No coração do Centro, a Praça da Cruz Vermelha revela os desafios sociais e urbanos que a região precisa superarGenilson Araújo
O encontro, realizado na histórica sede da ACRJ, na Rua da Candelária, foi idealizado por Josier Vilar, presidente da Associação Comercial, e coordenado por Carlos Roberto Osório e Cláudio André de Castro, respectivamente presidente e vice-presidente do Conselho Empresarial de Ordem Pública e Centro da Cidade, com apoio do consultor Rodrigo Teixeira, que atuou como mediador.
A agenda deu sequência aos trabalhos do Conselho, que já havia se reunido com concessionárias de serviços públicos para tratar de questões como os elevados valores cobrados de IPTU e as tarifas mínimas de água e esgoto, que vêm sufocando comerciantes e levando muitos à falência.
De acordo com o presidente da ACRJ, o encontro foi o ponto de partida para uma agenda contínua e propositiva, com o objetivo de unir esforços, fortalecer a atuação institucional e valorizar o Centro como patrimônio histórico e polo estratégico para a cidade. Grandes investimentos já estão em andamento, como os da Fecomércio e do Sistema S, e empreendimentos do setor imobiliário começam a voltar os olhos para a região.
Segundo o Censo de 2010, cerca de 40 mil pessoas vivem no Centro, entre prédios residenciais, ocupações e cortiços. Com os projetos urbanísticos como o Reviver Centro e o Porto Maravilha, mais de 19 mil unidades residenciais já foram licenciadas, reforçando que a vida no coração da cidade não se limita a escritórios, comércio e turismo: há famílias, trabalhadores, jovens e idosos que chamam o Centro de casa.
Pensar no futuro da região, portanto, significa equilibrar o estímulo econômico e a atração de investimentos com políticas públicas que garantam qualidade de vida, habitação digna e segurança aos moradores.
Outro tema que precisa ser tratado com seriedade é a questão social. O Centro concentra o maior número de pessoas em situação de rua do município. Segundo levantamento oficial, mais de 1.400 pessoas vivem ou circulam diariamente na área central, número que salta aos olhos de qualquer visitante.
É claro que todos entendemos e somos sensíveis à causa social. Há histórias de vulnerabilidade que merecem atenção. Porém, é igualmente verdade que muitos desses moradores de rua possuem antecedentes criminais e acabam trazendo insegurança para quem vive e trabalha na região.
Além disso, há um impacto direto no cotidiano urbano: esses moradores reviram as caçambas, rasgam sacos de lixo e espalham detritos pelas ruas. O resultado é um cenário de sujeira e desordem permanente. O lixo amontoado, somado ao cheiro insuportável de urina e à presença de barracas improvisadas, transforma o que deveria ser o coração pulsante da cidade em um espaço degradado e hostil.
A Praça da Cruz Vermelha é um retrato fiel dessa realidade. A quantidade de pessoas em situação de rua é tamanha que o espaço se tornou extremamente fedorento, afastando famílias e trabalhadores que ali circulam diariamente.
A Lapa, outro ícone do Rio de Janeiro, sofre do mesmo mal. Mesmo com a presença de programas de segurança, o número de pessoas em situação de rua impressiona e a sensação de medo persiste. O cheiro forte de urina embaixo dos Arcos, aliado à desordem urbana, desvaloriza um dos principais cartões-postais da cidade, ponto de encontro da boemia carioca e de turistas do mundo inteiro.
Não bastasse tudo isso, o Centro enfrenta buracos nas ruas, calçadas em mau estado e depredação constante de monumentos e equipamentos urbanos. O furto de cabos e fios para abastecer ferros-velhos clandestinos e os conflitos causados pela camelotagem ilegal completam o quadro de desordem.
Projetos como o Proapac Patrimônio, que prevê a recuperação de imóveis históricos abandonados, e iniciativas como o Reviver Cultural, que já estimularam a abertura de dezenas de pequenos negócios na região, mostram que há potencial. Porém, sem enfrentar de forma clara e firme os problemas habitacionais, sociais e urbanos, qualquer esforço corre o risco de ser insuficiente.
Todas essas discussões vão embasar o “Manifesto pelo Futuro do Centro do Rio”, documento que reafirmará o papel estratégico da região como polo de negócios, cultura, habitação e inovação. A partir dele, será estruturada uma agenda permanente de diálogo com o poder público, orientando planos de ação, projetos e negociações posteriores.
O futuro do Centro só será sólido e sustentável quando o comercial caminhar lado a lado com o habitacional e o social. Esse é o desafio que se impõe às grandes instituições que agora se unem em torno da Associação Comercial.

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