Para muitas pessoas, perder um animal de estimação significa enfrentar uma ruptura que vai muito além da ausência de um pet. Cães e gatos ocupam cada vez mais um lugar central na dinâmica familiar, participam da rotina, oferecem companhia e se tornam importantes fontes de apoio emocional. Por isso, quando morrem, podem deixar um vazio profundo e desencadear um processo de luto.
“A intensidade do luto não é determinada pela espécie de quem morreu, mas pela importância daquele vínculo na vida de quem ficou”, explica a psicóloga Gil Jung. Segundo ela, a perda de um animal pode provocar tristeza intensa, sensação de vazio, culpa, alterações na rotina e isolamento.
É uma experiência vivida na prática por Ana Julia Neto, de 18 anos, que perdeu há cerca de um ano Hulk, um bulldog francês de 11 anos. Para ela, a perda atingiu toda a família.
“O luto não foi apenas meu, foi de toda a família, porque ele era realmente um membro da nossa família.” A ausência passou a ser percebida nos detalhes da rotina. “A pior sensação foi entrar em casa e sentir o vazio, perceber a ausência dele nos lugares e nos momentos em que sempre esteve presente”, conta.
Mesmo depois de um ano, a saudade continua. “Com o tempo, a dor vai mudando, mas a saudade permanece. Hulk fez parte da nossa história por 11 anos, e perder um animal que ocupava um espaço tão importante na família é perder também uma parte da nossa rotina, das nossas lembranças e da nossa vida”, afirma.
Uma dor nem sempre reconhecida
O sofrimento causado pela perda de um animal ainda é, muitas vezes, pouco compreendido. Na psicologia, existe o conceito de luto não reconhecido ou não legitimado, quando a pessoa vive uma perda significativa, mas sente que não tem o mesmo direito de sofrer.
Frases como “era só um cachorro” ou “é só pegar outro” podem aumentar a sensação de incompreensão e isolamento.
Para Gil Jung, não se trata de comparar a perda de um animal à de uma pessoa, mas de compreender o significado daquela relação.
“Não precisamos estabelecer uma hierarquia da dor. Para compreender um luto, precisamos compreender o significado daquele vínculo para aquela pessoa”, afirma.
Um membro da família
Para a veterinária Juliana Matias, da Plamev, a mudança na forma como os animais são vistos dentro das famílias ajuda a explicar a intensidade desse sofrimento.
“Hoje, os animais são considerados verdadeiros membros da família, estabelecendo vínculos tão fortes quanto aqueles construídos com parentes e amigos”, afirma.
O pet passa a fazer parte de hábitos, horários e pequenos rituais do cotidiano. Quando morre, tudo isso também muda.
Por esse motivo, não existe um prazo determinado para superar a perda. Cada pessoa vive o luto de uma maneira e precisa de seu próprio tempo para elaborar a ausência.
Outro animal não substitui o que partiu
A tentativa de substituir rapidamente o pet também pode dificultar o processo. Segundo Juliana, um novo animal não ocupa o lugar daquele que morreu.
“A dor da perda representa a ausência de um grande amigo, de um companheiro e de alguém que fazia parte da rotina e da história daquela pessoa”, explica.
Um novo pet pode representar o começo de uma nova história, mas não apaga a relação que existiu.
Quando o animal também deixa saudade
O luto não é exclusivo dos humanos. Animais que conviviam com o pet que morreu também podem apresentar mudanças de comportamento, como apatia, falta de apetite, inquietação e procura pelo companheiro ausente.
Nesses casos, é importante observar o comportamento e oferecer atenção e suporte durante o período de adaptação.
A culpa após a eutanásia
A eutanásia pode tornar o luto ainda mais difícil. Depois de meses de tratamentos e cuidados, alguns tutores podem sentir culpa por terem autorizado o procedimento.
“A decisão pela eutanásia é uma decisão médica, indicada pelo Médico Veterinário quando não existem mais alternativas capazes de proporcionar qualidade de vida ao paciente, diante de um prognóstico desfavorável e de uma situação de sofrimento”, explica Juliana.
A culpa pode dificultar a elaboração da perda. Quando o sofrimento se torna intenso ou a pessoa sente que não consegue enfrentar o processo sozinha, o acompanhamento psicológico pode ajudar.
No caso de Ana Julia, o tempo não apagou a ausência de Hulk, mas mudou a forma como a família convive com a saudade.
Perder um pet pode significar perder uma companhia, uma rotina e uma parte da própria história. A dor pode mudar com o tempo, mas não precisa ser diminuída para ser considerada legítima. Afinal, não é a espécie que determina o tamanho do vazio deixado pela morte, mas o amor construído durante a vida.
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