Muitas vezes, a gente sorri quando sabe que algo de bom vai renascer, como um dente definitivo ou os pés mais fortes aindaArte: Paulo Márcio

Recentemente, um post de uma jornalista no Instagram capturou a minha atenção. Com o Pão de Açúcar ao fundo, ela sorria amparada em duas muletas e com o pé direito ligeiramente para o alto. Na legenda, ela comemorava o fato de ter retirado do joelho dois pinos que a incomodaram muito nos últimos três anos. Os tais objetos foram necessários para sustentá-la após uma queda de bicicleta. Havia uma foto deles na postagem. Comentei que eram realmente grandes e imaginei que não deviam ser nada confortáveis. Em resposta ao meu comentário, ela contou que faria uma arte qualquer com eles e logo uma amiga sugeriu um par de brincos! Achei criativo e genial!
Fiquei com aquele diálogo virtual na cabeça e imaginei como é bom quando transformamos ritos de passagem em arte — no caso dela, a dor na cura. Pensei também na época em que guardávamos nossos dentinhos de leite após serem arrancados e, curiosamente, vi um post de um pai orgulhoso pelo filho justamente por isso. O menino voltou da escola para casa com uma janelinha no sorriso e um certificado de entrega dado pelo colégio. Nele, havia espaço em um pequeno plástico para o dentinho de leite, que caiu justamente no horário escolar. Muitas vezes, a gente sorri quando sabe que algo de bom vai renascer, como um dente definitivo ou os pés mais fortes ainda.
Também recordei a época em que usei gesso no braço, quando sofri uma fratura pelas minhas peraltices antes das aulas de balé. Lembro que, naquela época, costumávamos rabiscar o gesso — não sei se ainda fazem isso hoje. Era uma curtição. Nas palavras escritas com canetinha, também havia a alegria da esperada passagem para a consolidação da fratura. Acredito que, vira e mexe, a gente faz isso: celebra o novo com arte. Ou usa a arte para ajudar a transportar nossas dores.
Foi o que senti quando ouvi o ator Matheus Nachtergaele no programa 'Lady Night', apresentado por Tata Werneck. Ele falava sobre sua mãe, a poeta Maria Cecilia, que morreu quando ele tinha apenas 3 meses. Para lidar com a perda, ele interpreta poemas dela no monólogo 'Processo de Conscerto do Desejo' (escrito assim mesmo, com S e C, uma mistura das palavras conserto e concerto). "Faço um pequeno milagrezinho, ela não fica morta. Cada noite ela vive um pouquinho", disse. Eu me senti próxima a ele porque, através da escrita, tento fazer a mesma mágica com a minha mãe, que nos deixou em 2019. O espetáculo, aliás, também tem música, outra bela forma de transmitir sentimentos. "Quero consertar meu desejo com poesia, num concerto", já disse Nachtergaele.
Acredito que é possível revisitar nossas dores através da arte e fazer arte com o que sobrou delas sem romantizar o sofrimento. Reconheço que nem toda dor poderá ser lembrada com um sorriso. Mas acredito que nem toda arte nos faça rir. Há também as que nos causem tristeza. Talvez o desafio seja entender o que é possível fazer em cada momento: celebrar os pinos retirados, guardar os dentinhos da infância e reverenciar através da palavra alguém muito querido que já partiu. Afinal, a arte é uma forma de expressão e traduzir nela dores e transformações é um exercício e tanto.