pitanga e um coqueiro enorme, cujos frutos saboreávamos avidamente, E brincávamos de mocinho e bandido. No meio do bambuzal, abríamos um clarão que servia de caverna e esconderijo.
Nossa imaginação corria solta pelas páginas dos gibis, que a gente colecionava e trocava depois de lidos. Às vezes um valentão me obrigava a dar alguns de minha coleção para ele, ameaçando-me para que eu não contasse nada para meus pais. E eu não contava. E essa raiva eu reprimia. Virou uma sombra dentro de mim.
Aquilo que reprimimos durante a vida, serão como pássaros interditados, esquecidos em um canto da memória, asas impedidas de voar, esperando reconhecimento?
Mas voltando ao passarinho preso na gaiola, a cena me fez refletir sobre o significado de um pássaro (ou qualquer animal) preso, impedido de viver em liberdade. O que significa para ele essa clausura obrigatória?
Dizem que o pássaro criado em cativeiro se acostuma à situação, e é até perigoso soltá-lo, pois pode não sobreviver. Podemos fazer uma analogia conosco?
O corpo humano é uma espécie de proteção e prisão para a alma livre, que também quer voar pelos sem-limites do espaço espiritual. De certo modo, vivemos aprisionados em uma gaiola de carne e ossos. À noite, quando o carcereiro dorme, a Alma se liberta e vai revisitar sua origem, o lugar de onde veio e para onde voltará.
“Viver é perigoso”, mas não há outro modo de evoluir... e de aprender a escapar do cativeiro. Os pássaros não têm escolha. Nós temos. Voemos. Podemos. Vamos!

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