Porto do Açu e Barra do Furado: grandes empreendimentos no Norte Fluminense esbarram na precariedade de acessoDivulgação/César Ferreira

No que diz respeito à iniciativa privada, não há dúvidas: o Norte Fluminense se tornou uma região altamente atrativa pelas suas cadeias produtivas consolidadas – principalmente portuária e de óleo e gás -, pela logística privilegiada (próxima aos principais centros do país) e pelo seu capital humano (universidades, faculdades, centros de pesquisa e escolas técnicas). No momento em que os governos despertarem para esse potencial, o Brasil estará diante de uma nova fronteira de desenvolvimento.
Uma boa notícia vem do Porto do Açu. Na primeira quinzena de novembro, o complexo portuário instalado em São João da Barra vai promover a primeira audiência pública sobre o projeto de um Hub de Ferro Metálico. A proposta é criar uma planta industrial que beneficie o minério de ferro extraído em Minas Gerais e transportado ao litoral do Norte Fluminense através do maior mineroduto do mundo, utilizando uma tecnologia inovadora que reduz em 60% a emissão de CO2.
Não é coisa pequena. O hub ocupará 308 hectares de área no porto, recebendo um investimento de R$ 34,9 bilhões em quatro fases. O início de operação está previsto para 2030. O projeto, que dialoga com o futuro Hub de Hidrogênio, possibilitará a geração de cerca de 2 mil empregos e abrirá as portas para uma enorme gama de fornecedores nos municípios próximos.
Bem perto dali, no limite entre Campos e Quissamã, está prestes a sair do papel o Complexo Logístico e Industrial Farol/Barra do Furado. Com licença ambiental já liberada pelo Instituto Estadual do Ambiente (Inea), o empreendimento terá início com a dragagem do Canal das Flechas, que liga a Lagoa Feia ao Oceano Atlântico. Com sua profundidade ampliada a 7 metros, o canal permitirá o acesso de navios e a implantação de negócios de apoio ao setor offshore, como estaleiros, terminal de tancagem e base de apoio logístico. Permitirá, também a construção de um terminal pesqueiro, atendendo a uma demanda histórica da comunidade pesqueira da região.
As peças estão se movendo rapidamente. No entanto, esbarram em questões logísticas que não dependem da iniciativa privada; precisam do apoio do poder público para acontecer. No caso do Porto do Açu, a situação caminha para se tornar dramática. Enquanto o complexo portuário se firma como um dos maiores da América Latina, os acessos por rodovia ainda são limitados. Com o aumento vertiginoso no número de caminhões previsto para os próximos anos, estaremos diante de um gargalo que dificultará o acesso ao porto e, certamente, aumentará o chamado “custo Brasil”.
Também merece atenção o projeto de construção da ferrovia EF-118, cuja obra – realizada através de uma parceria do governo federal com a iniciativa privada – vai a leilão no primeiro trimestre de 2026. Mas há uma pedra no caminho: o trecho de 80 quilômetros da ferrovia entre Anchieta (ES) e Santa Leopoldina, que seria construído pela Vale como contrapartida pela renovação da licitação da Estrada de Ferro Vitória-Minas e da Estrada de Ferro Carajás. Nas últimas semanas, Brasília tem acenado que a obra pode mudar de estado: a mineradora estaria sendo pressionada a participar da construção de uma ferrovia na Bahia, estado onde o governo federal tem forte apoio político. Sem os 80 quilômetros em questão, não haverá a tão sonhada ligação do Porto do Açu com a malha ferroviária nacional.
No caso do Complexo Logístico Farol-Barra do Furado, o problema não é menor. As estradas de acesso ao litoral estão em estado precário. E sozinhas, as Prefeituras de Campos e Quissamã não conseguirão solucionar este entrave. Será preciso apoio do governo estadual – que, diga-se de passagem, mantém engavetado o projeto da rodovia RJ-244 (ligação direta da BR-101 com o litoral da região).
A chegada de empreendimentos e o desenvolvimento de outros é motivo para comemorar. O desafio, no entanto, é transformar esse cenário promissor em realidade concreta. Para isso, é indispensável que o poder público assuma sua parte, garantindo infraestrutura e políticas que viabilizem os investimentos privados. Se houver sintonia entre governo e empresas, o Norte Fluminense deixará de ser apenas uma promessa e se consolidará como um dos mais importantes polos de desenvolvimento do Brasil.