Conversar com Maura de Oliveira é mergulhar em uma história de coragem, propósito e transformação real. Ela é ativista pelos direitos da infância, escritora e fundadora do Instituto Anjos Maura de Oliveira, uma instituição que atua em todo o Brasil na prevenção e no combate ao abuso sexual infantil.
Seu trabalho vai muito além das palavras — o Instituto realiza formações para educadores e pais, campanhas de conscientização e projetos em parceria com órgãos públicos, como o Programa Nota Zero para o Abuso, que já alcança todos os 92 municípios do Rio de Janeiro, e a Operação Nacional Anjos na Estrada, em conjunto com a Polícia Rodoviária Federal.
Ativista Maura de Oliveira transforma dor pessoal em projeto nacional de proteção infantilDivulgação
Na nossa conversa, Maura falou com emoção sobre como transformou uma dor pessoal em missão de vida, ajudando a criar uma rede de proteção para milhares de crianças e adolescentes. Ela é uma mulher que fez da própria história um escudo para os outros — e que hoje representa esperança, empatia e ação concreta por uma infância mais segura.
Confira o maravilhoso bate-papo que eu tive com esse mulherão:
Maura, você transformou uma dor profunda em uma missão de vida. Pode nos contar, com o que se sentir confortável, como sua vivência pessoal com o abuso sexual infantil moldou a mulher e a ativista que você é hoje?
A mulher que sou hoje nasceu do reencontro com aquela menina ferida. Escolhi acolhê-la e dar a ela o que ninguém deu: escuta, proteção e voz. Quando comecei a contar minha história, percebi que ela não era só minha. Era a história de milhares de meninas e meninos invisíveis. A partir daí, nunca mais me calei. Cresci dentro do silêncio. Um silêncio pesado, que me dizia para fingir que nada tinha acontecido. Ninguém falava sobre o Abuso Sexual Infantil.
Quando uma criança é abusada, ela não perde só a infância — ela perde o direito de existir em paz dentro de si. Por muito tempo, durante a minha infância e adolescência, vivi tentando sobreviver àquilo que me fizeram, sem entender que a cura viria quando eu escolhesse dar voz à menina que ficou presa lá atrás. Aos 16 anos, quando me libertei, iniciei minha trajetória: eu iria escrever um novo capítulo da minha vida, protegendo o máximo de crianças e adolescentes que eu pudesse!
Transformar a dor em missão não foi uma escolha fácil. Foi um grito de vida. A mulher que hoje sobe em palcos, percorre o país e entra em escolas é a mesma menina que um dia chorou sozinha, pedindo para ser escutada. Eu aprendi a traduzir a dor, em propósito. Hoje, tudo o que faço é para que nenhuma criança precise sentir a dor de ser abusada.
Quais foram os momentos mais difíceis da sua trajetória de superação? Houve um ponto de virada que te levou a agir publicamente contra o abuso infantil?
O mais difícil foi entender o silêncio do mundo. Cresci ouvindo que era melhor esquecer, que a vida seguiria se eu ficasse quieta. Mas o corpo não esquece. A alma não esquece.
Meu ponto de virada foi quando percebi, aos 12 anos de idade, que o medo que me calava, também calava a alma de milhares de crianças. Foi então, que eu decidi: eu iria escrever um livro contando sobre tudo o que vivi, e iria transformar toda aquela dor, em combustível para outras pessoas. E naquele instante entendi que minha história, por mais dolorosa, podia se transformar em proteção para outras vidas.
Foi nesse dia que deixei de ser apenas sobrevivente. Passei a ser guardiã da infância — não apenas da minha, mas de todas as crianças que ainda não sabem que têm direito de gritar “basta”.
A Maura não existe no singular, mas sim, no plural.
Ao olhar para trás, o que a jovem Maura diria da mulher que hoje lidera uma instituição que protege tantas crianças e adolescentes?
A jovem Maura olharia pra mim e diria o tamanho do orgulho que ela sente por mim, e eu diria o mesmo pra ela! E responderia: “Sim, não foi fácil, mas nós conseguimos!”.
Aquela menina que foi deixada, ferida e silenciada virou uma mulher que dá voz a quem não tem voz. Ela veria que valeu a pena sobreviver. Que a menina de ontem virou ponte para tantas outras crianças encontrarem acolhimento e esperança.
Como nasceu o Instituto Anjos Maura de Oliveira? Qual foi o primeiro passo e qual era o seu sonho naquele momento?
O Instituto sempre foi um sonho! Desde a minha infância, sempre quis criar um local, onde eu pudesse ter a chance de resgatar o máximo de crianças e adolescentes que eu pudesse! O primeiro passo foi entender que eu não podia fazer isso sozinha. Então reuni pessoas com o mesmo propósito e comecei o Instituto Anjos Maura de Oliveira, com o sonho de transformar histórias — começando pelas escolas, que são o primeiro refúgio de muitas crianças.
