Bia Willcox: Ao som de Cássia

E assim foi Cássia, um ícone que veio pra realinhar nossas órbitas

Por karilayn.areias

Rio - Semana passada assisti ao filme ‘Cássia’, lançado no Festival do Rio. Foram duas horas de coração palpitando e olhos molhados.O impulso de cantar junto a toda a hora tinha que ser freado. E a minha emoção me pareceu customizada — os motivos pareciam só meus.

Cena do documentário ‘Cássia’ exibido no Festival de Cinema do RioAcervo Pessoal

Eu acompanhei o início da carreira da Cássia enquanto construía a minha própria história numa nova fase da minha vida. Pari, amamentei, passei noites mal dormidas, ri e sofri ao som da Cássia. E isso muito me ajudou a ser minha, só minha e não de quem quisesse. Descobri o mundo e aprendi, ao som da Cássia. Acompanhei as mudanças de estações e vi alguma coisa acontecer, ao som da Cássia. Foram ondas de emoção particulares (tive a impressão de que ninguém sentiu mais do que eu!). Ganhei alguma malandragem e fui uma mãe que usava All Star velho (mas branco e não azul), sempre ao som da Cássia.

Assistir ao documentário do Paulo Henrique Fontenelle foi quase uma vertigem musical. A onda é perceber a sutileza da seleção das imagens, a delicadeza da edição, a riqueza das entrevistas e depoimentos e, sobretudo, sentir a bomba emocional que foram os diálogos e falas da Cássia.

Minha avó materna me ensinou que o que quer que a gente faça, que faça com elegância e classe. E de repente eu vi no filme a minha prima, que cresceu sob os mesmos preceitos éticos que eu, emocionada, eloquente e elegante, dando um depoimento sobre a Cássia e os seres humanos — foi de deixar qualquer família cheia de orgulho. Ela aprendeu a lição com a nossa avó e fez meus olhos inundarem a cada vez que falava. E o melhor: ao som da Cássia.

Um filme que nos mostra a humanidade e a essência da dona de uma voz espaçosa e invasora. Uma Cássia que nos mostra que padrões podem ser esquecidos e rótulos também. Mostra o avesso do estereótipo e a verdade das atitudes autênticas. Como bem disse a Zélia, “Cássia veio pra perturbar”. Ali, tive a nítida impressão de que a tristeza tem sempre a esperança em seu lugar. Ri e chorei ao longo do filme, ao som da Cássia. E assim foi Cássia, um ícone que veio pra realinhar nossas órbitas.

Ternura não-domesticada. E falando em ternura, tive o privilégio de assistir Cássia na mesma sala que o seu diretor, que da maneira mais simples e singela, dedicou aquela sessão à sua diarista que assistia ao filme com ele. Um show raro de carinho, consideração e humanidade. Try a little tenderness. Sempre.

Ao som de Cássia.

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