Arte Coluna Bispo Abner 31 Agosto 2025Arte Paulo Márcio

Vivemos em um tempo marcado pela busca incessante de reconhecimento. O mundo digital nos acostumou a medir nosso valor em números: curtidas, seguidores, compartilhamentos, visualizações. Somos tentados, a cada instante, a olhar para o outro não como próximo, mas como rival. A lógica é simples e cruel: se o outro cresce, eu diminuo; se o outro conquista, eu perco; se o outro aparece, eu desapareço.
Esse modo de pensar não é novo — ele apenas se intensificou com os recursos tecnológicos. O coração humano sempre foi inclinado à inveja e à vanglória. Desde Caim e Abel, a história da humanidade registra a tragédia de pessoas que, incapazes de alegrar-se com o bem do próximo, escolheram o caminho da comparação destrutiva.
O teólogo croata Miroslav Volf, professor da Universidade de Yale, chama esse fenômeno de “o vício da superioridade”. Ele nos convida a refletir sobre como esse vício corrói nossa identidade, destrói relacionamentos e alimenta desigualdades. Mas, ao mesmo tempo, nos aponta um caminho ousadamente diferente: o da humildade, da gratidão e do reconhecimento da dignidade do outro.
A diferença entre excelência e superioridade
É importante reconhecer que existe algo legítimo no desejo humano de melhorar. Deus nos criou com dons e talentos, e a Palavra nos encoraja a “correr a carreira que nos está proposta” (Hebreus 12:1). Esse anseio pode ser saudável quando nos leva a buscar excelência, ou seja, dar o melhor de nós mesmos para glorificar a Deus e servir ao próximo.
Contudo, a busca pela superioridade é diferente. Ela não nasce do desejo de crescimento, mas da obsessão por se colocar acima do outro. É o desejo de vencer não por amor à verdade, mas por orgulho e vaidade. Enquanto a excelência é movida pela fidelidade, a superioridade é movida pela competição.
•Excelência cristã é Paulo dizendo: “esforço-me para alcançar o prêmio da soberana vocação” (Filipenses 3:14).
•Superioridade mundana é o fariseu orando no templo: “Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens” (Lucas 18:11).
A excelência honra a Deus; a superioridade apenas satisfaz o ego.
O vício da superioridade na vida contemporânea
Esse vício se manifesta em várias áreas da vida:
•Na família, quando irmãos competem não por crescimento mútuo, mas por atenção e destaque.
•Na sociedade, quando a lógica das aparências cria uma corrida interminável por status, consumo e prestígio.
•Na igreja, quando ministérios e líderes medem sua relevância não pela fidelidade a Cristo, mas pelo tamanho de suas plataformas ou número de seguidores.
O resultado é devastador: comunidades fragmentadas, relacionamentos frágeis, corações vazios.
Os antídotos do evangelho
Miroslav Volf propõe três antídotos que se encontram no próprio coração do evangelho:
Humildade
A humildade não é pensar menos de si mesmo, mas pensar menos em si mesmo. É reconhecer que tudo vem de Deus e que não somos devedores de nada além da graça. Cristo, sendo Deus, “esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo” (Filipenses 2:7).
Gratidão
A gratidão é a vacina contra a inveja. Ela nos ensina a celebrar o que recebemos em vez de lamentar o que não temos. Paulo nos orienta: “Em tudo dai graças, porque esta é a vontade de Deus” (1 Tessalonicenses 5:18).
Reconhecimento da dignidade do próximo
Cada pessoa carrega a imagem de Deus (Gênesis 1:27). Isso significa que o valor do outro não depende de sua posição social, de seu desempenho ou de seus números digitais, mas da marca do Criador em sua existência.
Aplicações práticas
1.Na vida pessoal: buscar excelência no trabalho, nos estudos, no ministério — não para humilhar, mas para servir.
2.Na família: substituir a competição pela celebração das conquistas mútuas.
3.Na igreja: cultivar uma cultura de cooperação, em que cada dom e ministério é valorizado como parte indispensável do Corpo de Cristo.
4.Na sociedade: resistir à lógica da ostentação e da comparação, escolhendo viver pela lógica do Reino — onde o maior é aquele que serve.
A libertação da vanglória
O vício da superioridade é uma prisão invisível. Ele nos mantém constantemente tensos, inseguros e insatisfeitos, pois sempre haverá alguém mais rico, mais bonito, mais talentoso ou mais influente do que nós.
A boa notícia do evangelho é que não precisamos viver presos a essa lógica. Em Cristo, somos chamados não à comparação, mas à comunhão; não à vanglória, mas à humildade; não à competição, mas ao serviço.
Assim, ao renunciar à busca pela superioridade e abraçar a excelência cristã, experimentamos verdadeira liberdade: a de viver como filhos amados de Deus, satisfeitos em sua graça e comprometidos em amar o próximo como a nós mesmos.
O desafio que deixo a você é simples, mas profundo: o que tem motivado sua vida?
Você está buscando ser melhor para Deus, ou apenas “melhor do que os outros”?