Por falar nas escolhas da vida, a peça propõe justamente um dos meus maiores desafios: pensar no presente. Afinal, é praticamente automático o exercício de projetar o futuro, como se eu pudesse ter algum domínio sobre eleArte: Kiko
O riso resiste
Essa metáfora da ‘rasteira’ do futuro voltou comigo para casa. E foi além: ela seguiu nos meus pensamentos, me acompanhou na sessão de terapia e, agora, nesta escrita.
Arotunda do CCBB-RJ, na Rua Primeiro de Março, no Centro do Rio, atraiu mais uma vez o meu olhar. Desta vez, do céu pendiam neons de LED, letreiros digitais, infláveis, banners e faixas manuscritas em que era possível ler uma infinidade de sonhos, com o nome de seus autores. Trata-se da obra ‘Sonhos de Refrigerador — Aleluia Século 2000’, de Randolpho Lamonier. Estava ali exposto o desejo de Luli, de 34 anos: “Viver de arte”. Que se assemelhava a uma parte dos anseios de Dayane, de 35: “Sonho com um espaço cultural para viver e fazer arte”. Ainda deu tempo de ficar ali um pouquinho, olhando para o alto e garantindo alguns cliques, depois de ter realizado a minha vontade daquele fim de tarde de domingo: dividir uma deliciosa torta de chocolate com o meu namorado, acompanhada de café expresso. Tudo isso antes de conferir a peça ‘Matilde’, em cartaz ali mesmo no teatro do primeiro piso daquele prédio histórico.
Aliás, quando nos demos conta, a sala já estava liberada para o público entrar. Encontramos os nossos lugares e, pouco antes de os atores Malu Valle e Ivan Mendes entrarem em cena, uma mensagem no telão desejou a todos um ótimo espetáculo e ainda reproduziu uma frase marcante do humorista Paulo Gustavo: “Rir é um ato de resistência”. A peça, que ganhou texto de Julia Spadaccini e direção de Gilberto Gawronski, foi idealizada pelo saudoso comediante, que nos deixou em maio de 2021, aos 42 anos, vítima de covid-19. É dedicada a ele e faz jus ao que ele queria. Ao contar a história de uma mulher de 60 anos que aluga um quarto em sua casa para Jonas, um ator de 36 anos, o espetáculo arranca sorrisos e nos premia com momentos de leveza, como direito a músicas como ‘Amor e Sexo’, sucesso na voz de Rita Lee: “Sexo é escolha, amor é sorte”.
Por falar nas escolhas da vida, a peça propõe justamente um dos meus maiores desafios: pensar no presente. Afinal, é praticamente automático o exercício de projetar o futuro, como se eu pudesse ter algum domínio sobre ele. Assim, eu me identifiquei muito quando a personagem de Malu disse que, se ela pensasse somente no agora, o depois poderia chegar e lhe dar uma rasteira. Mas, se pensasse também no depois, seria como se ela estivesse pronta para alguma surpresa negativa. Eu também tenho a necessidade de sentir que não fui trapaceada pelo inesperado. Mas sei que é cruel demais tentar antecipar sofrimentos que podem nem acontecer.
Essa metáfora da ‘rasteira’ do futuro voltou comigo para casa. E foi além: ela seguiu nos meus pensamentos, me acompanhou na sessão de terapia e, agora, nesta escrita. Assim, a peça foi leve e também reflexiva — para mim, a arte é essa mágica que nos acompanha além do local em que acontece, seja uma exposição, um show, uma peça...
Aliás, confesso que não acompanhava o trabalho de Ivan Mendes e fiquei impressionada pelo tempo de comédia que ele mostrou em cena ao contracenar com Malu. Imagino que deva ser muito difícil provocar o riso no outro, ainda mais em tempos tão áridos. Justamente por isso, Paulo Gustavo dizia que rir é resistir. Ou seja, reagir à dureza da vida. Viver de arte, como diziam os sonhos expostos na rotunda do CCBB-RJ, também é uma forma de não se entregar. Nem sempre é possível fazer isso financeiramente, mas talvez possamos deixar que a arte seja parte da nossa existência.
Com tudo isso em mente, fui para casa. Já havia anoitecido quando deixamos o CCBB-RJ. Na saída, percebi que Juliana Amaral, irmã de Paulo Gustavo, estava ali. A minha vontade era falar com ela e dizer: “Seu irmão é incrível”. Assim mesmo, usando o verbo no presente porque de fato ele se mantém vivo através da peça e de tanta gente que se lembra dele. Inclusive, sei que ela já sabe que o irmão é incrível, mas eu queria reforçar. Na verdade, a minha esperança é que ela possa transmitir a mensagem para ele, seja em pensamentos ou orações. Afinal, sonhar também é um ato de resistência.

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