Bianca Monteiro, rainha da PortelaReprodução / Instagram
Bianca Monteiro completa 10 anos como rainha de bateria da Portela e revela se pensa em aposentadoria
Aos 38 anos, a sambista, ainda, fala sobre a relação com a agremiação e desafios no cargo
Rio - Aos 38 anos e com uma década à frente da bateria da Portela, Bianca Monteiro vive um reinado histórico na Marquês de Sapucaí e afasta qualquer ideia de despedida. Rainha de bateria mais longeva da Azul e Branco de Madureira, ela fala sobre permanência, futuro dentro da escola e o desejo de seguir fazendo do carnaval seu principal projeto de vida.
Coroada rainha em 2016, Bianca estreou oficialmente à frente da bateria no desfile de 2017 e já conquistou o título naquele ano. O caminho até o posto máximo, no entanto, começou muito antes. "Minha relação com a Portela nasceu através do meu pai. Ele sempre amou a escola e me levava para o samba desde muito pequena. Eu frequentava tanto a Portela quanto o Império Serrano, porque a família era dividida. Tenho um carinho muito grande pelo Império, mas o meu coração acabou ficando com o Azul e Branco de Madureira".
Ao refletir sobre a própria caminhada, Bianca associa o reinado à construção pessoal. "A gente não acredita que vai ser capaz de chegar tão longe. Enfrentei muitas coisas nesse percurso de dez anos à frente da Tabajara. Acho que não é sobre fama, é sobre reconhecimento. É sobre estar em um lugar onde você sempre esteve a vida toda e conseguir se estabilizar, construir a sua vida a partir daquilo em que acredita, que é o Carnaval".
Ela, ainda, destaca a força simbólica de ocupar esse espaço por tanto tempo. "Cheguei ali menina, fui passando por todas as fases da minha vida e, hoje, com 38 anos, estar nesse lugar me faz enxergar o quanto sou uma mulher forte, potente. Isso me ajudou a vencer várias outras barreiras na minha vida".
No pré-carnaval, a rotina se divide entre treinos, cuidados com o corpo e tarefas domésticas. "Começo a dizer não para algumas coisas, para ter mais tempo para mim, e conseguir malhar, focar no corpo e na parte espiritual. Tento evitar bebidas alcoólicas quando dá. Não sou uma pessoa que se limita muito, mas tento controlar algumas coisas. Eu gosto de estar com o psicológico bom".
A preparação espiritual ocupa papel central antes da entrada de Bianca na Sapucaí. "O ritual acontece o ano todo. Sou iniciada no Candomblé, sou raspada, e eu e o meu babalorixá trabalhamos muito essa questão de estar com a cabeça, com o ori firme e positivo. Na semana do desfile, tem um padê para pomba-gira, banho de encanto, proteção, vela acesa. E cuidar da pomba-gira, é cuidar de quem cuida de mim a vida toda".
Entre os aprendizados da Avenida, a rainha revela escolhas práticas. "Tem algumas coisas que eu deixo de fazer. Por exemplo, passar óleo. Já aprendi que não funciona, porque o pé escorrega. Mas uso aquele cremezinho douradinho para deixar a pele um pouco mais dourada".
A Portela será a terceira escola a desfilar neste domingo (15), com o enredo "O mistério do príncipe do Bará – a oração do Negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande", que homenageia o Príncipe Custódio. Sobre as expectativas, Bianca mantém o otimismo. "A Portela vive uma fase muito boa. Estamos em uma nova gestão, com o Júnior Escafura na presidência. Com o mestre Vitinho, temos uma bateria mais acelerada, com mais paradinhas, sem medo de ousar. A comunidade canta muito. Temos tudo para brigar pelo título ou, pelo menos, pelas primeiras posições".
Para o desfile deste ano, a fantasia dialoga com tradição e identidade. "A minha fantasia está entre comportada e ousada. Ela traz um tradicionalismo. Eu nunca usei essa peça que vou usar no desfile, então, para mim, tem uma pegada mais tradicional".
Mesmo com o reinado mais duradouro da escola, a aposentadoria não entra nos planos imediatos. "Quero muito viver do Carnaval. Sou feliz por ser a rainha há mais tempo e espero ficar mais um pouco, se o presidente permitir (risos). Também penso em estar em outros lugares dentro da minha própria escola".
Além da Avenida, Bianca está prestes a concluir a faculdade e atua como fundadora da Oficina Paulo da Portela e diretora cultural da escola mirim Filhos da Águia. "Estou me formando em Serviço Social. Tenho um projeto social que já completa cinco anos. É um projeto com aulas de canto, dança e literatura, tudo voltado para o Carnaval. Atendemos cerca de 200 a 300 pessoas da comunidade de Madureira e também alcançando Oswaldo Cruz e Bento Ribeiro. É um espaço de cultura e também de formação profissionalizante, para que as pessoas possam sair dali com uma outra fonte de renda. Cuidar da minha comunidade é a forma que encontrei de devolver tudo o que eu ganho".





