O fortalecimento da atividade econômica no interior do estado do Rio é um caminho sem volta e necessárioDivulgação

Há pouco mais de duas décadas, a economia do estado do Rio de Janeiro deixou de se concentrar apenas na capital. No século XXI, o processo de interiorização transformou municípios de diferentes regiões em polos produtivos que se conectam e complementam a dinâmica carioca. Essa integração não é apenas geográfica: ela envolve cadeias de valor, fornecedores locais, mão de obra especializada e circulação de renda que fazem com que o interior tenha um peso cada vez maior na geração de riqueza do estado.
Os dados confirmam essa tendência. Em 2000, a cidade do Rio concentrava cerca de 50% do PIB estadual. Hoje, essa participação caiu para 37,9%. Não se trata de perda econômica da capital, mas sim do fortalecimento do interior. A partir do final dos anos 1990, grandes investimentos passaram a transformar o território fluminense: montadoras de automóveis no Médio Paraíba, a consolidação do polo de óleo e gás no Norte Fluminense e na Região dos Lagos, o fortalecimento do Porto do Açu, a criação da Rio Polímeros em Duque de Caxias, a reativação da indústria naval, a chegada de novas empresas de petróleo, o parque tecnológico da UFRJ, o turismo na Região Serrana, uma nova planta siderúrgica em Santa Cruz, além de investimentos em ciência e saúde, como na Fiocruz e no Instituto Vital Brazil.
Esse movimento foi muito bem analisado na série “Revisitando o Território Fluminense”, organizada por Mauro Osorio, Henrique Rabelo Sá Rego e Maria Helena Versiani, publicada pela EdUERJ. Os autores lembram que, no início do século XXI, a economia fluminense voltou a se aproximar da trajetória da economia nacional após décadas de distanciamento. No entanto, a crise iniciada em 2015 atingiu o estado de forma profunda, em razão da queda do preço internacional do petróleo e da dependência das receitas de royalties, especialmente em regiões como o Norte e a Baixada Litorânea.
Para superar esse cenário de vulnerabilidade, os autores defendem que é necessário mobilizar mais a academia na reflexão sobre os problemas regionais. Chama a atenção, por exemplo, a ausência de linhas permanentes de pesquisa em Economia Regional nos programas de pós-graduação das universidades do estado. Sem esse olhar para dentro, o Rio corre o risco de não aproveitar plenamente suas potencialidades.
Entre os setores estratégicos que podem sustentar um novo ciclo de desenvolvimento, destacam-se três blocos principais. O primeiro é o complexo do petróleo e gás, que pode gerar empregos e inovação em áreas como indústria naval, engenharia, equipamentos, turismo de negócios e serviços especializados — sempre em diálogo com a transição para energias renováveis. O segundo é o complexo da saúde, no qual o Rio já tem posição privilegiada, com uma indústria farmacêutica significativa, centros de pesquisa e a presença da Fiocruz, instituição fundamental para absorver novas tecnologias e atrair investimentos. O terceiro é o setor de turismo, cultura, esporte e entretenimento, que apresenta enorme sinergia e potencial de crescimento. Por sua relevância e complexidade, vamos abordá-lo num artigo posterior.
Reconhecer e valorizar a integração entre capital e interior é, portanto, essencial. Isso significa investir em infraestrutura física (rodovias, ferrovias, logística), em educação (formação técnica e superior em diferentes regiões) e em governança (parcerias público-privadas e cooperação metropolitana). O Rio de Janeiro de hoje é mais complexo e diversificado do que o de décadas atrás. A capital segue sendo um motor fundamental, mas o interior se consolidou como força econômica em plena expansão. O desafio agora é transformar esse potencial em desenvolvimento equilibrado, sustentável e distribuído entre todas as regiões do estado.