FPSO Cidade Angra dos Reis, que opera no Campo de Tupi: o pré-sal ainda é desafio para o paísAndré Motta de Souza/Agência Petrobras
Pré-sal: 20 anos de uma riqueza que ainda desafia o Brasil
Do fundo do mar à indústria, o Brasil precisa transformar a riqueza do pré-sal em soberania energética, tecnologia, empregos e desenvolvimento.
O mês de julho marcou um período icônico para a política energética brasileira. Há exatamente 20 anos, a Petrobras confirmava a existência de petróleo no pré-sal do bloco BM-S-11, na Bacia de Santos, que mais tarde seria batizado de Campo de Tupi. Aquela que ainda hoje é considerada uma das maiores descobertas da história do setor petrolífero mundial transformou a indústria nacional e colocou o estado do Rio de Janeiro na vanguarda tecnológica da exploração em águas ultraprofundas.
Naquele momento, parecia coisa de ficção científica. Como tirar petróleo de uma profundidade superior a 7 mil metros abaixo do leito marinho? Na falta de respostas prontas, foi preciso desenvolver soluções. Novos materiais e equipamentos tiveram de ser criados para suportar pressão, temperatura e corrosão extremas. A Petrobras precisou aperfeiçoar tecnologias para perfurar com precisão, manter a estabilidade dos poços e lidar com as condições adversas encontradas nas profundezas. Também foi necessário encontrar soluções para separar e transportar petróleo, gás e água por centenas de quilômetros até a costa.
Deu certo. A nova fronteira petrolífera colocou o Brasil entre as dez maiores potências produtoras de petróleo do mundo, ampliou a segurança energética e fortaleceu a capacidade de geração de riqueza do país. Em junho de 2026, a produção do pré-sal alcançou 4,8 milhões de barris de óleo equivalente por dia (boe/d), correspondendo a 82% da produção brasileira de óleo e gás naquele mês.
São números que ajudam a dimensionar a transformação. Mas também ajudam a lembrar que petróleo não é apenas uma commodity — é um recurso estratégico, capaz de influenciar a segurança energética, a balança comercial, a indústria e a própria soberania do país. Num mundo marcado por guerras, conflitos, disputas tecnológicas e fragmentação das cadeias globais de produção, ter energia é fundamental. Ter capacidade de produzi-la é ainda mais importante. E ter condições de transformar essa energia em conhecimento, indústria, tecnologia e riqueza dentro das próprias fronteiras talvez seja o passo mais decisivo. É aí que começa o próximo capítulo dessa história.
A produção do pré-sal deverá atingir seu pico na próxima década. Isso exige novos investimentos exploratórios e planejamento energético de longo prazo. Exige também uma política industrial capaz de ampliar o conteúdo local, fortalecer a capacidade tecnológica brasileira e multiplicar esforços para atingir também a autossuficiência em derivados de petróleo. O ouro negro precisa ser transformado em diesel, gasolina, querosene de aviação, nafta, lubrificantes, asfalto e uma ampla variedade de insumos fundamentais para a indústria.
Não se trata simplesmente de construir novas refinarias. É necessário decidir quais derivados o país precisa produzir, onde essa capacidade deve estar instalada e quais tecnologias serão necessárias, levando em conta a evolução da demanda, a transição energética e as características do petróleo produzido no pré-sal. Refinarias mais modernas e eficientes podem estimular cadeias inteiras de fornecedores, movimentar a indústria de equipamentos, gerar empregos qualificados e criar demanda por engenharia, pesquisa e inovação.
Ao completar 20 anos, o maior legado do pré-sal continua sendo uma oportunidade histórica em construção. A grande descoberta não deveria ser apenas a quantidade de petróleo escondida sob o oceano, mas a possibilidade de transformar essa riqueza em um projeto de país. O pré-sal pode ser uma ponte entre o Brasil que produz energia e o Brasil que produz conhecimento, tecnologia e desenvolvimento. Porque, no fim das contas, o verdadeiro desafio não é apenas tirar o petróleo do fundo do mar; é fazer com que a riqueza que vem de lá ajude a transformar a vida de quem está aqui em cima.

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