A conta de luz vai ficar mais cara em maio, por causa da seca que reduziu os reservatórios das hidrelétricasMarcelo Casal Jr./Agência Brasil

Vem mais aumento por aí. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) anunciou que a bandeira tarifária para o mês de maio será amarela, sinalizando um custo adicional na conta de luz dos brasileiros. Com a mudança, será cobrado um acréscimo de R$ 1,885 a cada 100 kWh consumidos.
A decisão reflete a redução do volume de chuvas nas regiões dos reservatórios — um cenário típico da transição do período chuvoso para o seco. Segundo a agência, a menor incidência de chuvas afeta diretamente a geração hidrelétrica, base da matriz elétrica nacional, e obriga o acionamento de usinas termelétricas, que têm custo de produção mais elevado e pressionam as tarifas. Em casos extremos, a Aneel aciona as termelétricas, que cobram caro pela energia gerada.
Dados da Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia revelam a dimensão do problema: entre 2000 e 2024, a tarifa residencial acumulou alta de 401,4%, acima da inflação no período, que foi de 340%. O impacto é amplo. Com renda comprimida e alto nível de endividamento, as famílias passaram a tratar a conta de luz como uma das principais despesas do orçamento. No setor produtivo, o aumento do custo da energia tende a ser repassado aos preços finais, alimentando a inflação.
Esse ciclo se repete ano após ano. As estiagens reduzem o nível dos reservatórios e expõem a fragilidade de um modelo excessivamente dependente das hidrelétricas. Diante das mudanças climáticas, insistir nessa lógica — baseada na espera por chuvas — revela-se cada vez menos sustentável. Episódios como a crise hídrica de 2001, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, ilustram como a falta de planejamento pode levar a soluções improvisadas. A dança da chuva realizada na ocasião foi, no mínimo, um grande deboche.
A realidade é clara: as secas continuarão ocorrendo. E depender delas não pode uma estratégia racional. O Brasil dispõe de alternativas abundantes e competitivas, como a energia solar e a eólica, que já se consolidam como protagonistas na transição energética global. Por que, então, contar tanto com as hidrelétricas?
Segundo a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica, os investimentos em energia solar no país já ultrapassam R$ 300 bilhões, considerando geração distribuída e grandes usinas. A fonte alcançou 68,8 GW de capacidade instalada e responde por 25,3% da matriz elétrica brasileira, ocupando a segunda posição, atrás apenas das hidrelétricas (41,6%).
Já a Associação Brasileira de Energia Eólica aponta que o Brasil possui cerca de 33,7 GW de capacidade instalada de energia eólica, com crescimento consistente e posição de destaque entre os maiores produtores do mundo. Além de limpa, a fonte apresenta custo competitivo — figurando entre as mais baratas — e contribui para a geração de empregos, especialmente em regiões onde os parques são instalados.
Em ambas as fontes, os custos de implantação vêm caindo de forma contínua, impulsionados por avanços tecnológicos e ganho de escala. Com maior prioridade a esses investimentos, certamente o país pode reduzir sua vulnerabilidade climática, garantir segurança energética e aliviar o bolso do consumidor. Ampliar a oferta de energia limpa e acessível não é apenas uma agenda ambiental — é uma estratégia econômica. Mais energia disponível significa mais crescimento, mais competitividade e, no fim da cadeia, contas mais leves para a população.