Madonna faz 60 anos. E agora?

Nesta quinta-feira, a ex-garota materialista completa seis décadas de vida, torna-se um personagem ainda mais interessante de ser observado - e continua a quebrar tabus

Por Ronald Villardo*

Madonna
Madonna -

RIO - "Não envelheça". Este foi o conselho de Madonna ao receber o prêmio de "Mulher do ano", da revista americana "Billboard", em 2016. O recado foi claro. Em um cenário tão cruel quanto o da indústria da música, especialmente no segmento do pop internacional, a idade importa. E muito. E Madonna resolveu desafiá-la ao não sair de cena, não se render ao formato da turnê-coletânea de sucessos antigos nem estacionar seus fluxos criativos. A loura de Detroit insiste em lançar músicas inéditas, investigar novas sonoridades e revisitar as dezenas de sucessos quase sempre como releituras. "Fico entediada facilmente", disse à revista americana "Bazzar" em 2012.

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Dez recordes que ninguém tira de Madonna

Com o desejo de "não se tornar um dinossauro", como afirmou ao jornalista Ryan Seacrest em seu programa de rádio em 2008, Madonna atravessa o limite dos 60 anos quebrando, mais uma vez, tabus. Entre eles, a crença de que uma mulher mais velha não poder se mostrar sexualizada ou namorar quem achar melhor, não importa a idade. Madonna namora rapazes e não parece se importar muito com o que os outros dizem. "Não dependo da aprovação de ninguém", disse na histórica entrevista-desastre para a jornalista Marília Gabriela, em 1998. E ainda completou, "eu já fiz discos que ninguém gostou. E tudo bem. É parte da vida. Sigo em frente".

Music - do álbum 'Music' (2000)

O mantra "em frente" a acompanha desde sempre. Como quando soube assumir as rédeas da própria carreira assim que conquistou os primeiros sucessos comerciais, em meados dos anos 80. E ainda que atravessasse momentos pessoais conturbados, como o casamento com o ator Sean Penn, a jovem com colares e crucifixos não caiu na armadilha da distração artística. Pelo contrário. Madonna sempre soube que sua vida deveria ser no palco, e por isso até fez um filme sobre os bastidores de uma de suas turnês mais icônicas. E assim, tanto o show "Blonde ambition" quanto o documentário "Na cama com Madonna" conquistaram não apenas sucesso como um lugar especial na história do pop de todos os tempos.

"E por que ela desligaria as câmeras?" ironizou seu então namorado, Warren Beatty, que ao lançamento do longa já não dividia mais com ela os aposentos reais. E é claro que La Ciccone não cortou do filme a crítica aberta do ex. Pelo contrário, deve ter adorado. Se a astrologia está certa, Madonna é um clichê ambulante do que se diz do signo de Leão. Exibida, mandona e guerreira, ela insiste para que as coisas sejam do que jeito que ela quer.

Express Yourself - do álbum 'Like a Prayer' (1989)

Talvez seja mais fácil hoje em dia do que naquela época. Madonna é dona de uma posição muito confortável na indústria, com dinheiro e influência para chegar a lugares que a maior parte de seus contemporâneos, ou mesmo de artistas mais jovens, não podem chegar. Quando saiu da gravadora que a tornou uma superestrela, a Warner, em 2007, a pergunta surgiu: "A esta altura, quem precisa de quem mesmo?"

"A idade é apenas um número", diz o ditado, repetido cada vez mais frequentemente pela ex-garota materialista. E ao atravessar a sexta década, Madge entra na "age box" de gente como Bruce Springsteen (68), Phil Collins (67) ou Cindy Lauper (65).

Deeper and Deeper (do álbum 'Erotica', de 1992, em versão ao vivo na turnê 'Rebel Heart' (2015-2016)

Eu disse Cindy Lauper? Pois a cantora era considerada a "rival direta" de Madonna na já longínqua década de 80. Ambas falavam diretamente com uma jovem feminista, libertária, a fim de quebrar padrões. E um crítico da "Billboard", Jay Cocks, chegou a declarar para a revista "Time": "Cindy Lauper estará entre nós por muito tempo. Já Madonna estará fora do negócio em seis meses". E é por isso que este crítico que vos escreve recusa qualquer aposta acerca dos próximos anos da carreira de Madonna. Depois de dezenas de prêmios, álbuns, turnês e um catálogo de hits que ultrapassa três décadas, daqui para frente Madonna torna-se um personagem ainda mais interessante de se observar.

Ela conseguirá emplacar algum hit no novo álbum que lança este ano? Encherá arenas e estádios na turnê que deverá passear pelo mundo ano que vem? Conseguirá realizar algum filme realmente bom na telona? Só vendo. Em se tratando de Madonna, qualquer aposta, no sucesso ou no fracasso, seria uma ousadia. E não sou tão ousado quanto ela.

* Ronald Villardo é jornalista, especializado em cultura pop

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