Em plena sexta-feira, reunião de despedida do inverno. A caverna cheia de amigos, o churrasco a pleno vapor, cerveja gelada, o samba do Dicró na vitrola... tudo era só alegria. Até que, de repente, o vizinho dos fundos, que participava da festa, teve um piripaque.
O homem ficou pálido, com os olhos arregalados, a boca aberta e sem conseguir falar. Só gemia um “ahhh” que paralisou tudo ao redor: a música, as garfadas, a conversa animada e até mesmo a fumaça do churrasco. Foi um Deus nos acuda!
- Deve ser queda de pressão – arriscou Júlio.
Eu, por conta do suco de maracujá sem gelo, estava até tranquilo. E, confesso, pensei:
Ele é meio guloso, será que engasgou com a carne?
Bem, na dúvida, formou-se a caravana. E os participantes do convescote pré-invernal, em peso, correram com o vizinho para o hospital.
Porém, chegando na emergência, só o paciente teve a entrada liberada. Barrados pela segurança, ficamos todos por ali, do lado de fora, no portão principal aguardando o horário das visitas pra, enfim, saber o que aconteceu.
- Só pode ter sido a pressão - insistiu Júlio.
- Ou indigestão? – Arrisquei lembrando que o amigo comia com certa pressa.
Foi quando, Bira, o advogado do grupo, lembrou:
- Alguém avisou a família?
Caramba, esquecemos. E, novamente afobados, voltamos todos para Água Santa para alertar a esposa, que, preocupada, retornou conosco para o hospital.
No caminho a mulher ainda desconfiou de alguma estripulia:
- Ele bebeu demais? Confessem!
Horas depois, ele já medicado na enfermaria, conseguimos burlar a vigilância e entramos dois de cada vez, certo? Somente dois de cada vez. Como éramos muitos, demorou pra esvaziar a fila. Foi quando descobrimos o que de fato aconteceu:
Na pressa de conquistar seu quinhão da costela bovina que saía fumegante da churrasqueira, o amigo pegou, sem querer, o garfo de doceiro, que estava esquecido sobre a mesa, ao lado dos outros talheres. Aquele mesmo, com dois dentes afiados e longos. A forquilha atingiu o céu da boca do glutão, causando-lhe uma enorme dor. No susto, ele perdeu a voz.
O médico da emergência não demorou para descobrir o problema. Isso porque, além da lesão no céu da boca, o amigo ainda segurava o garfo de doceiro em uma das mãos...
Bem, dos males o menor. Afinal, fora a lesão e uma boa dose de vergonha pela gulodice desmedida, o amigo não sofreu grandes danos e pôde até mesmo retornar com o restante do grupo para o Principado.
O único senão é que terá que passar um bom tempo tomando apenas sopinha de cavalo cansado. E de colher, claro!
Mas, não teve jeito - o encontro foi encerrado às pressas. Vamos deixar chegar a primavera para voltar a encher a caverna de amigos, mas, dessa vez, de olho no vizinho dos fundos. E no garfo do doceiro.
E, visando garantir a segurança do evento e também a memória dos conselheiros do Principado sobre o ocorrido, o grupo decidiu retirar o garfo de doceiro da mesa pra colocá-lo em destaque num quadro ao lado da churrasqueira!