Tá na hora de substituir o burgomestre do plantão aqui na caverna o mandado de seis meses ainda está nas mãos do Julio - mas aqui não tem eleição, não. É escala. Burgomestre é escalado, não é eleito. Durante o mandato, ele dá ordens, recebe as queixas, e sugestões. A ideia, que já funciona há muito tempo, foi do Fred, claro. O próximo da fila para substituir o Júlio é o Adilsinho. Ninguém discute, ninguém reclama. É como se fosse o administrativo que cuida dos direitos, deveres e afazeres do bando de coroas aqui do Principado. E não precisa de rituais cerimonialistas para passar o bastão; talvez, nessas ocasiões de posse, a gente perceba apenas o aumento do consumo de cervejas.
Os únicos documentos que passam de um para o outro são as notas fiscais de compras de carne, carvão e cervejas, com a devida autenticação do mandado de seis meses de cada um. Aqui não tem nem Tribunal de Contas, porque todos acreditam uns nos outros. É a fé que move montanhas diante da Serra dos Pretos Forros.
A gente nem sabe se chama isso democracia ou confiança entre os velhinhos que aqui habitam. Nunca houve impugnação, cassações, renúncias, essas coisas que a gente ouve falar em todas as eleições e mandatos por aí afora. Amém.
E olha que, como nos outros governos, tem também a figura das despesas. Tem as compras de mantimentos e bebidas; as notas fiscais não são frias nem superfaturadas, mas tudo direitinho. A burocracia aqui não existe pra confundir. Temos a previsão de gastos, devidamente especificada, a entrada de receitas e o controle do que já consumimos nesses seis meses de mandato.
Enquanto isso, continuamos aguardando mais chuvas, mais calor, vez ou outra, trovoadas. Mas com a churrasqueira sempre acesa. Isso não pode faltar. E existem também os votos de louvor. O Júlio foi o último a ganhar, quando inventou a churrasqueira sem fumaça. Maravilha, papa fina. Coisa de gênio.
Afinal, temos que respeitar os moradores da vizinhança. Nada de poluição. Com a engenhoca do Júlio, nem mesmo os pássaros se incomodam com a queima da carne. Espero que, qualquer páscoa dessas, um amigo aqui invente o churrasco de chocolate, mas, se for de coelho, já aviso: eu não comerei. Mas, como a humanidade é cruel, já deixo a regra: aqui ninguém assa o coelho!
Em tempos passados, eu perguntei ao Fred quais eram os afazeres de um Burgomestre nos países por onde ele andou. Ele explicou: trata-se de um prefeito com nome de burgomestre. Um simples administrador, sem mais delongas. Bem o nosso, organiza os passeios, os comes e bebes da nossa fraternidade. E cuida até da lembrança dos medicamentos que essa pequena comunidade unida tem que usar. Nem uniforme o burgomestre aqui usa. Em alguns países da Europa, o cara aparece um boneco enfeitado. Nossa grande meta é organizar o plano de saúde, mas é missão quase impossível: 99.9% está acima de 70 anos, e o plano para essa faixa de idade é inviável economicamente.
O que podemos fazer é atribuir ao burgomestre a função de buscar os melhores preços de medicamentos e ainda dar pitaco na alimentação balanceada dos amigos. Mas a dieta não exclui o cozido à portuguesa, servido nos meses de inverno. Sobre a pimenta, cada um sabe de si; afinal, pimenta nos olhos dos outros é refresco.