O Porto do Açu é uma solução para as exportações brasileiras, mas é preciso criar acessos logísticosDivulgação/Porto do Açu
A produção agrícola cresce. Mas faltam caminhos para exportação
Produzir mais já não basta. Sem logística, o país continua desperdiçando uma grande oportunidade de reduzir custos e ganhar competitividade.
O campo brasileiro aprendeu a produzir em escala. A tecnologia fez a lavoura crescer, a produtividade bate recordes, e a cada safra o país reafirma sua vocação de celeiro do mundo. Com a expectativa de que as exportações de soja ultrapassem pela primeira vez a marca de 100 milhões de toneladas neste ano, segundo a Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec), os portos brasileiros entram novamente em um teste de resistência. Uma pergunta antiga volta a incomodar: como exportar toda essa riqueza com a rapidez e eficiência que o mundo exige?
Essa corrida contra o relógio revela um velho paradoxo nacional. O Brasil produz muito mais do que consegue armazenar. Enquanto a safra de grãos deve alcançar 360,1 milhões de toneladas, a capacidade estática de armazenagem chega a apenas 233,8 milhões, de acordo com o IBGE. É como encher um reservatório sabendo, de antemão, que parte da água inevitavelmente ficará do lado de fora.
É justamente nesse cenário que o Porto do Açu, em São João da Barra, começa a chamar cada vez mais atenção dos produtores do Centro-Oeste. Enquanto os portos de Santos e Paranaguá convivem com filas de navios e congestionamentos que podem se estender por semanas, o terminal fluminense oferece uma realidade bem diferente, reduzindo o tempo de espera de embarcações de até 60 dias para cerca de três. O Açu também desfruta de um índice de chuvas cerca de 150% menor do que os principais portos do Sul e Sudeste, além de contar com uma vasta retroárea que permite ampliar sua capacidade de armazenagem.
Mas há uma ironia difícil de ignorar. O porto existe, é moderno, cresce em ritmo acelerado e reúne condições para se tornar uma das principais portas de saída da produção brasileira. Ainda assim, faltam caminhos para chegar até ele. As ligações rodoviárias continuam limitadas. Mais grave: não existe conexão ferroviária com a malha nacional.
É por isso que voltamos a um tema recorrente: a Ferrovia EF-118. Prevista pelo Ministério dos Transportes, ela formará o chamado Anel Ferroviário do Sudeste, integrando o Porto do Açu aos demais portos fluminenses e à rede ferroviária brasileira. Na prática, permitirá que a soja colhida em Mato Grosso percorra um caminho mais curto, rápido e eficiente até o litoral do Norte Fluminense. A expectativa do governo federal é realizar a concessão da ferrovia por meio de um leilão.
O projeto prevê aproximadamente 571 quilômetros de extensão entre os municípios de Nova Iguaçu Santa Leopoldina (ES), incluindo um ramal para o Porto do Açu. Entre os trechos considerados prioritários, está o segmento de 246 quilômetros entre Santa Leopoldina e São João da Barra, que deverá ser implantado pelo futuro concessionário. Após a revisão dos estudos conduzida pelo Ministério dos Transportes, também foi incorporado o trecho entre Anchieta e Santa Leopoldina, garantindo a continuidade da malha ferroviária, ampliando a autonomia operacional da futura concessionária e fortalecendo a integração logística da região.
No fim das contas, a história se repete. O Brasil demonstra, safra após safra, que sabe produzir. O Porto do Açu mostra que está preparado para crescer. O mercado internacional continua disposto a comprar. O que ainda falta é transformar potencial em conexão. Porque, no século XXI, riqueza não é apenas aquilo que se produz, mas aquilo que consegue chegar ao destino no tempo certo. E, enquanto a infraestrutura continuar correndo atrás da produção, o país seguirá desperdiçando parte da vantagem que tanto se orgulha de ter.

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