Kakay7maionlineARTE KIKO

“Parece que a minh’alma é perseguida
Por um carrasco cheio de maldades.”
Florbela Espanca, A Minha Tragédia
Conheci o Thiago Ávila quando ele era criança. Amigo dos meus filhos, sempre foi um menino alegre, brincalhão e observador. O tempo passou e ele começou a fazer política em Brasília. Em 2021, foi preso e denunciado pelo crime de “obstar ou dificultar a ação fiscalizadora do Poder Público no trato de questões ambientais” por permanecer no telhado de uma escola que seria derrubada durante uma operação de desocupação.
A escola foi construída por famílias em situação de vulnerabilidade, em sua maioria catadores de material reciclável, que necessitavam daquele espaço para que as crianças pudessem ter acesso à educação. O Thiago fez uma manifestação pacífica contra a derrubada no ambiente de ensino e foi preso em flagrante.
Nós fomos advogados dele no inquérito e na ação penal e ele foi absolvido ao final da instrução. O Ministério Público recorreu, mas conseguimos manter a absolvição no julgamento da apelação. Em todas as situações do processo, impressionavam sua determinação e sua consciência do que fazia. Do seu papel. Do seu lugar na sociedade. Durante a instrução, ressaltou-se a sua postura pacífica. De resistência ao arbítrio e à prepotência, mas sem o uso da violência.
Passaram-se os anos e eu acompanhei a trajetória digna e admirável desse ativista de esquerda contra os abusos que se intensificam no mundo. Vejo as fotos e nele identifico a mesma serenidade e determinação.
Reconheço que a prisão do dia 30 de abril mexeu comigo por diversos motivos. Desde os pessoais, por conhecê-lo há tantos anos e por gostar dele, até a enorme admiração pela sua dedicação a uma causa. Pela sua luta contra a injustiça. Thiago foi preso por integrar a Global Sumud Flotilla, que comete “o crime” de tentar levar ajuda humanitária à Faixa de Gaza! As flotilhas tentam romper o isolamento e o bloqueio que submetem os palestinos à fome, à morte e ao desespero. Os que cometem delitos contra a humanidade são os carcereiros do Thiago e de outros que lutam e se expõem pela paz e pela vida.
Encarcerado em uma cela solitária e sem janelas, foi submetido à tortura e às agressões que o levaram a desmaiar. O sofrimento foi tão intenso que ele, seriamente ferido, ficou temporariamente cego, vendado e forçado a permanecer de bruços e amarrado. Durante o interrogatório, de maneira cruel e criminosa, os policiais israelenses exibiram imagens da sua filha de 2 anos e da sua esposa para intimidá-lo, em um amedrontamento psicológico baixo e vil. A prisão ocorreu em águas internacionais e de forma absolutamente ilegal.
O que se observa no contexto atual é que Netanyahu e Trump subverteram a ordem mundial. Rasgaram as leis e os tratados internacionais. Desprezam a ONU ou qualquer outra instituição. Implementaram o terror e uma acusação inventada de terrorismo que elimina quaisquer direitos do cidadão. Para desestabilizar o prisioneiro, ameaçaram-no com 100 anos de prisão.
O Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos fez uma declaração, por meio do porta-voz da entidade, Thameen Al-Kheetan, pedindo a “imediata e incondicional” soltura do Thiago. O Presidente Lula se manifestou criticando a prisão e ressaltou que a ação do governo de Israel era “injustificável”. Afirmou ainda que a detenção em águas internacionais representava “uma séria afronta ao direito internacional” e registrou que o caso suscitava “grande preocupação”.
Na realidade, nenhuma dessas ações, embora necessárias e importantes, terá efeito. O mundo não ouviu quando mais de 60 mil crianças foram feridas ou assassinadas na Faixa de Gaza. Em dois anos de guerra, uma criança foi morta a cada 52 minutos. Sem contar as milhares que perambulam famintas, sozinhas, órfãs de seus pais e abandonadas pela humanidade.
Era por elas que Thiago levava ajuda humanitária. Arriscando a própria vida e deixando, no conforto e na segurança do seu lar, uma filha de 2 anos. Sabemos que, se o mundo fechou os olhos e os ouvidos com o choro e os gritos de dor e pavor de milhares de crianças, infelizmente, a dor da tortura e o desespero do Thiago e de seus companheiros não serão ouvidos.
Porém, espero que não seja em vão a luta pela dignidade e pela humanidade. O horror e o medo que a ultradireita espalha mundo afora, inclusive no Brasil, têm de servir para que um sentimento humanitário e de resistência se fortaleça. Em nome da paz e em homenagem aos Thiagos que resistem.
Relendo Mia Couto, em Versos do Prisioneiro - A Sentença:
“Você
tem que aprender
a respeitar a vida humana, disse o Juiz.
Parecia justo.
Mas o Juiz
não sabia que, para muitos,
a vida não é humana.
O prisioneiro retorquiu:
há muito me demiti de ser pessoa.
E proferiu, por fim:
um dia,
a nossa vida será, enfim,
viva e nossa.”
Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay