A psicóloga Iracema Rezende é fundadora e diretora da I.R. Pesquisas Mercado e Opinião. Pesquisadora de opinião pública, é especialista em análises qualitativas, com experiência em campanhas eleitorais pelo país. Alberto Lage, membro do Clube Associativo de Profissionais de Marketing Político, foi professor das duas primeiras turmas do RenovaBR, programa que formou muitos dos quadros que atuam no governo Eduardo Paes. Foi assessor da Secretaria Municipal de Educação e atuou em campanhas eleitorais em MG, RJ e ES. 
SIDNEY: Alberto, o livro "Cabeça de Candidato" explora a jornada dos candidatos em busca da vitória. O que passa pela cabeça de quem lidera uma campanha e teme perder esta condição? O que leva uma pessoa a querer entrar na política partidária?
ALBERTO: São muitos os motivos que levam uma pessoa a colocar seu nome à disposição em um processo eleitoral. Embora complexos e muitas vezes misturados, no livro optei por classificar em alguns tipos. Os candidatos podem ser movidos por vaidades ou pela defesa de uma causa. Aqueles imbuídos de um senso de missão ou vaidade demonstram grande disposição para expor suas ideias. Não se pode, porém, confundir um desejo que busca transformar e construir com obsessão, quando o político acredita que merece o cargo por destino ou uma espécie de "direito divino". A candidatura pode surgir por uma oportunidade, quando o "espírito do tempo" é favorável àquela ideologia, pessoa ou partido, facilitando a campanha. Muitos candidatos emergem de compromissos internos de partidos ou lideranças, e o livro aborda as vantagens dessa indicação política, mas também os perigos de ser um mero "poste".
A senhora afirma que a obra mergulha no lado não explorado da política brasileira: medos, vaidades e inseguranças. Como os estados psicológicos do candidato e dos adversários influenciam no resultado final?
IRACEMA: Muito já se explorou das facetas que envolvem os lados da política brasileira: o perfil eleitoral, como vota o eleitor, análises ideológicas e comportamentais que envolvem o voto, mas pouco se fala do candidato, um ator protagonista na corrida eleitoral. E o candidato é um ser humano como todos nós, que passa por medos, inseguranças, vaidades, características que tanto podem ajudar quanto atrapalhar em uma campanha. No livro exploramos como a personalidade do candidato pode influenciar no processo da campanha. Candidatos que deixam seu estado psicológico interferir negativamente no processo como um todo podem desestruturar as equipes com suas inseguranças, medos, interferências externas e perder um tempo precioso das campanhas que deveria ser utilizado em focos específicos, provocando o retrabalho de conteúdos e a reestruturação de aspectos que não precisariam estar sendo reestruturados. Uma campanha "azeitada" e com candidatos mais estruturados psicologicamente caminha melhor do que campanhas com candidatos que deixam seu ego, seu entorno e suas inseguranças falarem mais alto que a racionalidade estrutural requer. Um exemplo histórico explícito de como o ataque psicológico afeta o resultado, e que consta no livro, é a disputa entre Lula e Collor em 1989. Na época, trabalhando no Vox Populi, acompanhei de perto. O caso Lurian, veiculado na reta final, abalou visivelmente o psicológico de Lula antes do último debate, e seu desempenho foi considerado inferior ao de Collor, contribuindo para o resultado. O livro defende a tese de que as campanhas precisam incluir mais intensamente em seu planejamento o controle do estado psicológico dos candidatos, tanto para preservá-lo quanto para identificar pontos de fratura que possam ser explorados em adversários.
Iracema, o livro detalha diversos perfis de candidatos e as armadilhas comuns. Em que momento o candidato, ao se fechar em um círculo de bajuladores, perde o contato com a realidade?
