Proteção internacional para aves migratóriasFoto:divulgação

As fronteiras entre as nações são criações humanas resultados de disputas, diplomacia e poder econômico. Os atuais conflitos e guerras exemplificam bem essa cruel dinâmica global. São linhas traçadas em mapas que não dizem absolutamente nada para os animais, que seguem seus próprios caminhos guiados por instinto, clima e sobrevivência.
Diante disso, cresce a necessidade de uma atuação conjunta entre países para pesquisa, monitoramento e proteção das espécies. Com sua dimensão continental e enorme diversidade de fauna, o Brasil amplia sua presença e protagonismo nesse esforço coletivo.
Cooperação que ultrapassa fronteiras
Espécies migratórias cruzam continentes, oceanos e rios sem qualquer “passaporte”. Por isso, iniciativas isoladas têm efeito limitado. A proteção precisa acompanhar essas rotas e envolver todos os territórios percorridos. Nesse contexto, as classificações científicas conhecidas como "Apêndices" organizam os diferentes níveis de ameaça e definem medidas de conservação adequadas a cada caso.

Essas divisões funcionam como uma espécie de régua internacional de proteção. O Apêndice I reúne espécies ameaçadas de extinção, que exigem ações mais rigorosas e urgentes. Já o Apêndice II contempla aquelas cuja sobrevivência depende diretamente da cooperação entre países ao longo de suas rotas migratórias.

As propostas brasileiras, apresentadas de forma independente ou em parceria com outras nações, são embasadas por estudos técnicos do Instituto Chico Mendes e de centros de pesquisa. Esses grupos atuam no monitoramento de populações, pesquisas de campo e articulação com universidades, organizações da sociedade civil e comunidades locais.

O conjunto inclui espécies terrestres, aquáticas e aves migratórias que utilizam o território nacional em diferentes fases de seus ciclos de vida. Muitas já são alvo de iniciativas de conservação, mas ainda enfrentam ameaças crescentes.

Aves que atravessam o planeta
Entre os destaques estão as migratórias, especialmente aquelas que percorrem longas distâncias entre o Ártico e a América do Sul. Espécies limícolas, que vivem em áreas úmidas, e aves marinhas lideram a lista de propostas apresentadas pelo Brasil.

“Estamos trazendo propostas de aves que já fazem parte dos nossos planos nacionais, mas ainda não estavam listadas internacionalmente, apesar de serem migratórias”, explica Patrícia Serafini, analista ambiental e pesquisadora.

Entre elas está o Maçarico-de-bico-torto, que teve sua população reduzida em cerca de 70% nas últimas três gerações. Já o Maçarico-de-bico-virado enfrenta uma situação ainda mais grave, com queda superior a 95% desde a década de 1980. Outro exemplo é o Maçarico-pernilongo, também em discussão para inclusão em listas de proteção.

Espécies recém-descobertas pela ciência, como o Caboclinho-do-pantanal, também entram no radar. Encontrado em áreas úmidas de países sul-americanos, ele sofre com a transformação de habitats naturais. Já as aves marinhas dos gêneros Pterodroma e Pseudobulweria passam grande parte da vida em mar aberto, o que torna seu monitoramento ainda mais desafiador.

Vida que segue rios e oceanos
Nos ambientes aquáticos, o cenário não é menos preocupante. Espécies como o Pintado percorrem longas distâncias por rios que atravessam diferentes países, exigindo estratégias coordenadas de preservação.

Tubarões e pequenos cetáceos do Atlântico Sul também aparecem entre as prioridades. Entre eles estão os Tubarões-martelo e os Tubarões-raposa, altamente migratórios e vulneráveis à pesca excessiva. Outras espécies, como o Cação-cola-fina e o Cação-anjo-espinhoso, também demandam atenção.

A Toninha, considerada o pequeno cetáceo mais ameaçado da região, e o Boto-de-Lahille estão no centro de planos internacionais de conservação. Já espécies amazônicas como a Dourada e a Piraíba impressionam por realizar algumas das maiores migrações de água doce do planeta.

“Sem dados de todos os países por onde essas espécies passam, não conseguimos entender o tamanho real das populações. Isso dificulta qualquer estratégia de manejo”, ressalta o analista ambiental Daniel Kantek.

Desafios em terra firme
Entre os animais terrestres, nomes emblemáticos como a Onça-pintada seguem enfrentando ameaças como perda de habitat, fragmentação ambiental e conflitos com atividades humanas.

Esse panorama reforça uma constatação inevitável: a preservação da biodiversidade não depende apenas de ações locais. Trata-se de um esforço global, que exige cooperação, troca de informações e políticas alinhadas entre diferentes países.

No fim das contas, enquanto os mapas insistem em dividir o mundo, a natureza segue mostrando que a vida não reconhece fronteiras.
* Luiz André Ferreira é Podcaster, Apresentador, Curador e Professor Universitário. Mestre em Projetos Socioambientais, em Bens Culturais e Designer Educacional