Felipe Simas interpreta personagem com conflito moral em novela Divulgação/João Kopv

Rio - Felipe Simas, de 32 anos, vive um dos personagens mais complexos de "Dona de Mim", trama das 19h da TV Globo. Danilo é marcado pelo ressentimento de não ter uma oportunidade profissional à sua altura, mesmo tendo cursado ensino superior, e opta por atuar como motorista de aplicativo. Essa decisão o coloca na rota da família Boaz e sob a influência de Jaques (Marcello Novaes).
O artista reforça a admiração pela autora Rosane Svartman, autora do folhetim e com quem já trabalhou em "Malhação Sonhos" (2014) e "Totalmente Demais" (2015). "Ela conhece o mundo da teledramaturgia como poucas pessoas e foi mais uma vez um encontro incrível. É sempre um presente os personagens que ela cria, e eu estou muito feliz com mais essa parceria", celebra.
Simas descreve Danilo como "o mais sombrio" de seus personagens no horário das 19h. Segundo o ator, essa escuridão veio do abandono materno, já que o rapaz foi criado somente pelo pai, Manuel (Ernani Moraes). "É algo que permeou sempre os medos dele, as inseguranças, as necessidades de aprovações o tempo todo. Por onde caminhava, ele desejava ser aprovado e é uma luta constante e interminável. Talvez tenha sido o personagem mais profundo no sentido de um buraco existencial".
A chegada de Danilo na vida dos Boaz começa por atender às corridas de Filipa (Cláudia Abreu). A convivência desperta novos sentimentos e mesmo gostando da viúva de Abel (Tony Ramos), ele acaba vivendo um romance com a filha dela, Nina (Flora Camolese).
"Ele e Nina começam como parceiros de vilania, onde Danilo pediu ajuda quando ainda estava espionando a mansão, a mando do Jaques; e hoje se tornou realmente uma parceria de cuidado. Ele encontra nela um pouco da Filipa, e quanto mais perto da filha, talvez mais próximo da mãe. É uma trama bem interessante e peculiar, porque tem um envolvimento emocional e físico em muitas camadas", avalia Simas.
No desenrolar do folhetim, o personagem também se envolveu no assassinato de Abel após ensinar para Jaques como sabotar o carro do irmão, que sofreu um acidente fatal. O crime vira um fardo e deixa o rapaz ligado ao vilão. "Ele tem plena consciência do erro que cometeu e isso foi algo que sempre remoeu, diferente da vilania do Jaques, que faz propositadamente e não tem remorso algum. O Danilo não, ele sabe que errou e sente como se fosse perseguido por esse erro. As consequências estão sempre caminhando ao lado dele", observa.
Sobre a aliança com alguém tão calculista quanto Jaques, Felipe deixa claro que não se trata de ambição. Para ele, Danilo é levado pelas circunstâncias. "Hoje em dia, por exemplo, o Danilo está com o Jaques não apenas pela ambição, mas também pelo medo de ser preso. Então, é como se o Jaques o tivesse na palma das suas mãos e fazendo dele o que ele bem quisesse", afirma o artista.
A frágil relação entre os dois fica balançada de vez quando o rapaz descobre que o vilão troca os remédios para o tratamento da bipolaridade de Filipa e intervém para que ela não continue sendo vítima dessa manipulação. 
"Talvez a única pessoa, fora o círculo familiar, que vê alguma potência sincera, não nas coisas que faz, mas no ser humano que ele pode se tornar, é a Filipa. O encontro fez com que ele despertasse esse encantamento. Tudo isso acaba se misturando e fez ele criar um senso de proteção com ela, ainda mais depois da partida do Abel. Acho que essa descoberta pode ser uma virada de chave para a trama do Danilo".
O envolvimento do filho de Manoel no projeto social de kickboxing criado por Alan (Hugo Resende) também influencia a trajetória do personagem na novela. A experiência prévia em artes marciais, como capoeira e muay thai, facilitou a adaptação.
"A capoeira permeia todos os meus personagens e como família agora, uma consciência corporal muito interessante, então tem uma facilidade de movimentar o corpo e de reconhecer o que que faz sentido para cada personagem. Eu sempre digo que a capoeira é uma 'arma artística' que nós temos, literalmente, a gente sempre a usa em todas as nossas áreas de necessidade de criação", explica. 
Prisão dos Famosos
Em "Tremembé", do Prime Video, Felipe interpreta Daniel Cravinhos, um dos responsáveis pelo assassinato de Manfred e Marísia von Richthofen em 2002, a mando da própria filha do casal, Suzane. O papel na série, que retrata a vivência de criminosos no "presídio dos famosos", localizado no interior de São Paulo, exigiu de o ator um intenso mergulho emocional. 
"O ser humano gosta de enxergar aquilo que está no íntimo e que a nossa ética, moral e valores nos impedem. O assassinato não é algo novo, ele sempre existiu na humanidade e se sempre existiu, é porque ele faz parte do humano. E se deparar, enxergar e analisar isso, é importante como autoconhecimento também, para que a gente não repita o que já aconteceu", comenta. 
A produção aprofunda o impacto do cárcere após o julgamento do crime que chocou o país. Para o ator, essa dimensão do aprisionamento ultrapassou o set de filmagem. "Essa série foi gravada em São Paulo e eu moro no Rio, então eu estava distante da minha família, o que já era um certo tipo de aprisionamento. Mas eu acho que o pior é quando o ser humano fica preso nele mesmo, quando os pensamentos ficam rondando ao redor de si próprio e, às vezes, não encontra uma saída, que é o caso de Daniel dentro da prisão. Sem querer dar spoiler, mas a tentativa de suicídio dele talvez seja isso", adianta. 
Família e Religião 
Felipe Simas equilibra a carreira com uma vida familiar sólida ao lado de Mariana Uhlmann, com quem é casado desde 2016. Os dois são pais de Joaquim, Maria e Vicente. "Fazer coisas que a gente gosta e nos dão prazer, é importante, mas entendo também que é um período, onde a vida não se resume a fazer o que eu quero, e sim o que eu preciso. Eu encontro a felicidade justamente por saber que preciso fazer algo não por mim, mas por eles, então acho que a palavra-chave na minha vida hoje é reconhecer as prioridades". 
Desde sua conversão ao evangelho, o artista passou a encarar a atuação como um espaço de reflexão. Mesmo diante de personagens moralmente conflitantes, ele busca entender o que move cada um deles. "A religião fala sobre o desejo do ser humano de encontrar Deus. Todos os personagens que dou vida também carregam esse desejo, algumas encontram, outras buscam, mas todas sentem essa falta de algo e é o que move a humanidade dos meus personagens", diz.