Foi uma semana complicada. Os amigos tomaram a frente dos afazeres na caverna. Eu? Uma torção no tornozelo esquerdo me deixou na cadeira de balanço. Até o Cláudio, o barbeiro, apareceu, na folga da segunda-feira, para cortar meu cabelo e derrubar a barba. Aproveitamos para terminar aquela conversa iniciada há uns três meses, a última em que fui ao salão. Ele foi rápido e em pouco tempo, o aspecto de homem da caverna sumiu e fiquei de novo com a imagem de anfitrião do Principado. Por falar em principado, lembrei que antigamente minha avó Beatriz pedia sempre para mim o corte “Príncipe Danilo”. O nome, no entanto, tem a haver com outro tipo de nobreza: a do volante Danilo Alvim, um dos maiores craques da seleção brasileira dos anos 50 e do Vasco. Elegante no campo, e na telha: cabelo bem curto, penteado para trás.
Mas Cláudio não ficou para a churrascada. Também, as carnes somente ficaram no ponto no início da tarde. Fiquei só na espera, à sombra, bebendo refrescou de Pitanga. Oh, dieta danada! O vizinho de boreste trouxe mexilhões para a entrada. Ibiapina não deu as caras. Tá curando um resfriado federal. Fred tomou conta da churrasqueira e Adilcinho administrou as bebidas com mão de ferro. Julio trouxe mais carvão.
Os encontros são a saída da vida pacata. Fora da agitação e da violência. No momento, paciência para esperar cozinhar os mariscos - mexilhões -, já limpos e no panelão. Assunto? Os mais variados, desde as últimas do Brasileirão, final de novela, o acordo de paz em Gaza, até a decisão do Trump de permitir a ação secreta da Cia em solo Venezuelano. Curioso, que tenham ido à imprensa anunciar que fariam uma ação secreta. Piada?
Mas, o importante, no momento, é desfrutar o cardápio. Conversa fiada, amigos, faz parte dos encontros. Que bom. Levamos a vida na flauta, driblando a inflação e os problemas da idade, nossa e dos parentes e amigos. É da vida. E eis que surge o vizinho da frente:
- Gente, trouxe um divino mocotó -  e puxou o filho mais novo que carregava o panelão. Céus, é comida para a semana toda. E ninguém reclamou. Não somos chegados ao chá com torradas.
No gramofone, Orlando Silva, o cantor das multidões. Eita, vidão esse aqui da caverna! Deu um trabalho danado dar conta de tantas delícias. E haja assunto para mastigar entre um naco e outro de carne.
Pelo celular, chega a notícia de que os Correios buscam R$ 20 bilhões em empréstimos para sair da pindaíba, pagar as dívidas e voltar a funcionar como a empresa que foi no passado. Pronto, assunto para o dia inteiro. Unanimidade: será que foi por isso que os carteiros sumiram? É uma greve permanente ou ninguém mais escreve cartas analógicas?
- Até os incômodos boletos agora chegam por e-mail! – Lembrou Nelson.
Nem as maldosas cartas anônimas, que alertavam as patroas e patrões sobre supostos romances de seus cônjuges chegam mais. Tem muita gente que nunca viu e sequer sabe o que é telegrama. Ih, nem cheque pré-datado!
E a conversa termina sempre com a preocupação geral: quem vai pagar toda essa conta? Afinal, amigos, hoje só mesmo a conversa é fiada! O restante tem que ser em “cash”!