O Dia de Finados é uma data para lembrar dos amigos que já não estão mais aqui, mas que, acreditem, continuam entre nós. No último agora, resolvemos fazer as homenagens na própria caverna, reunindo os conselheiros do Principado de Água Santa ao redor da churrasqueira. E, claro, o vizinho de boreste trouxe a cerveja — combustível ideal para reavivar memórias meio apagadas.
Não é que, de repente, o assunto deixou os mortos para falar das cerimônias fúnebres?
Júlio disparou:
— Quem, entre nós, nunca errou o alvo de um enterro ou missa? Ou confundiu, num velório, um estranho com um familiar que não via há tempos?
O amigo Ronaldo, por exemplo, chegou cedo à missa de sétimo dia de alguém da família de uma namorada recente — queria agradar. Decidiu tomar à frente na recepção dos parentes, enquanto esperava a chegada dela. E fez todas as honras: ajudou as velhinhas a se acomodarem, recebeu os convidados, distribuiu abraços e condolências. Até que, já preocupado com a demora da amada, resolveu ligar:
— Querida, você já está chegando?
— Como assim? Estou no velório da minha tia.
— Sim... qual era mesmo a igreja?
Bem, aquela família nunca soube quem era o sujeito tão gentil que abraçou a todos e participou ativamente de quase todo o culto.
Teve também o caso da Carlotinha. Ao chegar ao velório de um colega de profissão, levou um susto de arrepiar ao ver, no salão, um amigo que julgava morto havia anos. Impactada pela emoção, abraçou-o e, quase em lágrimas, disse:
— Darci, querido, eu pensei que você tivesse morrido!
— As pessoas às vezes se confundem — respondeu, gentil, o cantor Aguinaldo Timóteo, sem coragem de revelar que, inclusive naquele momento, o caso era exatamente esse.
Demorou pouco para ela perceber que abraçava uma celebridade da música, enquanto o amigo Darci continuava vivo apenas na lembrança dos amigos.
Mas nem todas as mancadas são discretas. Foi o caso do colega Chico Edson. Escalado para cobrir o assassinato de um metalúrgico da CSN, Chico foi ao velório colher depoimentos sobre o morto. Ao chegar ao cemitério, avistou um cortejo saindo de uma das capelas. Boa parte das pessoas vestia o uniforme da CSN.
O fotógrafo que o acompanhava ainda ponderou:
— Pô, cara, o enterro não era às 16h?
— Devem ter antecipado, pra despistar a imprensa — respondeu o experiente repórter.
Logo a presença dos dois, à frente do cortejo, virou piada. Alguns, discretos, ainda faziam sinal de negativo com o dedo indicador para alertá-los. Mas, claro, isso também acontece: nem sempre os amigos das vítimas querem se pronunciar.
Depois de dezenas de fotos, a dupla se posicionou ao lado da cova. Diante de umas trinta pessoas, o repórter arriscou uma conversa com um parente à beira da sepultura:
— Puxa vida, que covardia, né? Matar um cidadão assim, de forma tão cruel, com um tiro na nuca, sem chance de defesa...
O homem enxugou as lágrimas e respondeu:
— Meu caro, vocês estão no enterro errado. Este aqui era metalúrgico, sim, mas morreu de velhice — vítima de várias comorbidades, aos 90 anos. O metalúrgico assassinado está na capela ao lado. O enterro dele é às 16h.
Com certeza, os desencarnados desculparam os enganos. Ninguém reclamou!