Arte coluna Padre Omar 07março 2026 Arte Paulo Márcio

O Dia Internacional da Mulher é mais do que uma data comemorativa. É um convite à reflexão sobre a dignidade e a presença feminina na história da humanidade. Para nós, que contemplamos diariamente o Cristo Redentor no alto do Corcovado, essa data também nos recorda algo muito particular: a história do maior símbolo do Brasil está profundamente entrelaçada com a sensibilidade, a fé e o protagonismo de muitas mulheres.
A própria origem do monumento remete a um gesto feminino de grande significado histórico. No final do século XIX, após a assinatura da Lei Áurea, surgiu a proposta de erguer um monumento em homenagem à Princesa Isabel. No entanto, ela recusou a homenagem pessoal e, em um gesto de profunda fé, registrou que a honra deveria ser dedicada ao “verdadeiro Redentor dos homens, Jesus Cristo”. A partir dessa decisão humilde e inspirada, plantou-se a semente do que, décadas depois, se tornaria o monumento ao Cristo Redentor.
Anos mais tarde, já nas comemorações do centenário da Independência do Brasil, novamente as mulheres desempenharam papel decisivo para que o projeto se concretizasse. Lideradas pela escritora Laurita Lacerda, elas organizaram um grande abaixo-assinado enviado ao então presidente Epitácio Pessoa, solicitando autorização para a construção do monumento na colina do Corcovado. A mobilização feminina foi determinante para que o sonho saísse do papel e se tornasse realidade.
A presença das mulheres também marcou profundamente a fase concreta da construção. Integrantes dos círculos católicos organizaram campanhas, formaram comissões e percorreram as ruas para arrecadar recursos. Graças a essa dedicação, o projeto ganhou corpo e avançou.
Mas o envolvimento feminino foi ainda mais delicado e simbólico. Muitas mulheres participaram diretamente do acabamento do Cristo Redentor, colando manualmente os milhares de pequenos mosaicos de pedra-sabão que revestem o monumento. Antes de fixá-los, elas escreviam no verso os nomes de doadores e familiares, eternizando a memória de tantos brasileiros e brasileiras na própria “pele” da imagem. Assim, cada pequeno fragmento carrega também uma história de fé, gratidão e esperança.
A presença feminina está inscrita até mesmo na estética do monumento. Poucos sabem que as mãos do Cristo Redentor, com seus dedos longos e elegantes, possuem anatomia feminina. O escultor utilizou como molde as mãos de uma jovem modelo chamada Margarida Lopes de Almeida. Dessa forma, as mãos que se abrem sobre a cidade do Rio de Janeiro e abençoam o Brasil carregam, em sua forma, a delicadeza e a força do feminino.
Contemplar o Cristo Redentor é, portanto, também recordar essa participação fundamental das mulheres em sua história. Elas ajudaram a sonhar, a mobilizar, a construir e a dar forma ao monumento que hoje acolhe milhões de peregrinos e visitantes de todo o mundo.