Baía de Guanabara: divisor entre dois estados que se fundiram mas nunca se integraramTomaz Silva/Agência Brasil
A dívida da fusão com o interior do Rio de Janeiro
Cinco décadas depois, a fusão consolidou um estado centralizado, enquanto o interior continua esperando protagonismo e investimentos.
Mais de cinquenta anos se passaram e a sensação de quem vive no interior fluminense é de que a fusão entre os estados do Rio de Janeiro e da Guanabara só aconteceu nos documentos oficiais. Porque, quando se trata das decisões importantes, dos investimentos estratégicos e da atenção dos governos estaduais, parece que ainda existe um muro invisível separando a capital do restante do estado. E não é difícil entender por quê.
O Rio de Janeiro sempre foi capital da Colônia, do Império e da República. Acumulou ministérios, empresas, universidades, teatros, museus, emissoras de televisão, grandes hospitais e centros financeiros. Quando a fusão aconteceu, toda essa estrutura permaneceu onde sempre esteve.
O problema é que o restante do estado entrou na mesma fotografia sem que a lente fosse ampliada. Quem mora no Norte Fluminense, no Noroeste, na Região Serrana, na Costa Verde ou no Médio Paraíba aprende cedo que quase tudo que importa é decidido na capital. Não por acaso, boa parte das secretarias, autarquias, fundações e órgãos estratégicos permanece instalada na capital. O centro administrativo nunca saiu do lugar. Mudou o mapa, mas não mudou a lógica.
Seria injusto dizer que o interior ficou parado no tempo. Foi nos municípios fora da capital que nasceram grandes polos industriais. Foi ali que a Bacia de Campos transformou o Brasil em potência petrolífera. Foi ali que surgiu o Porto do Açu, um dos maiores complexos logísticos do país. É no interior que a agropecuária, a indústria, o turismo e a energia encontram espaço para crescer.
Talvez justamente por isso a pergunta se torne inevitável: imagine onde o estado estaria se essas vocações tivessem sido acompanhadas por uma política consistente de desenvolvimento regional.
Talvez o maior erro da fusão não tenha sido unir dois estados. O erro foi imaginar que bastava unir territórios para integrar prioridades.
Não se trata de defender uma nova separação. Depois de cinco décadas, desfazer a fusão provavelmente criaria mais problemas do que soluções. A questão é outra.
Chegou a hora de reconhecer que o desenvolvimento do Rio de Janeiro não pode continuar sendo pensado apenas na Cidade Maravilhosa. Um estado tão diverso precisa ser governado olhando também para os demais 91 municípios. Essa talvez seja a maior dívida deixada pela fusão de 1975: ela uniu territórios, mas nunca conseguiu unir o sentimento de pertencimento. O mapa virou um só. O olhar dos governos, nem tanto.

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