Kakay30abronlineARTE KIKO
“Depois do medo, vem o mundo.”
Clarice Lispector
Clarice Lispector
Quando tinha 13 anos, eu morava no interior de Minas e a vida passava, quase modorrentamente, entre banhos nos córregos, eternas caminhadas a cavalo em pelo, leituras de poesias e rodas em que se declamava e brincávamos de “repente”. Alguém fazia uma provocação com um verso e o outro respondia, de bate-pronto, também em verso. Ficávamos horas recitando prosas e versos inventados. À noite, era possível deitar na relva e contar estrelas no escuro da fazenda sem energia elétrica. O cheiro do querosene das lamparinas, ainda hoje, faz-me suspirar nas noites mais atribuladas, quando o tempo insiste em me lembrar de que eu não sou dono; sequer tenho controle algum sobre ele. O tempo, esse eterno provocador.
Naquela época, convivia com um primo mais velho que era a alegria de todos. Inteligente, ousado, atrevido e insubordinado. Eu o admirava muito. Era uma força da natureza. Em Patos de Minas, não existia motel e havia poucos hotéis. Conseguir um lugar para namorar era um exercício de imaginação. Esse meu primo tinha um Dodge Dart, um carro lindo, verde-claro com capota preta. Ele simplesmente me ensinou a dirigir aos 13 anos, para eu sair guiando pela rodovia enquanto ele transava com a namorada linda no banco de trás do carro. E ele dizia que eu podia olhar, de vez em quando, pelo retrovisor. E que devia deixar o vidro meio aberto para espalhar a fumaça de maconha e eu não ficar doidão enquanto dirigia. Nunca gostei de droga, mas ficava fascinado com o que via no retrovisor.
Olhando em retrospectiva, fico mais angustiado com o Brasil de hoje. Vivíamos em uma Ditadura, com o AI-5 vigente, pessoas desaparecidas, mortas e torturadas. Mas eu não me recordo de uma ultradireita mundial tão organizada e capilarizada. Todos os democratas, ou quase todos, sabiam dos ditadores de plantão. A resistência parecia mais fácil, quase óbvia.
Hoje, a extrema-direita espalhou-se, vestiu roupa de domingo e fragmentou a sociedade de maneira cruel. No mundo inteiro e particularmente no Brasil. O fascismo senta, desavergonhadamente, nas mesas de restaurantes e de bares. Divide, ou tenta dividir, as famílias. Assumem-se sem pejo. Os propagadores da tortura, os milicianos, simplesmente assumiram a postura da extrema-direita mundial. O Trump é o herói desse grupo. Ousam pedir uma intervenção norte-americana no Brasil. Vendem nossa soberania. Estão de quatro e felizes. A quadra mundial é de terror.
Enquanto o presidente da nação até então mais poderosa, em franca decadência, cria factoides para fugir de um impeachment por pedofilia, no Brasil, a extrema-direita entreguista promete ceder o país para que seja quintal dos grupos extremistas. E agora, com apoio de parte da grande mídia e do empresariado, vestem o filho do Bolsonaro com uma roupa de moderado. Que momento trágico. Que mundo. Nunca imaginamos que a mediocridade chegasse a esse nível.
Saudades do tempo de poesia, de recitação e de debates sobre versos criados na hora. Eu escrevi, há algum tempo, um artigo triste sobre não ter netos. Hoje, tenho dúvidas sobre o mundo.
Remeto-me a Pessoa, no Livro do Desassossego: “A ironia é o primeiro indício de que a consciência se tornou consciente”.
Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay

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