Claro que ouvir elogios é bom para o ser humano, para o ego. Mas a vaidade e o ego podem cegar candidatos. Em campanha, muitas vezes o "círculo de bajuladores", temerosos de dizer verdades para o candidato, o envolve em uma bolha fora da realidade eleitoral que o afasta da real situação do processo de campanha. Colocá-los em eventos onde todos o apoiam, só trazer notícias boas, caminhar pelas ruas próximas de seu reduto eleitoral, falar apenas para os mesmos eleitores, menosprezar os adversários, pode muitas vezes torná-los míopes da realidade eleitoral. O candidato tem que estar preparado para encarar rejeições, críticas, oscilações nas pesquisas de opinião pública, obstáculos e contorná-los para seguir em frente. No livro isto está muito bem colocado por Alberto, no capítulo "Os bajuladores e a nudez do rei", no caso extremado do ditador Salazar de Portugal, que passou os últimos anos de vida em uma bolha sob um "governo falso" enquanto na prática já havia sido substituído. A verdade e a transparência são sempre o melhor caminho.
O senhor aponta que uma campanha exige que o candidato se coloque a serviço do público e que só ganha eleição quem tem condições de perder. Como atingir este estado de consciência?
Resiliência e humildade são condições essenciais para o sucesso eleitoral. Ser eleito não é um prêmio por uma trajetória bonita, mas sim uma questão de convencimento. Estar preparado para perder significa ter sabedoria para aprender com a derrota e reavaliar estratégias. Uma derrota, se bem administrada, pode ser transformada em uma oportunidade de aprendizado e reposicionamento para futuras campanhas. A dependência financeira é uma das maiores fontes de estresse. Um candidato que se endivide muito durante uma campanha, de modo que precise exacerbadamente vencer para não atingir a bancarrota, pode se desesperar com o risco da derrota, bem como quem fez acordos políticos e loteou o governo antes mesmo da abertura das urnas. Quando o candidato não tem condições de perder, qualquer risco se torna motivo de desespero, iniciando um ciclo vicioso que prejudica a campanha e acaba tornando a derrota uma espécie de profecia autorrealizável.
O livro descreve, em um ambiente de alta pressão, a "paranoia descontrolada", onde o candidato vê inimigos em todo lugar. Para a senhora, quais são os sinais de que essa situação está corroendo a estrutura da campanha?
Fica muito perceptível em uma campanha quando o candidato começa a desconfiar da própria equipe, dos aliados e do planejamento. Ele chega com notícias falsas acreditando nelas, suspeita de vazamentos internos, acusa membros, recolhe celulares em reuniões e alguns colocam espiões disfarçados. Claro, estamos aqui falando de paranoia extrema e isso dissemina um verdadeiro caos. Pode-se entrar em colapso e a campanha sair derrotada. Quando ocorre a erosão da confiança advinda da paranoia, a comunicação interna fica comprometida, fragiliza-se a coordenação e prejudica-se a execução da estratégia eleitoral podendo chegar a um caos sem retrocesso. Até mesmo na função de pesquisadora de opinião pública, posso ter meu trabalho desacreditado, impedindo que o candidato processe bem as informações colhidas nas pesquisas que seriam úteis para conectar com a população.
O dilema da "aliança forçada" e o poder do "inimigo comum" também é abordado no livro. Na opinião do senhor, de que forma uma ameaça externa, como um adversário forte, pode acelerar o processo de coesão interna da campanha?
O conceito de "alianças forçadas e o inimigo comum" abordado no livro é oriundo de experiências que eu mesmo já vi em campanhas. Políticos rivais, mas ambos de oposição a um grupo no poder que os atacou diretamente, fizeram com que diferenças que antes pareciam irreconciliáveis fossem minimizadas e ambos formassem uma chapa vencedora. O instinto de sobrevivência política se torna mais forte do que as disputas internas. Contudo, o livro aponta um desafio: muitas alianças feitas sob pressão podem se desmanchar quando o perigo imediato desaparece. Cabe a liderança encontrar maneiras de manter essa coesão não apenas ao longo de toda a eleição, mas durante um eventual mandato.