Alegorias da São Clemente trouxeram esculturas de cães e gatosPedro Teixeira / Agência O Dia

Rio - Um dia após o rebaixamento para a Série Prata, o equivalente à terceira divisão do Carnaval do Rio, membros da diretoria e torcedores da São Clemente seguem desolados com o resultado.
Para o presidente da agremiação, Renato Almeida Gomes, o Renatinho, o penúltimo lugar na Série Ouro foi recebido com muita surpresa. "O sentimento é muito complicado. Sou filho do fundador [Ivo Gomes], um cara apaixonado na escola, e acontecer um negócio desses complica toda a história. Em 63 anos de vida, nunca aconteceu isso. Triste, muito triste para a história do bairro, da Zona Sul, por ser a primeira escola da Zona Sul. É uma escola tradicional, nunca deu problema assim", lamenta.

Sexta escola a se apresentar no último sábado (1º), a escola levou à Sapucaí o enredo "A São Clemente dá voz a quem não tem", assinado pelo carnavalesco Mauro Leite, que abordou a causa animal com um olhar crítico e irreverente. O desfile trouxe mensagens de amor e proteção aos bichos domésticos, especialmente cães e gatos, exaltando "vira-latas" e denunciando maus-tratos. A agremiação terminou na 12ª posição, com 266 pontos, e acabou rebaixada junto com a Tradição.

Pouco mais de um ano depois de sofrer um Acidente Vascular Cerebral (AVC), Renatinho diz que não esperava passar pelo rebaixamento. "Juro por Deus, não me preparava para isso. Eu estava até esperando uma quarta a oitava posição, eu acho, e quando aconteceu isso… Deus é grande, eu só levo pra Deus. E o Carnaval está mudando de uma forma assustadora para sambista, de todos os lugares. A gente tem que se preparar ou modernizar. Agora, é uma disputa com 30 escolas. Difícil para caramba, mas vamos embora. Temos que estar preparados para fazer um grande Carnaval. Eu não desisto, minha família não desiste", garante.

O presidente também questiona a avaliação dos jurados e o peso nas críticas ao enredo. "Eu quero falar de cachorro? Está bom, acho que posso ter errado. Eles não gostam. Os jurados não gostam de cachorro e gato. Só tenho essa resposta, porque o desfile foi lindo."

Quem também está bastante impactado com o julgamento é o mestre-sala Alex Marcelino. "Foi um enredo inovador. A causa animal, de repente, não impactou tanto dentro do Rio de Janeiro, mas eu recebi muitas mensagens de muita gente do Brasil inteiro sobre a causa, que ela foi muito interessante, que podia estar impactando todo mundo. Acho que a gente fez um desfile bom pra caramba, mas não empolgou a equipe que julgou. A gente precisa trabalhar mais, trabalhar forte, e visar, de novo, o Especial. Mais trabalho, e seguir em frente", avalia.

Alex pondera que todos os componentes se empenharam ao máximo e reforça que a equipe trabalhará ainda mais duro para 2026. "Peço a todos os clementianos que levantem a cabeça, que a gente vai para cima de tudo, trabalhar, trabalhar e levar a escola de novo ao grupo que ela nunca deveria ter saído. Vamos com tudo no próximo Carnaval."

'Uma provação'

O jornalista e compositor Alexandre Araújo, torcedor da escola e autor da biografia "São Clemente: uma Escola de Família" também ressalta o clima de insatisfação. "É um momento muito triste pra todo clementiano. Nenhum torcedor da São Clemente imaginava que depois de tanto tempo no Grupo Especial, cairíamos para a Intendente. Foram anos no Grupo Especial com desfiles memoráveis, que mereciam melhores posições, como 2012 e 2015. Estamos ainda atordoados com o resultado. Será uma experiência que a escola nunca viveu antes."

Alexandre lembra que a São Clemente já esteve na terceira divisão em 1983, quando o nome da categoria ainda era "A2", mas será a primeira vez da agremiação desfilando na Intendente Magalhães.

"É claro que fica o medo da escola permanecer por lá um tempo, das pessoas se afastarem da agremiação. Porém, nós, clementianos, estamos acostumados com dificuldades, desde sempre. Nossa história mostra isso, Somos uma escola aguerrida, que sofreu quando perdeu a quadra, que durante anos sonhou com uma casa pra morar. Quem casa quer casa, Carnaval de 1985. É um momento da escola se juntar. Juntar os pedaços e começar a reconstrução pra voltar em 2026 para a Sapucaí. Os clementianos que se afastaram da escola nos últimos anos precisam voltar pra casa, temos que unir forças. Temos uma comunidade forte, pulsante."

O jornalista Eugênio Leal, comentarista esportivo dos canais ESPN e torcedor fanático da São Clemente, engrossa o coro. "Embora a gente já conheça como funciona o Carnaval e sabia que ia vir esse risco, nós nunca queremos acreditar que vai acontecer. É um momento de luto para todo mundo. Todos estão tristes, cabisbaixos. Antes de qualquer coisa, sair da Sapucaí é algo muito pesado, mas é uma provação que a escola vai ter que passar. Não tem jeito", afirma.

Eugênio, que já venceu sambas na escola, também aponta ponderações a respeito do enredo escolhido. "A escola acabou muito penalizada no enredo. Era um enredo muito difícil, embora muito importante, popular, um tema que toca a todo mundo, mas era um tema de difícil 'carnavalização'. Era um desafio realizar esse tema. Acho que a escola acabou pecando nisso aí. Falar desse tema de animais, cachorros, gatos, e ela acabou tendo dificuldade nisso, traduzir em Carnaval", explica.

Ele também enfatiza que apesar da necessidade da São Clemente ter que diminuir o número de componentes e alegorias, o comprometimento da torcida será um fator-chave na reconstrução.

"É um momento de entender qual vai ser essa realidade, qual o novo mundo que a escola vai ter que viver. Se redimensionar, se reorganizar internamente… Mas o fundamental vai ser o amor do clementiano. Tem muito clementiano se colocando à disposição para ajudar em várias áreas diferentes, que podem colaborar com a escola. Acho que isso vai ser o tom: o amor das pessoas pela escola, muitas que andavam afastadas, mas estão se colocando à disposição para colaborar neste momento. Essa é a questão: só a união pode tirar a escola desse momento difícil."