Embora tenha passado quase despercebido por grande parte da população, o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha foi marcado por iniciativas isoladas, mas de forte valor simbólico e de ações práticas em busca da equidade.
Entre livros, histórias de superação e reconhecimento internacional, a data reafirma que celebrar a mulher negra é também reconhecer seu papel na construção de uma sociedade mais justa, diversa e democrática. Uma biblioteca especializada, uma série e o reconhecimento de trajetórias que transformam o país nos segmentos da educação, cultura, esporte e na defesa dos direitos humanos.
Do Fantástico para as Estantes Foi carregado de simbolismo o nascimento do Espaço de Leitura Maju Coutinho, inaugurado pelo Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (CEAP), em parceria com a Favelivro, na região da Saúde, que forma o espaço conhecido como a Pequena África, no Rio de Janeiro.
Recebida sob aplausos, abraços e inúmeros pedidos de fotografias, a apresentadora viveu momentos de emoção ao lado dos pais, João Raimundo Coutinho e Zilma Coutinho. A jornalista dançou com o público, recebeu livros destinados ao acervo da biblioteca e compartilhou uma homenagem que ultrapassou sua própria trajetória para reconhecer todas as mulheres negras que abriram caminhos antes dela.
"A filósofa Angela Davis disse que, quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela. Eu sou prova viva disso. Eu só estou aqui porque mulheres negras se movimentaram antes de mim. E, para vocês entenderem a força desse movimento, quero traçar uma linha do tempo que começa com a abolição da escravatura, em 1888." – justifica Maju.
O caráter afetivo da cerimônia ganhou ainda mais força durante o recital apresentado por João Raimundo Coutinho. Sob o olhar emocionado da esposa, Zilma Coutinho, o professor transformou poesia em reconhecimento à trajetória da filha e de tantas outras mulheres negras que romperam barreiras por meio da educação e da comunicação.
Para o diretor de televisão Jorge Espírito Santo, a homenagem simboliza muito mais que uma conquista individual.
"A figura da Maju é extremamente representativa. Ela é filha de educadores, e isso precisa ser lembrado. É muito importante que um espaço como este homenageie uma mulher com essa trajetória."
Do conhecimento ao pódio Se a biblioteca eterniza histórias, o esporte mostra que novas páginas continuam sendo escritas. A presença crescente de mulheres negras nas competições de alto rendimento também desafia estereótipos e amplia referências para meninas que sonham ocupar espaços historicamente negados.
É justamente essa narrativa que inspira Raízes do Pódio, websérie idealizada pelo Afroesporte. Dos 10 esportistas que servem de temática para a temporada de estreia, metade é composto por atletas negras selecionadas pelo Fund 4, iniciativa que investe não apenas em resultados, mas também em formação, saúde mental, educação financeira e desenvolvimento profissional.
A produção, conduzida pela jornalista Bárbara Olusete, revela que o caminho até as medalhas nunca é linear. Em conversas marcadas pela sinceridade, atletas de diferentes modalidades compartilham desafios, conquistas e aprendizados, mostrando que a vitória começa muito antes da chegada ao pódio. O episódio de estreia apresenta Mia Lopes, fundadora da Afroesporte, que explica como nasceu a iniciativa de ampliar a visibilidade de atletas negros e transformar a forma como essas trajetórias são contadas.
"Apesar de ser conquistada com muito sacrifício, medalha é felicidade. Por que a história do atleta negro precisa ser contada apenas pela dor?"
A parceria com a Africanize amplia o alcance da série e reforça uma mensagem essencial: atletas negros não podem ser lembrados apenas pelas dificuldades enfrentadas, mas também por suas conquistas, talentos e capacidade de inspirar novas gerações. Em outras palavras, contar essas histórias é ampliar horizontes e fortalecer referências positivas para toda a sociedade.
O projeto tem direção de Alberto Pereira Jr, que coloca os atletas negros no centro dos episódios de forma a amplificar as histórias contadas por eles mesmos. Indo das artes marciais ao atletismo, do esporte olímpico ao paralímpico, os esportistas selecionados atuam em diferentes modalidades, colecionando pódios e medalhas. Os episódios serão lançados quinzenalmente, até outubro, nos canais do YouTube da Betano e da Africanize Entre as estrelas dos próximos episódios, estão:
Ana Brito, campeã mundial de MMA Fernanda Santos, boxeadora hexacampeã baiana e três vezes medalhista em campeonatos brasileiros Natalia Vitória, ouro brasileiro no arremesso de peso Marcela Marques, atleta do vôlei sentado e arco e flecha paralímpico 7 Taiane Justino, tricampeã mundial no levantamento de peso.
A resistência que constrói o futuro É nesse contexto que ganha ainda mais significado o reconhecimento internacional concedido ao professor, pesquisador, babalawô e ativista Ivanir dos Santos. Idealizador da série documental Resistência Negra, do Globoplay, foi convidado pela Universidade de Leeds, no Reino Unido, para ministrar a conferência "Race, Religion and Resistance in Brazil" abordando protagonismo feminino, racismo estrutural, intolerância religiosa, desigualdades históricas e os caminhos construídos para enfrentá-las.
Mais do que uma homenagem individual, o convite representa o reconhecimento de uma trajetória que há mais de três décadas articula pesquisa acadêmica, formulação de políticas públicas e defesa dos direitos humanos.
Ivanir participou da histórica Marcha Zumbidos Palmares contra o Racismo, pela Cidadania e a Vida; contribuiu para debates internacionais sobre igualdade racial; esteve presente nas articulações que culminaram na criação da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) e na aprovação do Estatuto da Igualdade Racial; além de tornar-se uma das principais vozes na defesa da liberdade religiosa e das religiões de matriz africana. Sua presença em uma das mais respeitadas universidades britânicas demonstra que a luta por igualdade, respeito e reconhecimento permanece atual e necessária.
O legado permanece vivo cada vez que uma menina negra encontra um livro em uma biblioteca que leva o nome de uma jornalista que rompeu barreiras. Continua quando uma atleta percebe que sua história merece ser contada também por suas vitórias, e não apenas pelas dificuldades enfrentadas. E ganha novos significados quando pesquisadores e ativistas brasileiros transformam décadas de resistência em conhecimento capaz de influenciar universidades, governos e sociedades em diferentes partes do mundo.
Afinal, como ensinou Angela Davis e reafirmou Maju Coutinho, quando uma mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade também se movimenta com ela.
* Luiz André Ferreira é podcaster, curador, jornalista, apresentador e professor universitário Mestre em Projetos Socioambientais, em Bens Culturais e Designer Educacional
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