Martinho da Vila vem dizendo o que acha do Brasil apenas em suas canções

'Não estou nem lendo jornal nem vendo televisão. Preferi pensar só em música', diz

Por RICARDO SCHOTT

Martinho da Vila
Martinho da Vila -

Rio - Oitenta anos de idade, 48 discos, cinco décadas de carreira e... Martinho da Vila nunca tinha feito um samba de breque. Estreou agora, no novo disco, 'Bandeira da Fé', com 'O Rei dos Carnavais', em que cita nomes como Moreira da Silva e Zé Ketti. Como se não bastasse aderir ao samba com textos falados, o cantor ainda dialoga com o rapper Rappin' Hood em 'O Sonho Continua', parceria dos dois com a filha de Martinho, Juju Ferreirah. São duas incursões pela dualidade samba-e-texto, e o cantor acha que as duas têm tudo a ver uma com a outra.

"O samba de breque é da área do rap, é tudo parente! Eu já tinha até feito rap com Gabriel O Pensador antes. Durante muito tempo, o estilo não foi tido como sendo parte da música brasileira", conta Martinho, lembrando que a música tinha sido feita para o disco do Rappin' Hood e ainda não tinha sido gravada. "Era para o disco dele, que ainda não saiu. Resolvi gravar e ele só falou: 'Vamos dar uma atualizada nela?'". A letra passou a unir nomes como Martin Luther King, Marielle Franco, Abdias do Nascimento e Lélia Gonzales.

Não foi a única fala não-cantada do disco. A repórter Glória Maria foi convidada por Martinho para recitar alguns dos versos de 'Ser Mulher'. Numa época em que o racismo voltou a ser tema de discussões, Martinho escolheu uma das mais conhecidas repórteres negras da televisão para falar do feminino e da adoção de crianças. "E ela tem filhos adotivos. Chamei-a para recitar a letra, mas não de um modo tradicional. Ela está recitando com muito ritmo, sons rolando, algo bem balançado", conta o sambista.

Do samba ao rap: Martinho troca ideia com o amigo Diogo Nogueira (alto), com Rappin' Hood (acima) e diverte-se com os músicos que tocaram com ele no novo disco, 'Bandeira da Fé' (abaixo) - fotos CG

Martinho tem acompanhado o cenário atual, em que artistas preferem não lançar mais álbuns. E diz que é o caminho natural numa época em que 12, 13, 14 músicas têm efeito cada vez menos duradouro.

"Quem questiona isso de não lançar mais discos está certo. O ideal hoje é lançar uma ou duas músicas nas redes. Eu mesmo pensei em não lançar mais álbuns. Mas a gravadora falou: 'Martinho, e aí? 80 anos, tem que fazer um disco!' E tá aí, é um disco comemorativo!", conta.

Martinho da Vila e Rappin'Hodd - CG

AULA

Quando sai disco novo de Martinho da Vila, uma coisa é certa: o ouvinte vai ganhar uma aula de brasilidade, e um retrato do país. No caso de 'Bandeira da Fé', o cantor resgata uma parceria antiga com Luiz Carlos da Vila, 'A Tal Brisa da Manhã', gravada anteriormente por sua filha Juju, em que fala do dia a dia de um trabalhador e que aqui, ganha registro vocal ao lado de outra filha, Mart'Nália.

Outro resgate: a faixa-título, gravada originalmente por Agepê em 1984, foi feita naquele ano, bem no clima da campanha das Diretas Já e não apenas foi lembrada pelo cantor, como também iniciou o conceito do disco. Já na nova 'Não Digo Amém', ele fala das decepções que vem tendo com o país. Sobre as quais prefere nem falar, fora do contexto da música.

"Eu não estou nem lendo jornal nem vendo televisão. Preferi só pensar em música", diz o cantor. "Eu sempre gravo discos conceituais. Mas nem penso em dar uma aula de história quando faço um disco novo. Penso antes de tudo em música, porque artista tem que pensar primeiro em fazer arte, né?", brinca.

"Mas sempre rola uma coincidência, porque em algumas músicas eu falo de mim mesmo e as coisas vão acontecendo", diz Martinho, que para a produção do disco, contou com um núcleo jovem e enxuto, formado por Gabriel de Aquino (violão), Alan Monteiro (cavaco), Gabriel Policarpo (percussão), Bernardo Aguiar (também na percussão) e João Rafael (baixo acústico).

Diogo Nogueira - Divulgação

LUGARES E CANÇÕES

Já em 'Minha Nova Namorada', Martinho fala do período (uma década, já) em que vem vivendo na Barra da Tijuca bairro que estranhou quando deixou definitivamente Vila Isabel, mas que aprendeu a amar. 'Baixou na Avenida', cantada com o filho Tunico da Vila, presta um tributo ao frevo e às tradições da folia pernambucana a ideia nasceu quando a Vila homenageou Pernambuco, há três anos. E em 'Fado das Perguntas', Martinho grande representante da união entre países que falam português conta a história de um sujeito que se muda para Portugal e procura se ajeitar lá, antes de levar a mulher e os filhos.

"É bastante difícil para um brasileiro se acostumar com Portugal, sabe? O jeito do brasileiro é bem diferente do jeito do português. Tem também o frio de lá, que é grande. E tem também o fato de que pegar as expressões do português de lá é sempre complicado", recorda.

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Martinho Leo Aversa
Do samba ao rap: Martinho troca ideia com o amigo Diogo Nogueira (alto), com Rappin' Hood (acima) e diverte-se com os músicos que tocaram com ele no novo disco, 'Bandeira da Fé' (abaixo) fotos CG
Martinho da Vila e Rappin'Hodd CG
Martinho da Vila e Rappin'Hodd CG
Diogo Nogueira Divulgação
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