A Ana lá de trás, com ombros retraídos, jamais iria passar por essa situação. Sentir-se observada é um momento de nervosismo. Mas, naquele dia, sentada frente a frente com alguém que admiro, eu já havia deixado de me curvar na vidaArte: Paulo Márcio

Logo que descobri a tendência do momento nas redes sociais, gostei da ideia! "Primeiro você começa, depois você melhora": é a proposta da modinha que tomou conta do Instagram antes mesmo do Carnaval e que fez sentido para mim. Nela, anônimos e famosos juntam fotos que comprovam essa tese. Aliás, o que não faz sentido é acreditar que nascemos prontos para algo. Não é à toa que dizem que a mãe dá à luz o filho. É como se os bebês tivessem recebido a claridade do mundo a partir do parto. Até então, desconhecíamos tudo que estava aqui fora e, assim, vamos aprendendo no dia a dia o que é a vida, com seus desafios e delícias. Engatinhar, andar, ler e escrever: desde pequenos, precisamos nos exercitar para praticar. A gente repete para melhorar.
Ouso dizer que isso funciona para quase tudo na vida. Para citar um dos meus assuntos favoritos do momento, posso dizer que o exercício físico é exatamente o que o nome já diz: é preciso praticar para se aperfeiçoar. Que o diga o meu professor Wallace, que vem encontrando meios para que eu consiga executar movimentos que parecem simples, mas que tenho dificuldades para fazer. É assim com alguns tipos de agachamento. Dessa maneira, até me permito trocar a palavra ginástica, tão 'vintage' como dizem por aí, por treino. A cada ida à academia, tento fazer com que o meu corpo entenda a atividade a ser executada. Se estivesse sozinha, já teria desistido. Não é à toa que acho lindo o dom de ensinar. Além do talento, é preciso ter didática — para isso os professores se especializam. Inclusive, um verdadeiro mestre entende que, primeiro a gente começa, depois a gente melhora.
É assim também para vários outros setores da vida. Guardo poucas fotografias do meu começo no jornalismo. Em uma delas, apareço na redação do jornal com os braços cruzados e os ombros retraídos. Não é à toa que o Wallace também tenta corrigir a postura dos meus ombros — já melhorei muito, mas ainda há resquícios dos tempos em que queria me fechar no meu próprio corpo, como se fosse um casulo. Aquela imagem antiga define bem quem eu era: retraída. Era tímida em excesso, mas felizmente tinha a coragem e o ímpeto da juventude. Fiquei pensando qual clique da minha carreira poderia se contrapor a esse no sentido de mostrar que eu havia evoluído ao longo dos anos. E cheguei à conclusão de que a entrevista com o poeta Fabrício Carpinejar, em 2022, na sala de obras raras do CCBB-RJ, no Centro do Rio, mostra bem como eu melhorei.
Ali, eu estava diante do meu poeta preferido da atualidade. Foi ele quem me fez chorar de felicidade durante a pandemia quando lhe escrevi uma carta aberta no Instagram e ele me respondeu de forma bela, simples e afetuosa, legitimando o meu trabalho. De alguma forma, sempre soube que o conheceria pessoalmente, mas jamais iria imaginar entrevistá-lo. Na preparação para esse trabalho, pensei muito e cheguei à conclusão de que o fato de admirar sua obra era um trunfo. Perguntei sobre questões que tocam o meu coração, guiada pela sensibilidade que já foi uma fraqueza e hoje é a minha potência. O que não esperava era fazer a entrevista ali, naquela sala tão especial, com outras pessoas, além do fotógrafo, ouvindo atentamente o que eu perguntava e o que ele respondia. A Ana lá de trás, com ombros retraídos, jamais iria passar por essa situação. Sentir-se observada é um momento de nervosismo. Mas, naquele dia, sentada frente a frente com alguém que admiro, eu já havia deixado de me curvar na vida.
Para isso, no entanto, foi preciso começar muitas vezes antes dali. Eu iniciei no jornal como estagiária, nas perguntas a tantos outros entrevistados, no medo de não conseguir e na terapia que me faz entender quem sou neste mundo... De fato, não nascemos prontos! É preciso dar início, praticar, treinar e exercitar. É preciso entender que vai dar errado alguma vez até que dê certo em outra. Se eu me intimidasse diante dos alunos da academia que fazem o exercício perfeitamente, eu não precisaria de um professor. É justamente por desconhecer que quero que alguém me oriente. Muitas vezes, no entanto, as coordenadas estão dentro da gente. São intuitivas. Foi assim também que me tornei cronista: seguindo o meu coração até me aprimorar mais e mais. Então, eu "só" desejo que a gente nunca deixe de (re)começar.