Hoje, o Instituto Anjos já percorreu todo o Brasil, através da Operação Nacional Anjos na Estrada, juntamente com a Polícia Rodoviária Federal, e está presente em todos os 92 municípios do Rio de Janeiro, através do Programa Nota Zero Para o Abuso, uma parceria entre o Instituto Anjos e a Secretaria Estadual de Educação do Estado do Rio de Janeiro!
Como pais, educadores e até crianças podem aprender a identificar sinais e agir com responsabilidade? Que ferramentas o Instituto oferece nesse sentido?
A prevenção começa quando o adulto escolhe enxergar.
O Instituto oferece capacitações, campanhas, livros, bonecos educativos e formações práticas para educadores, pais e profissionais da rede de proteção. Mas, mais do que ferramentas, oferecemos consciência.
A criança dá sinais o tempo todo — no corpo, no olhar, no comportamento, nos desenhos e nas palavras que escolhe ou evita. Ela fala, mesmo quando silencia. Cabe ao adulto aprender a escutar o que não é dito em voz alta.
Esses sinais podem aparecer de muitas formas e são pedidos de ajuda disfarçados de sintomas:
•Comportamentais: mudanças bruscas de humor, medo de ficar sozinha, agressividade repentina, isolamento, choro sem explicação aparente ou regressões como voltar a fazer xixi na cama (enurese noturna) ou chupar o dedo.
•Físicos: queixas constantes de dores de cabeça ou de barriga sem causa médica aparente, dificuldade para dormir, pesadelos, alterações de apetite ou distúrbios alimentares como anorexia, bulimia ou ganho de peso repentino.
•Emocionais: culpa, vergonha, baixa autoestima, retraimento, ansiedade ou um olhar que parece “longe” — típico de quem aprendeu a se desconectar para suportar o medo.
•Escolares: queda no rendimento, dificuldade de concentração, perda de interesse por atividades antes prazerosas, absenteísmo ou até recusa em frequentar a escola.
Esses sinais não surgem do nada. São a linguagem da alma tentando avisar que algo está errado.
O abuso sexual raramente acontece de forma abrupta — ele é construído no descuido, na falta de conversa e na ausência de vínculos seguros. É por isso que o trabalho do Instituto é ensinar o olhar que salva antes que a dor aconteça: o olhar atento, empático e consciente de pais, professores e profissionais que compreendem que proteger é, antes de tudo, perceber, prevenir, proteger e agir.
E cada adulto que aprende a identificar os sinais e sintomas de uma criança ferida, se torna um anjo guardião da infância — o tipo de anjo que eu mesma precisei um dia.
Recentemente você começou um novo projeto. Me conte sobre!
Comecei um novo podcast chamado "CRIANÇA PODFALAR". Nele, estarei sempre com duas crianças: a Valentina e o Davi, com 10 e 8 anos, respectivamente. Iremos receber outras crianças em alguns episódios. O objetivo é falarmos sobre o tema que envolve a violência contra a criança, o abuso sexual infantil, a pedofilia, de forma lúdica, respeitando a idade das crianças, mas preparando as crianças para prevenção.
Gravações do programa "Criança Podfalar" começaram no último fim de semanaDivulgação
Então, nós gravamos no último sábado os primeiros três episódios. Falamos sobre as emoções e os sentimentos, falamos sobre os limites do corpinho e falamos sobre o segredo. Então, todos os temas serão relacionados à importância da criança de se proteger e, principalmente, considerando que a criança tem espaço de fala.
A criança calada que vivencia uma educação autoritária, repressiva e violenta é uma criança, infelizmente, com lacunas abertas para o abusador, para o pedófilo.
Então o que nós estamos ensinando é o respeito à criança e acreditamos que a mensagem passada por mim e pelas crianças chegará nos lares e nas famílias para que, enfim, consigamos realizar a grande mudança que precisa acontecer na nossa sociedade, onde as pessoas enxerguem as crianças como ser de direito e que entendam que a infância é a infância.
Maura, converso com muitas mulheres que fazem diferença em nossa sociedade. Mulheres que são verdadeiros mulherões, assim como você! Me diga, o que é ser um mulherão?
Ser um mulherão, pra mim, é atravessar a dor e ainda assim escolher o amor, caindo e levantando com dignidade, mesmo quando o chão parece não existir mais.
É ter o coração remendado, mas cheio de coragem para seguir, cuidar e proteger.
Um mulherão não nasce pronto. Ela nasce das perdas, dos medos, das vezes em que precisou se reconstruir sozinha.
Nasce quando a dor deixa de ser prisão e vira propósito.
O que antes doía passa a ensinar e transformar cicatriz em caminho salvando outras vidas.
Ser um mulherão é carregar a própria história com orgulho, sem vergonha dela — é olhar pra trás com compaixão, e pra frente com esperança.
É usar a força que veio do sofrimento pra erguer outras pessoas, especialmente as crianças que ainda não aprenderam a se defender.
Ser um mulherão é isso: não é ser perfeita, nem invencível.
É ter alma inteira o bastante pra sentir e, mesmo ferida, continuar acreditando que o amor salva!
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